A auto-estimulao 
precoce do beb 




Editores: Maria Jos Silveira, Felipe Lindoso, Mrcio Souza 
Capa: Douglas Canjani
Crianas da capa: Gabriel Aidar, Jos Eduardo da Fonseca, 
Laura Fraiz-Grijalba Lindoso, Luana Lindoso e Rafaela Canjani
Produo Grfica: Mirian Cunha 


Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) 
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 

Klajner, J.p. Henrique 
A auto estimulao precoce do beb / J.P. Henrique 
Klajner. --So Paulo : Marco Zero, 1998. 

ISBN 85-279-0326-1 

1. Bebs -Desenvolvimento 2. Bebs Linguagem 3.Bebs -Psicologia 4. Capacidademotoraem bebs 5.Choro em bebs 6.Mes ebebI.Ttulo. 
98-1106 CDD-155.422 

ndices para catlogo sistemtico: 
1.Bebs: Desenvolvimento: Psicologia infantil 

155.422 
Copyright  by Henrique Klajner


Direitos para publicao no Brasil adquiridos pela Editora Marco Zero,
Rua da Balsa, 559, So Paulo, SP, CEP 02910-000 
Telefone: (011) 876-2822 Fax: (011) 876-6988 


A primeira edio deste livro no Brasil foi publicada em abril de 1998. 




Dr. HENRIQUE KLAJNER 


A auto-estimulao 
precoce do beb, 


OU seja, 
como desenvolver as potencialidades do seu filho 
fazendo basicamente duas coisas: deixando-o no cho 
e reconhecendo seu choro 





Agradecimentos: 
aos meus pais, pelos poucos erros involuntrios que me propulsiona- 
ram e aos infinitos acertos que me orientaram;
 toda minha famlia que sempre me apoiou, errando ou acertando; 
aos meus sogros que me receberam e consideraram; 
 minha esposa, a quem devo toda minha vida e tudo o que sou;
aos meus filhos, testemunhas e provas de todos meus erros e pos- 


sveis acertos; 
e a Deus que permitiu tudo, perdoou tudo e, com sua infinita mise- 
ricrdia, doou-me todas as chances que sempre tive e a Quem dirijo
minha orao como pessoa e mdico.


"Deus, concede-me a Serenidade para aceitar as coisas que no posso 

modificar; 
a Coragem para modificar as que posso; 
a Sabedoria para perceber a diferena e 
a Fora para lutar pelo que acredito." 

Que assim seja 




Sumrio


1. Quero ter filhos ou no? .............................. ................................... 9 
2. O beb j est em casa ...................... ................................................ 15 
Combustvel: so os alimentos, fonte de energia da criana ................ 18 
Suco: um reflexo. Intervalo entre mamadas. O choro: 
a linguagem do beb. Agua e ch. Mamadas na 
madrugada  Recomendaes 

Higiene fsica ........................................................................................ 29 
O quarto O bero O banho. Asroupas O ambiente 

Higiene do sono ................................................................................... 33 
O sono e o choro. A perda de flego 

Higiene mental ..................................................................................... 39 
A "constituio" familiarOs limitesO choro A auto- 
estimulao precoce 

3. A criana em seu primeiro ms de vida ..................................... 56 
O pediatra. As "superofertas" e os mimos. A autoestimulao precoce 

4. A criana em seu segundo ms de vida ...................................... 67 
Passeios e banhos de sol. Vacinas 


5. A criana em seu terceiro ms de vida ........................................ 71 
Vacinas. O primeiro sorriso- A auto-estimulao precoce e o 
cho  Os limites. O choro e a manha 

6. A partir do quarto ms de idade ...................... . ........................... 85 
7. Estabelecimento da "constituio" do lar .................................. 88 
Ainda o choro. Asexcees  Erros eavaliaes Aalimentao 
8. Ingredientes para a "constituio" familiar ............................... 101 
Honestidade e sinceridade. Autenticidade  Desprendimento 
Planejamento Amor, humildade e caridade desinteressada 
Universalidade. Perseverana. Constncia e independancia 
na educao. Justia e lealdade  Miscelnea 
9. O acompanhamento efetivo da criana .......... .., ................ . ....... 118 
A escolha do pediatra Alimentao  Chupeta -A autoestimulao precoce. Modelo familiar. Os limites. Distrbios 
de comportamento freqentes A criana excessivamente atira 
Acriana tmida Sono, choro ebirras Escola 
10. Prevenindo desvios comportamentais mais graves ............. 162 
11. Tchau, por enquanto .............. . ...................................................... 169 


Dedicatria 

Este trabalho  dedicado queles que se interessam por crianas, que 
as amam, que pretendem delas muito mais do que descendncia, do que 
uma configurao social, do que um preenchimento de vazios, do que alvo de descargas afetivas, do que esperanas de auto-realizaes irrea- 
lizadas, do que manequins de exibio, do que elementos de sublevao. 
Mas que pretendam ter nos filhos pessoas que possam ser chamadas de 
humanas na plena acepo, em cujos coraes sejam plantadas as mesmas 
sementes de amor, fraternidade, humildade, dedicao, amor ao prximo 
e a todas as coisas que o cercam, do to esperado perdo, e de cujas 
cabeas possam transbordar sabedoria intelectual e humana, tudo consubstanciado numa base slida, em cujo fazimento se encontrem noes 
psicolgicas e de orientaes gerais que possam auxili-las, no dia-a-dia, 
a tomar atitudes corretas em momentos oportunos. 

Vai aqui o meu abrao e meus agradecimentos antecipados a todos 
aqueles que me ajudaram nesta empreitada. Sei que minha irm Snia e 
muitos outros amigos da espiritualidade aqui esto, inspirando-me, intuindo-me, muitos irmos e companheiros de jornada j esto ao meu lado como minha esposa Rosaly, 
meus pais, meus sogros, meus filhos, meus 
netos, todos os meus professores, tanto os oficiais como os professores da 

7




vida, inmeros, meus amigos e parentes, sempre me cercando com cari- 
nho e, mesmo sem saber, contribuindo para minha formao. 

Agradeo especialmente aos nossos amigos Ronaldo e Aparecida 
Zarattin, pela pacincia que tm tido conosco nesses ltimos anos; tambm a todos os nossos companheiros de aprendizado, junto de quem re- 
cebemos a ddiva Divina na possibilidade de trabalhar pelo bem de nos- 
sos irmos necessitados. 

Especial agradecimento devo minha amada esposa Rosaly que, ape- 
sar de todos os seus problemas, tem-me a seu lado, amparando-me, 
perdoando os meus deslizes, procurando fazer com que nosso convvio 
seja to feliz. 

Salve todas as crianas de todas as idades! 

Salve todos os que as amam, salve todos aqueles que as odeiam, salve 
todos aqueles que as toleram, salve todos aqueles que nelas tm espe- 
ranas ou que nelas depositam tudo o que tm de melhor, enfim, salve 
Nosso Pai do Cu que tudo permite e que por tudo nos perdoa. 

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1
Quero ter filhos ou no?


A primeira coisa a analisar  a criana ser ou no ser desejada. 

Desde o nascimento, o primeiro contato que a criana tem  com a 
me. Esse contato comea muito tempo antes do nascimento; ele se inicia 
na poca da fecundao. Quando a criana ainda  um ser unicelular, o 
ambiente em que se encontra, o tero, lhe d a sensao de proteo, de 
carinho, de ser suprida em todas suas necessidades. Ela procura nele seu 
lugar para ficar e essa procura, at onde vo nossos conhecimentos amais, 
 regida pela natureza e ainda no elucidada pela cincia. A me, com seu 
tero, d ao feto condies de evoluir nos moldes ditados pela natureza. 

Esse contato  cada vez mais ntimo, O tero-me vai se adaptando s 
condies da criana, ao seu tamanho,  sua forma, propiciando-lhe as 
melhores condies de conforto, higiene, nutrio e proteo. A criana 
toma cincia das boas intenes desse seu ambiente, passa a confiar nele e 
permite-se usufruir tudo, sentindo-se muito bem, 

O que tambm  digno de nota  que, mesmo nessas timas 
condies, ela j comea a ter a sensao de limites em sua existncia. Seu 
espao fsico  limitado pelas dimenses impostas pela constituio materna, sua nutrio depende do estado de nutrio de sua me, do tamanho e condio da placenta, 
dos hbitos (fumo, trabalho, atividade fsica, 
perfil emocional, etc.). Enfim, sua liberdade no  completa (essa obser- 
vao nos ser muito til quando, em outra parte deste nosso trabalho, 
abordarmos os problemas educacionais). 

9 



Dr. Henrique Klajner 

Ao mesmo tempo, a me, pelo fato de ter de suprir seu novo rebento, 
se v com novas limitaes. A simples noo de estar grvida j muda seu 
estado emocional. Alegria, ansiedade, tristeza, depresso, felicidade, eufo- 
ria e outras sensaes se alternam em ritmo varivel e incessante at 
chegar a um equilbrio. 

A gestao normal supre a criana com tudo de que necessita, ao 
mesmo tempo que seus limites vo sendo impostos simultaneamente 
com o estmulo para a evoluo. Ao nascer, a criana tem seu primeiro 
contato externo com a me. Interrompe, assim, sua dependncia exclusi- 
va com relao a ela para iniciar uma fase em que, embora continue de- 
pendente para quase tudo, a me j no  exclusiva e indispensvel a seu 
suprimento e manuteno bsicos. 

Nas crianas que nascem normais e sem doenas, as funes fisiol- 
gicas esto presentes, garantidas pela natureza que sabiamente as formou, 
colocando em funcionamento todos seus rgos e sistemas de maneira 
perfeita, sincrnica e adaptados ao meio ao qual a criana pertence. A 
criana dever apenas manter-se em condies de sustentar esse fun- 
cionamento e, para isso, necessita de combustvel para sua mquina, ou 
seja, a alimentao; precisa da proteo contra as agresses fisicas, qumi, 
cas, emocionais e infecciosas; e da higiene, para evitar obstculos em sua 
vida e seu desenvolvimento. 

Nesse particular, algo interessante acontece. Sabe-se que para tudo
isso a criana pequena  totalmente incapaz. O fato de pertencer  espcie
intelectualmente mais evoluda do planeta faz que, em troca, ela perca
muitas outras capacidades importantssimas para a sobrevivncia. Se
compararmos um recm-nascido humano a um de outra espcie animal,
por exemplo um co, uma ave, ou outro animal silvestre ou selvagem, ve-
rificamos que quanto mais evoluda a espcie do ponto de vista inte-
lectual, mais cuidados requer de terceiros para sua manuteno e sobre-
vivncia. 

Se examinamos um dos seres mais primitivos, por exemplo os 
unicelulares, vemos que a sua reproduo  rpida, sua vida mdia  cur- 
ta, mas eles conseguem se manter evoluindo, extraindo da natureza, do 
meio em que se encontram, tudo de que necessitam, sem ajuda de outros, 
apenas com os elementos com os quais a natureza os dotou. s vezes, as 

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A auto-estimulao precoce do beb 

bactrias (seres unicelulares primitivos) sobrevivem apesar de as comba- 
termos, em casos de doenas, com antibiticos. 

A medida que se evolui na escala animal, a necessidade de amparo 
dos recm-nascidos aumenta e chega a dependncias extremas, como 
ocorre no ser humano, que vai desde a alimentao at os cuidados de or- 
dem fsica e ambiental. Lendas, como a de Rmulo e Remo que foram 
alimentados por uma loba no episdio da fundao de Roma, ou casos 
verdicos de animais como ces que teriam mantido ou salvado crianas 
emsituaes calamitosas, atestam anecessidade que oser humano temde 
contar com terceiros para sua sobrevivncia. 

Porm, foi  me que a natureza delegou os prazeres e as obrigaes 
dos cuidados de seus prprios filhos. Experincias realizadas com maca- 
cos evidenciaram a diferena de comportamento e de evoluo de filhotes, se mantidos sozinhos, ou mantidos aos cuidados de outros que 
no suas prprias mes. Quando sozinhos, ficam tristes, desinteressados e 
chegam a ter sua vida abreviada. Quando em companhia de adultos es- 
tranhos tudo melhora, mas  com a prpria me que seu desenvolvimen- 
to chega  plenitude. 

Mas o que sucedeu no decorrer do tempo? As mes, pelos mais diversos motivos, foram obrigadas ase voltar para outros tipos de ativi- 
dades dentro e fora do lar e, na maior parte das vezes, incompatveis com 
os cuidados intensivos s suas crianas. 

Se a participao nesse mercado de trabalho fosse marcada s pelo 
trabalho em si, at que tudo poderia se arranjar a contento em relao s 
crianas. Mas os afazeres da casa e at os cuidados com as crianas con- 
tinuam a reclamar e exigir a presena e a participao da me. A casa pre- 
cisa ser limpa e abastecida, as roupas lavadas, os filhos transportados para 
a escola, levados a mdicos e dentistas, alimentados. O "dia atual" tornou- 
se muito curto para as mes, que geralmente continuam ase responsabi- 
lizar por todas essas atividades, quase sempre se vendo obrigada a delegar 
a terceiros parte do trabalho do lar. 

Afamlia moderna obrigada acolocar seus afazeres numa ordem de 
prioridades e tristemente se observa que na maior parte das vezes a crian- 
a no  priorizada. O aleitamento, o acompanhamento das crianas no 
seu crescimento, a satisfao de suas necessidades de ateno, afeto, cari- 

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Dr. Henrique Klajner 

nho, conversas, conselhos, ensinamentos bsicos, estimulao para o relacionamento, para a fala e convvio social e familiar, para o interesse pela 
intelectualizao e cultura, para as artes, enfim, para tudo de que uma 
criana necessita, foram relegados, na poca atual, exatamente quando o 
progresso to rpido requer mais estimulao. 

Nos anos passados, a me, durante os afazeres da casa tendo o filho ao 
lado, passava-lhe informaes at mesmo em conversas informais porm 
muito valiosas. Uma simples cano que ensinasse marcava muito mais do 
que as gravaes atuais, pelo carinho com que era transmitida; as canes 
eram pessoais e mexiam no s com os ouvidos ou satisfaes conscientes 
da criana, mas tambm marcavam seu inconsciente, onde eram arquivadas de uma forma personalizada. 

Atualmente, quando as mes se dispem a ficar com as crianas aps' 
um dia de trabalho estafante, elas ou os maridos ou as prprias crianas j 
no encontram condies para ter disposio e pacincia. Como  con- 
senso geral e difundido amplamente que o convvio  importante, o jeito 
mais prtico da famlia conviver  todos sentarem numa sala, tendo  
frente um aparelho de TV suprindo as crianas em suas necessidades de 
informaes quase sempre de maneira no satisfatria. Mesmo quando 
satisfazem, chegam  criana despersonalizadas, desprovidas de emoes 
e de envolvimento familiar, no conseguem estabelecer elo algum entre os 
familiares, no evitando o afastamento mtuo entre todos. Aos poucos 
chega o cansao, o inevitvel desinteresse e, todos vencidos, procuram o 
merecido descanso. Com o passar do tempo e a repetio diria e invari- 
vel dessa rotina, a argamassa da unio familiar vai se diluindo at que a 
coexistncia se torna individualista, egosta, egocntrica, e as conseqn- 
cias dessa desunio passa a marcar a vida dessa famlia. 

Nos dias de hoje, a preocupao dos pais com suas obrigaes e so- 
brevivncia  grande demais e a preocupao com as necessidades hu- 
manas da criana vai paulatinamente sendo substituda pela primeira. 
Sua ateno e pacincia para com as crianas so insuficientespara satis- 
faz-las no estabelecimento de uma base slida que lhes d segurana e 
um desenvolvimento pleno e sadio. 

Nesse particular ocorre um paradoxo, Na poca em que o convtvio 
entre mes, pais e filhos era maior, o contato da criana com o mundo ex- 

12 



A auto-estimulao precoce do beb 

terior era menor. Os meios de comunicao eram mais lentos e escassos e 
resumiam-se a jornais, revistas e rdio, A vida era mais tranqila, havia 
tempo para longos papos e troca de idias e as notcias eram trazidas de 
fora ou retransmitidas pelo pai a partir do que leu ou ouviu. Nos dias 
atuais, as crianas tm um contato enorme com !os meios de comuni- 
cao, maior e mais precoce do que o dos seus pais, sempre trabalhando. 
Suas dvidas, relatos, assuntos que requerem discusso e esclarecimentos 
esto sempre adiante da capacidade que os pais tm para atend-los.  
muito freqente o pai, ao chegar, receber dos filhos e da esposa infor- 
maes s quais ele ainda no teve oportunidade de acesso. 

Mas as crianas necessitam do convvio e das qrientaes dos pais. O 
pouco tempo que os pais dispem para a abordagem de tudo o que as 
crianas requerem e a impossibilidade de faz-lo, pelo menos em tempo 
hbil, fazem com que se acumulem, nos filhos, necessidades no satis- 

I 

feitas que passam ase projetar em todas as reas do seu desenvolvimento: 
afetivo, disciplinar, escolar, alimentar, mental, sexual, cultural, etc. Essas 
necessidades, no sendo satiseitas, vo sendo aos poucos sublimadas e 
recalcadas e, no futuro, podem se tornar causas de desajustes comporta- 
mentais nem sempre compreendidos ou aceitos. 

Por tudo isso, pela impossibilidade de vislumbrar o bom desempe- 
nho de suas funes como pais, os casais se questionam sobre ter ou no 
filhos, e quantos,  comum dizerem que filhos do trabalho, que experincias de outras pessoas com filhos no lhes agradaram, ou que um fi- 
lho basta. As crianas progressivamente passaram! a ser vistas, elas mesmas, como viles da historia, obstculos  vida, origens de transtornos e 
desgostos. 

A prole, em pocas passadas, dificilmente chegava a preocupar as 
pessoas e era conseqncia natural da vida aps o!casamento. Um casal, 
que antes se dispunha  constituio de famlia, tinha os filhos ainda 
jovem, quando as disponibilidades orgnicas So mais adequadas. 
Atualmente, por motivos de ordem social, econmica, educacional ou 
cultural, os casamentos acontecem mais tarde, os casais se dispem a ter 
filhos mais tarde tambm, numa idade em que aS pessoas esto menos 
aptas do ponto de vista biolgico e psicopedaggico para estabelecer uma 

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Dr. Henrique Klajner 

relao interativa com seus filhos. Da a necessidade de conhecer proce- 
dimentos que lhes dem condies de se adaptar a uma vida familiar, 
onde os filhos possam ter deles, de maneira consciente, tudo que os filhos 
de antigamente tinham de forma inconsciente e automtica. 

O casamento representa uma mudana importante na vida de qual- 
quer pessoa. Ter filhos, outra. Dvidas existem e decises devem ser 
tomadas e, se possvel, programadas para que tudo saia a contento, 
trazendo satisfao, alegria e felicidade para todos. O ideal seria obter 
orientaes antes da tomada das decises. Tentativas de promover cursos 
so feitas, pr-matrimoniais e pr-natais, mas conclui-se que na prtica o 
melhor  o ensinamento terico-prtico quando a pessoa j est diante 
dos problemas. 

Quanto ao nmero de filhos para cada casal, o planejamento familiar 
ajuda a decidir mas no permite prever com exatido. Somos da opinio 
de que esse nmero  estabelecido  posteriori, uma resoluo a ser tomada pelo casal no "futuro" depende de inmeros fatores, nem sempre de 
exclusiva competncia ou vontade mas de como tudo evolui na vida fa- 
miliar. O que se tem como certo  que, depois de um primeiro filho bemsucedido, a vontade e coragem para ter outro(s) vm rapidamente. Os ou- 
tros fatores passam a ter seus respectivos e relativos pesos. 

Nosso propsito aqui  exatamente orientar os pais para que con- 
sigam um ambiente familiar onde todos se realizem sem desgastes nem 
motivos de lamrias, onde todos se respeitem mutuamente e respeitem a 
posio e os direitos de cada um, sem cansaos desnecessrios e com pos- 
sibilidades amplas de evoluo, verdadeiro objetivo de nossas vidas. 

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2


O beb j est em casa


Os contatos mais ntimos da famlia com o beb comeam a partir 
do seu terceiro dia de vida quando, j em casa, os pais realmente assumem 

o comando de todos os procedimentos e cuidados. So, ento, assaltados 
por incontveis dvidas quanto ao presente e ao futuro, mesmo j tendo 
tido experincias anteriores. 
A primeira impresso dos pais  que crianas so todas iguais e con- 
dutas podem ser norteadas por orientaes gerais. Ao mesmo tempo 
temem que episdios particulares possam ocorrer e os aterroriza a simples idia de que as orientaes genricas possam no ser suficientes para 
seu caso particular. Mas o medo inicial diminui  medida que o tempo 
passa, que o casal vai adquirindo mais segurana e autoconfiana. Instala- 
se, aos poucos, uma tranqilidade crescente. 

Dois princpios universais devem estar constantemente presentes na 
cabea dos pais: 

1) Todo ser vivo tem o instinto da sobrevivncia e, como tal, preserva, a todo custo, sua vida. 

2) A sobrevivncia de qualquer ser vivo animal exige basicamente: 
alimentao, hidratao, sono e satisfao das necessidades fisiolgicas 
como urinar, evacuar e suar. Colocamos tambm em nossas considera- 
es como necessidades bsicas as espirituais e psicolgicas, as trocas de 
expresso de amor, delicadeza, carinho, compreenso, como tendo a mes- 
ma importncia que as materiais. A satisfao conjunta de todas as neces- 

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Dr. Henrique Klajner 

sidades bsicas forma um molde dentro do qual a criana progride com 
embasamento firme, forte e sadio. Damos a mesma importncia para to- 
das por acharmos que o ser humano, e principalmente a criana, reage co- 
mo um todo e suas necessidades devem ser todas igualmente satisfeitas 
por se influenciarem mutuamente. 

O recm-nascido consegue realizar sozinho apenas as funes fisio- 
lgicas. Para tudo o mais depende de terceiros: alimentao, higiene, 
transporte, etc. 

No incio tudo  festa. 

Em geral, a me est bem descansada pelos dias passados na maternidade. Chega em casa ainda sob os efeitos inebriantes da alegria de ser 
me, da alegria contagiante da famlia a cerc-la com carinho e mimos, 
dos amigos que festejam e querem cumprimentar. Aos poucos tudo se 
acalma e em quinze dias, no mximo, todos voltam aos seus afazeres, a 
criana se incorpora  vida do casal, passa a fazer parte da pequena famlia 
e a vida retorna ao seu ritmo, porm, bem diferente do anterior  chegada 
do beb. 

Com a chegada da primeira criana, a famlia aumenta em cinqenta 
por cento. Esse aumento no parece to grande se avaliado apenas pelo ta, 
manho do beb mas  muito grande pela enorme solicitao que exerce. 

Tudo muda. H necessidade de se adaptar  sua presena e aos cuida- 
dos constantes e diuturnos que reclama. O casal j no sonha, o beb  
realidade, os planos feitos devem ser implantados, o futuro torna-se pre- 
sente, o sono contnuo e tranqilo que tinham torna-se interrompido e 
preocupado, os horrios habituais e regulares para refeies, banhos, des- 
pertar devem ser alterados, assim como encontros com amigos e lazer. 
Enfim, tudo, mesmo o tocante  parte profissional, passa a ocupar um es- 
pao diferente.  preciso muito amor e compreenso mtua para enfrentar os primeiros dias, principalmente quando o filho  primognito. 

Ante a insegurana dos pais em administrar a situao, nunca faltam 
opinies e solues provenientes das mais variadas pessoas, apoiadas em 
diferentes experincias e sugerindo os mais diversos procedimentos. 
Infelizmente essas opinies e procedimentos nem sempre batem com o 

16 




A auto-estimulao precoce do beb 

que  atual e o atual de hoje poder no ser o de amanh. As opinies so 
sempre baseadas em experincias vividas e nem sempre so compatveis 
com o que se aceita nos dias que correm. 

As condutas que atualmente se preconizam para os bebs visam satisfazer ao mximo suas necessidades bsicas em conforto, sade, bemestar, para faz-los saudveis 
e felizes. Criana feliz  comeo de adulto 
feliz e, por isso, tudo o que se faz deve ter como objetivo sua constante 
felicidade. 

Tendo a felicidade como objetivo, fica mais fcil compreender como 
deve ser encarada a criana que acaba de chegar. Para que possa conseguir 
realizaes e mritos que alimentam sua auto-realizao, auto-estima e 
real felicidade, dever esforar-se e conseguir os sucessos por seus 
prprios meios, desenvolvendo progressivamente suas possibilidades. 
Dever ser ajudado por outros mas, apenas, em suas reais necessidades 
bsicas. 

Enquanto o beb ainda  pequenino, suas necessidades so satisfeitas 
pelos circunstantes em cerca de 90%. Para os 10% restantes ele conta com 
seus prprios recursos. Para as necessidades fisiolgicas como evacuar, 
urinar, dormir, lacrimejar, ensalivar, deglutir, chorar (ou berrar), respirar, 
etc. conta com os respectivos rgos e sistemas, j funcionando; so as 
chamadas funes vitais porque mantm a vida. Elas obedecem a im- 
posies da natureza, acontecem com, sem ou apesar de intenes ou in- 
terferncias, so autnomas e se influenciam umas s outras reguladas 
por um rgo central e complexo, o crebro. 

Para que todo esse sistema funcione, como em toda "mquina", h 
necessidade de combustvel gerador da energia, do comburente que  o ar 
(oxignio), condies de conforto e limpeza, cuidados de conservao e 
suporte.  nesse aspecto que entra a atuao essencial das pessoas que 
cuidam da criana, necessitadas da melhor e mais atualizada orientao 
possvel, para lhe oferecer o melhor que puderem. 

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Dr. Henrique Klajner 

Combustvel so os alimentos,

fonte de energia da criana 

Nosso organismo conta com o aparelho digestivo para produzir 
energia a partir dos alimentos que, por reaes qumicas, so reduzidos a 
molculas cada vez mais simples, num processo maravilhoso que a libera 
para ser utilizada em todas as funes. Como todos, o aparelho digestivo 
do recm-nascido ainda  imaturo e consegue processar apenas alimentos 
simples. Sua maturao  progressiva, aumenta com o tempo assim como 
sua capacidade digestiva que chega a processar os alimentos mais complexos em idades posteriores. 

Durante a vida intra-uterina a me, atravs da placenta, supre o feto 
com energia por meio de elementos como oxignio, anticorpos, sdio, 
potssio, zinco, aminocidos, gorduras, protenas, glcides, etc., prove- 
nientes da sua alimentao. A partir do nascimento, a via de fornecimen- 
to transplacentria  interrompida. Aparelhos e sistemas que foram se 
formando e progressivamente entrando em funcionamento passam a as- 
sumir suas funes no suprimento geral da criana. Solicitados, ento, a 
comear seu trabalho so o aparelho respiratrio com o primeiro choro, 
o digestivo, quando se lhe fornece a primeira refeio, o circulatrio e o 
urinrio. 

No tocante  respirao, as trocas gasosas se efetuam no nvel dos 
alvolos pulmonares, membranas finas, vascularizadas e perfeitas. Os 
pulmes, que na vida intra-uterina estavam colados pelo fato do feto ain- 
da no respirar, expandem-se ao primeiro choro, a respirao continua 
faz com que adquiram progressivamente expanso total, incrementando 
as trocas gasosas. O primeiro choro, assim como todos os choros da 
criana, so os principais fatores responsveis pela expanso pulmonar e 
pelo aprimoramento das funes respiratrias. 

Alis, em relao ao choro, achamos que a criana no chora, ela 
berra. Nos berros ela pe toda a fora que exercita e desenvolve toda a 
musculatura envolvida na respirao: a intercostal, o diafragma, a do 
pescoo, da laringe, da faringe, da boca, do abdmen. O bom desenvolvi- 
mento de toda essa musculatura contribui para a perfeita incurso area e 

18




A auto-estimulaco precoce do beb 

troca gasosa e, futuramente, para a perfeio da mastigao, da fala e da 
digesto. O choro, alm de tudo,  benfico por sempre contribuir para o 
gasto de energia emocional acumulada, gasto que acalma, tranqiliza o 
sono e previne futuras neuroses. 

Do mesmo modo, atravs do fenmeno necessidade-uso-exerccio, 
todos os aparelhos e sistemas vo sendo postos a funcionar, amadurecer e 
chegar ao funcionamento pleno. O aparelho digestivo desenvolve suas 
funes de acordo com os alimentos que se oferecem  criana. O pri- 
meiro deles deve ser o leite materno. No temos dvidas quanto ao ines- 
timvel valor do leite materno. Houve tempos em que se desdenhou do 
seu real valor. Em minha formao profissional, mesmo durante a 
residncia mdica, aprendi muito a respeito de aleitamento artificial (no 
materno). O natural, materno, era mencionado de passagem. O mais importante, naquela poca, era saber tudo a respeito das inmeras apresen- 
taes do leite de vaca, modificados ou no, dos seus mais diversos modos 
de preparo, cada um com suas indicaes especficas. 

Um aprendizado to paradoxal em vista do que hoje se aceita, talvez 
tenha explicao em dados histricos de meados do sculo XIX nos pa- 
ses europeus, mais desenvolvidos, poca que coincide com o incio da era 
industrial. As indstrias passaram a requerer um nmero cada vez maior 
de pessoas para trabalhar e preencher as necessidades de mo-de-obra. 
Atradas por motivos pecunirios, as mulheres foram convidadas a par- 
ticipar do mercado de trabalho, foram se afastando dos respectivos lares, 
do convvio familiar e dos filhos, sendo substitudas por terceiros no exer- 
ccio de suas funes domsticas. A amamentao tambm passou a ser 
substituda precocemente por alimentos adaptados em cada regio; no 
Ocidente, pelo leite de vaca. Desenvolveu-se, a partir dai, a indstria 
lctea que, com o passar do tempo, chegou  posio de destaque no 
abastecimento alimentar dos grandes centros urbanos, importante ainda 
nos dias de hoje. 

Para ajudar a afastar as mes de seus lares, inmeros preconceitos 

comearam a ser fabricados, visando convencer as mulheres a no ama

mentar porque "a amamentao as prejudicaria, tornando-as leias e com 

os seios cados". O tabu da virgindade, alm de procurar inibir a prtica 

sexual e evitar a propagao das doenas venreas ento muito dissemi- 

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Dr. Henrique Klajner 

nadas, serviu para que se evitassem filhos "responsveis" pela presena 
quase obrigatria das mes nos lares e a impedir que pudessem assumir 
trabalhos fora. 

O enfoque da alimentao dos bebs mudou desde que se comeou a 
estudar mais acuradamente o leite materno e sua influencia na sade,  luz 
da imunologia, especialidade mdica dedicada ao estudo das defesas 
orgnicas, que ganhou enorme impulso a partir das dcadas de 60 e 70 e 
que demonstrou as reais vantagens do aleitamento natural sobre o leiteartificial. Atravs do leite materno so veiculados anticorpos secretrios tipo 
IgA, que defendem a criana pequena e indefesa contra a maior parte das 
infeces virais e bacterianas incidentes nessa faixa etria, funcionando, 
eles prprios, como antgenos nos intestinos dos bebs a estimular a produo dos seus prprios anticorpos. Alm de ser uma alimentao " la 
carte", o leitematerno, atravs de ummecanismo ainda no explicado, oferece  criana exatamente aquilo de que necessita. Sua composio  adap- 
tada para a espcie humana, o de melhor digestibilidade e menor risco de 
alergias alimentares ao reduzir, quando mantido como alimento exclusivo, 
a exposio precoce do intestino a alimentos estranhos. O exemplo mais 
emblemtico  a alergia adquirida ao leite de vaca, identificada h mais de 
uma dcada, que se manifesta por sintomas e sinais relacionados ao 
prprio aparelho digestivo -clicas, diarrias, hemorragias intestinais, 
vmitos --, ou por simples recusa alimentar, ou por sintomas relativos ao 
aparelho respiratrio -coriza, tosse, bronquites secretrias e asmticas 
e, ainda, por infeces de repetio nos ouvidos. Esse tipo de alergia, que 
pode aparecer at em crianas que mamam no seio, se instala a partir do 
contato precoce do beb com protenas do leite de vaca ingerido por ele 
mesmo ou pela me que o amamenta. Nos casos de amamentao exclusi- 
va nos seios, quando se suspeita de alergia, somos obrigados a suspender o 
leite de vaca e seus derivados da dieta materna. Quando existe realmente a 
alergia, a melhora que se segue  "milagrosa" e quase imediata. 

O leite materno vem pronto, esterilizado para ser usado a qualquer 
hora,  gratuito, diminui substancialmente o trabalho dos circunstantes e 
da me, constituindo inmeras vantagens. Alm disso, contribui para o 
timo desenvolvimento emocional do beb pelo carinho e segurana que 
a me lhe passa no ato da amamentao. 

20 



A auto-estimulao precoce do beb 

Ao contrrio do que se supunha, a amamentao no faz cair os 
seios. A glndula mamria  presa ao gradeado costal que a sustenta e seu 
aumento no exerce presso que distenda o seio. Este s cai quando a me 
engorda, pois a gordura que cerca a glndula distende a pele com seu pe- 
so e o faz pender. Estudos provam, alm de tudo, a menor incidncia de 
cncer ginecolgico em mes que amamentam. 

Em pases subdesenvolvidos como o nosso, o leite materno tem 
condies de oferecer scrianas nutrio, defesa contra asinfeces mais 
comuns responsveis pelas altas taxas de morbilidade e mortalidade infantil, demaneiragratuita, sem induzir reaes alrgicasno ssprote- 
nas do leite de vaca mas a quaisquer outras protenas que eventualmente 
poderiam entrar, atravs de outros alimentos, em contato com seus apa- 
relhos digestivos imaturos. 

Outra grande vantagem que o aleitamento materno oferece  a de, 
bem precocemente, introduzir na criana a noo da conquista por mri- 
to prprio. Nunca nos esqueamos de que a vida  um constante aprendizado. A criana, que na vida intra-uterina tinha o aporte de nutrientes 
automaticamente atravs da placenta, depois que nasce deve aprender, 
para satisfazer sua fome, a obt-los do leite materno atravs do prprio 
esforo. O seu principal trabalho  sugar os bicos dos seios depois de, pe- 
lo choro, "dizer"  me que est com fome. Com esse trabalho, esse esforo seguido da satisfao, sentir-se- auto-realizado. 

Suco: um reflexo 

As crianas j nascem com inmeros reflexos e um deles  o da 
suco. Esse reflexo pode ser testado encostando-se qualquer objeto em 
um dos lados da boca do recm nascido. Isso faz com que automaticamente ele volte o rosto para o mesmo lado, sugando. Se for o bico do seio, 
ele sente na boca o "objeto" que pode vir a satisfazer sua fome e sede e, aos 
poucos, aprende que deve sug-lo para satsfaz-las, reconhecendo-o como fonte de enorme prazer. Condiciona-se ao fato de que quanto mais 
suga, mais aprende a sug-lo eficazmente. A prpria suco, e isso  muito 
importante,  um poderoso exerccio para a musculatura da boca a con- 
ferir progressivamente maior potancia e rapidez a ela mesma e conse- 

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Dr. Henrique Klajner 

qentemente  amamentao. De acordo com a opinio unnime dos 
fonoaudilogos, esses exerccos colocam a musculatura da boca, faringe 
e laringe em condies de futuramente a criana manej-la de maneira a 
permitir uma fala perfeita associada a uma perfeita e prazeroza aceitao 
alimentar. 

No se sabe qual o mecanismo desse fenmeno, sabe-se que  a fora 
da suco posta nos bicos dos seios durante as mamadas a responsvel 
pela produo de um leite abundante, rico e perfeitamente adequado. 
Explico: quanto maior a fora de suco, melhor  o leite. No  o maior 
tempo da mamada ou sua freqncia os responsveis pelo bom resultado, 
mas a suco forte que se constitui na mensagem enviada pelo beb ao 
sistema lmbico da me (regio do crebro onde se d a relao entre est- 
mulos externos e reaes emocionais), fazendo com que a hipfise provi- 
dencie, atravs do seu hormnio prolactina, a confeco do melhor e mais 
abundante leite materno. A suco forte , em sentido figurado, a "co- 
manda do garom entregue  cozinha do restaurante que ordena o 
preparo da comida". 

Intervalo entre mamadas 

 Ora,  fcil entender que para a criana sugar forte  preciso que te- 
nha fome. Para tanto, o intervalo entre as mamadas deve ser grande o su- 
ficiente para que a fome a desperte do sono e esse intervalo  calculado, 
para uma criana normal, entre trs ou quatro horas, contadas do incio 
de uma at o incio da seguinte.  preciso tambm que o tempo para 
mamar seja limitado a no mximo quinze minutos em cada seio, em cada 
mamada. Nos primeiros dias, no estando ainda habituado s ofertas do 
seu ambiente, o beb reage de forma no satisfatria para os pais, choran- 
do de fome em horrios indefinidos, mas aps 24 ou 48 horas ele se adap- 
ta ao ritmo oferecido e da para a frente esse ritmo passa a ser para ele uma 
necessidade, chegando os horrios das mamadas ase tornarem uma constante, um relgio biolgico a despertar o beb nas horas certas, 
As vezes, a criana; por vrios motivos, principalmente os relaciona- 
dos  ansiedade materna, no mama o suficiente em determinada mamada, sente fome e pede que a alimentem decorrido um intervalo menor do

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A auto-estimulaco precoce do beb 

que trs horas. A me, preocupada com a nutrio, fica tentada a oferecer 
os seios "porque na ltima mamada ele no mamou bem". Se o fizer, a 
criana entende que no  necessrio sugar forte porque, mesmo no fi- 
cando satisfeita, logo ter outra refeio, bastando pedi-la. Tender a incorporar, pelo condicionamento, esse hbito  sua rotina. A repetio 
desses episdios leva  produo deficiente de leite pela suco fraca, insatisfao do apetite pelo pequeno volume ingerido, encurtamento do 
perodo entre as mamadas que se repetem amide, instalando um crculo 
vicioso que favorece ainterrupo da lactao pelo cansao da me epelas 
provveis leses dolorosas que se formam nos bicos dos seios, feridos pe- 
lo contato muito freqente da boca e da lngua do beb. 

Nos primeiros dias de vida a criana tende a continuar no sono ininterrupto que caracterizou sua estada dentro do tero materno pelos nove 
meses de gestao. Ao acordar com fome, para mamar, deseja satisfazer-se 
para rapidamente voltar a dormir. Ela ignora que sua nutrio e sade dependem da boa qualidade e da quantidade adequada do leite que, por sua 
vez, dependem da fora de suco por ela mesma aplicada ao bico dos 
seios. Ela somente aprender isso atravs do condicionamento se a ensi- 
narmos a mamar em horrios certos e pelo tempo adequado. 

O choro: a linguagem do beb 

Uma coisa  muito importante. O beb nasce com todo seu organis- 
mo formado, devendo ambientar-se e adaptar-se quilo que seu meio 
quer, o que lhe  transmitido atravs de "mensagens" que lhe do as devi- 
das coordenadas. Essas mensagens lhe so passadas pelas atitudes, condu- 
tas repetidas de modo a criarem hbitos, expectativas e respostas num 
organismo ainda completamente "virgem". Estas vo sendo progressiva- 
mente incorporadas ao seu comportamento pelo condicionamento. 

Assim como a criana recebe, ela tem necessidade de enviar 

mensagens para poder comunicar-se com o meio. A "linguagem'que usa 

para essa transmisso  o choro. Ela no dispe de nenhum outro modo 

de comunicao usado pelos circunstantes: no fala, no escreve, no 

conhece gestos ou mmica. Por isso chora. A pessoa que cuida de crianas, 

no intuito de satisfazer suas necessidades, tem por obrigao procurar 

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Dr. Henrique Klajner 

antes entender a mensagem por elas transmitidas e "aprender" sua lin

guagem, at a fase em que a comunicao possa ser feita atravs de uma 

linguagem comum. 

A primeira coisa que os pais devem entender  que o linguajar dos 
bebs, para ser aprendido, deve, antes de mais nada, ser ouvido e, para tal, 
deve-se deix-los  vontade para "falar" ou seja, chorar, ou seja, gritar. No 
incio  difcil porque o choro  sempre encarado como sinal de sofri- 
mento da criana, com o que no  nada agradvel conviver. O choro do 
beb pode ser tambm a exteriorizao de uma sensao muito forte 
(sinal de alarme, estresse) ou, ainda, uma forma poderosssima de per- 
suadir, de conseguir tirar os pais de uma situao confortvel ou de sono, 
para atend-la. No incio, para os pais inexperientes,  difcil saber por que 

o beb chora. Se as pessoas seguirem o que ns, profissionais da rea, 
aceitamos como vlido, se o deixarem chorar at descobrir a causa do 
choro, em curtssimo tempo sabero identificar cada "palavra"que seu fi- 
lho "disser e podero ajud-lo nas suas reais necessidades bsicas. 
Habitualmente se vem pais, na vigncia do choro do bebs de causa 
no identificada, tentarem cont-lo balanando a criana, acarinhando 
ou mesmo punindo, enfim, tomando atitudes que s6 valorizam o choro, 
sem considerar sua causa. Esta atitude de "cala-boca" soa, para a criana, 
como antidemocrtica por no deix-la falar e, o que  pior, a faz sentir 
que, para os pais, o choro vale mais do que ela prpria ou seu sofrimento. 
Percebe que, chorando, consegue atrair mais ateno e carinho, aprende 
como a realidade que o ambiente lhe apresenta a conduta de conter o 
choro a qualquer custo e passa, por isso, a aceit-la como extremamente 
vlida, adota-a e, a partir da, chorar sempre at conseguir a ateno e o 
carinho em todas ocasies. 

Nos primeiros dias de vida do beb, a resoluo dos problemas indu- 
tores do seu choro deve ser feita por tentativa-erro-acerto. As tentativas 
para "descobrir" as principais e mais comuns causas do choro so feitas 
considerando-as numa ordem decrescente de probabilidades, quais se- 
jam: fome, sede, desconforto, clicas abdominais e outras dores (de ouvi- 
do?). Ento, quando a criana chora tenta-se sucessivamente ver se tem 
fome, ou sede, ou desconforto, ou clicas ou dor de ouvido. Com o pas- 
sar dos dias  possvel relacionar o choro de tal modo que progressiva- 

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A auto-estimulao precoce do beb 

mente fica mais fcil entend-lo. Interessante  notar que o choro vai 
tomando caractersticas diferentes para cada evento e, aps cerca de dez 
dias, o reconhecimento dos problemas ser imediato, bastando atentar 
to-somente para o tipo de choro apresentado. 

Se o choro for de fome,  importante observar e manter o tempo de 
mamada em cada seio e o intervalo entre as mamadas, uma vez que esses 
dois dados so vitais para o sucesso do aleitamento. Como j dissemos a 
produo do leite  tanto mais abundante, e melhor, se a criana sugar 
fortemente os bicos dos seios; e a fora de suco est na dependncia da 
maior fome que a criana apresenta. 

Repetindo e insistindo: para que haja fome, o intervalo entre as mamadas deve, de acordo com o que se aceita atualmente, situar-se entre trs 
e quatro horas, contadas do incio de uma ao incio da prxima mamada; 

o tempo de mamada em cada seio no deve ultrapassar quinze minutos. 
Se a me aumenta o tempo de mamada e/ou diminui o intervalo entre 
elas, o beb entende que ao leve choro, por qualquer intensidade de fome, 
o leite j lhe ser oferecido. Passa a sugar apenas o suficiente para con- 
seguir atravessar um intervalo menor e condiciona-se a no ter necessi- 
dade de aplicar bastante fora na suco. O organismo materno passa a 
entender que a criana, ao sugar fracamente, tem pouca fome e comea a 
no mais produzir o leite necessrio. 
Outros fatores como cansao da me pelo esforo dispendido em 
mamadas mais freqentes, dor nos bicos dos seios, devido aos ferimentos 
provocados pela eroso da suco constante e contnua, mais a ao "di- 
gestvel" da saliva do beb, fazem com que o seu sistema lmbico haja por 
bem poup-la de tal sofrimento e ordene a reduo ou at a interrupo 
da lactao. O leite insuficiente, por sua vez, faz que a fome do beb aumente muito, seu choro se incremente em durao, intensidade e fre- 
qncia, a me fique tentada a oferecer mais os seios e por mais tempo e 
assim fecha-se o crculo vicioso que acaba por interromper de vez com a 
lactao. 

A interrupo da lactao, no entanto, por qualquer que seja o moti- 
vo, no  definitiva.  sempre possvel retornar, bastando, para isso, reins- 
tituir os intervalos de trs ou quatro horas entre as mamadas e durao 
mxima de quinze minutos em cada seio. Ela rapidamente se restaura na 

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Dr. Henrique Klajner 

sua plemtude porque o instinto de sobrevivncia (e para sobreviver o beb necessita de alimentos) faz com que, devido  fome, ele passe a sugar 
forte os bicos dos seios e a estimular a produo de leite materno abun- 
dante e adequado. 

gua e ch 

No intervalo entre as mamadas no se deve oferecer nada  criana, 
nem gua e muito menos ch. A gua do leite j  suficiente, quase sem- 
pre, para suas necessidades. O ch, alm de no nutrir, possuir sabor e ser 
de fcil aceitao, inclusive, por ser oferecido em mamadeira (muito mais 
fcil de sugar do que os seios), tira o apetite para a mamada seguinte, resultando disso a diminuio da fora de suco com conseqente reduo 
do estmulo da lactao. A mamada anterior ao ch tambm  prejudica- 
da porque a criana, i acostumada ao ch, o espera e antecipadamente 
no suga forte os seios tambm nessa mamada, esperando ser satisfeita 
pelo ch depois de um curto intervalo. 

No que se refere  gua, oferec-la sempre pura (sem qualquer 
adio), fervida e  temperatura ambiente, no intervalo entre as mamadas, somentequando obeb ficar exposto aperdas hdricas anormais: 
calor intenso com muita sudorese, diarrias, vmitos ou se excepcional- 
mente suas caractersticas individuais exigirem, atravs de um choro que 
no cessa com a oferta de leite. 

Mamadas na madrugada 

A criana pequena no tolera longos perodos sem ser alimentada, 
mas apenas trs ou quatro horas, em mdia. H dvida sobre a necessi- 
dade de aleit-laou no demadrugada. Somosdaopinio deque sim,en- 
quanto a criana no atinge os dois meses de idade. A partir dessa idade, 
sua capacidade gstrica passa a ser suficiente para receber mais leite e tolerar perodos maiores sem mamar, devendo essa mamada ser suspensa 
para que possa ter um sono contnuo e repousante. Algumas crianas 
aceitam a suspenso do leite da madrugada facilmente e dormem tran- 
qilas. Para as que no aceitam e continuam a reclamar o leite, oferea 
gua pura, fervida e  temperatura ambiente apenas uma vez na madru

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A auto-estimulao precoce do beb. 

gada, at que, convencidas de que o leite no mais vir, passem a dormir 
continuamente. Depois de dois ou trs dias, elas aprendem a mamar mais 
e melhor nos horrios pr e ps-madrugada, suprindo assim a mamada 
retirada. 

Recomendaes 

Em resumo, para que se tenha o melhor leite materno poss- 
vel, so estas nossas recomendaes: 

1) Mamadas com intervalos de no mnimo trs horas, con- 
tadas do incio de uma ao incio da outra; se no chorar de fome 
aps trs horas, acordar a criana para mamar ao completar quatro 
horas de intervalo. No se deve permitir mamar com intervalo 
maior porque essa conduta induz  ingesto de muito leite e ao 
vmito. 

2) Quinze minutos, no mximo, para cada seio, em cada ma- 
mada. 

3) Alternar o seio que comea a mamada (a fome  maior no 
comeo, o seio que inicia a mamada  mais solicitado pela maior 
fora de suco e a alternncia mantm a produo de leite e o ta- 
manho igual para os dois seios). 

4) Aumentar em uma hora o intervalo que separa a ltima 
mamada do dia (antes da meia-noite) para que, com mais fome, 
mame mais e mais forte, ingira mais leite e permita um intervalo 
grande at a mamada da madrugada. Esse intervalo d  me um 
merecido descanso e a oportunidade de fazer o que necessita, in- 
clusive para si mesma. 

5) De madrugada, oferecer os seios s se o beb chorar. Essa 
conduta condiciona a criana ao sono noturno e ao conhecimento 
da diferena entre o dia e a noite. 

6) Nada oferecer nos intervalos entre as refeies, apenas gua 
quando muito necessrio. O hbito de oferecer aleatoriamente 
gua com freqncia leva ao condicionamento e hbito, com pre- 
juzo do apetite e da fora de suco nas mamadas. 

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Dr. Henrique Klajner 

7) Higienizar com gua (destilada ou boricada) os bicos dos 
seios antes e, principalmente, depois de mamar (para limpar os 
resduos da saliva do beb). Depois, espalhar um pouco de leite 
materno pelos bicos dos seios --atualmente, isso tido como a 
melhor proteo contra infeces. A saliva "digere" a pele dos bicos 
provocando ferimentos. 

8) Terminada a mamada, esvaziar os seios para evitar que reste 
leite nos dutos galactforos onde pode coagular e obstru-los 
provocando mastites (febre, endurecimento, dor e calor nos seios). 
Quando vazios, o organismo da me entende que a fome do beb.  
grande porque todo leite foi consumido e, por isso, continuar a 
produzir mais e melhor leite. Ao esvaziar os seios aps as ma- 
madas, a me no deve se preocupar com a possibilidade de faltar 
leite na prxima porque os seios voltam a se engurgitar na hora 
certa. 

9) Aps as mamadas, segurar o beb para eructar em posio 
ortosttica (em p), com a sua frente encostada e delicadamente 
comprimida contra o corpo da me, por um perodo de tempo no 
maior que cinco minutos. Esse tempo curto  proposital para fazer 
com que o beb no crie o hbito de ficar no colo e aprenda mais 
rapidamente a eructar. Tendo ou no eructado, deit-lo no bero, 
sempre de lado, para que, se regurgitar, o leite tenha livre sada e 
no seja aspirado para as vias respiratrias. A preferncia  deit-la 
sobre o lado direito para que a fora de gravidade facilite o esvazia- 
mento gstrico, uma vez que o estmago se dirige para o duodeno 
por esse lado. 

Se essas recomendaes forem seguidas, em cerca de'dez a quinze 
dias o binmio me-filho, incio de um sincronismo perfeito entre a 
criana e o seu meio, se estabelece. No s a alimentao, mas todas as 
atividades da criana se sincronizam com o ritmo da casa, permitindo 
uma adaptao perfeita entre todos os familiares. 

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A auto-estimulao precoce do beb 

Higiene fsica


Asegunda grande preocupao com acriana ade lhe oferecer con- 

forto ambiental para que se desenvolva da melhor maneira possvel. Ao 

estudo desses cuidados d-se o nome de Higiene Fsica. 

Comecemos com o local da casa onde a criana deve ficar, o seu ambiente fsico. 

O quarto 

O ambiente fsico para o beb deve ser escolhido, na casa, de forma a 
facilitar o acesso a ele. Sabemos que a maioria das habitaes modernas, 
em regies urbanas, no  grande. Os trajetos internos a percorrer so 
curtos, os cmodos pequenos quando comparados aos do passado, fa- 
vorecendo a criana a ficar sempre perto dos familiares, Quando a 
habitao  grande, deve-se escolher sempre um cmodo prximo ao dos 
pais, bem arejado, desprovido de elementos que acumulem poeira-- como tecidos espessos, tapearias, estofados, brinquedos de pelcia, etc., 
sem excesso de mveis, com iluminao farta mas possibilitando a 
penumbra ou escurido quando necessrio, com paredes claras, alegres 
mas no berrantes (de cor azul, verde, bege em tom pastel), provido de 
janela grande mas que possa vedar as correntes de ar e ventos, com 
poucos objetos teis, quadros, ou pinturas, com motivos alegres, infantis 
e estimulantes, piso isolante trmico e liso (sem carpete, para facilitar a 
limpeza e no juntar p). Aquecedores, condicionadores de ar ou sim- 
plesmente ventiladores no so recomendados porque causam resseca- 
mento e/ou resfriamento das vias respiratrias com possibilidade de, 
atravs da produo de mediadores qumicos, causarem inflamao, infeco, secreo catarral das mucosas e complicaes respiratrias secundrias. O quarto do beb 
deve estar voltado para a face norte ou 
noroeste da habitao porque so essas as que recebem o sol da manh, o 
melhor e mais rico em radiaes infravermelhas e ultravioleta, respons- 
veis por um melhor aquecimento e pela esterilizao natural do ambiente 
fsico, o que evita a proliferao de mofo e caros. 

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Dr. Henrique Klajner 

O bero 

O bero deve ser arejado, de material facilmente higienizvel, dotado 
de grades ou redes protetoras, grande suficiente para servir at dois ou 
dois anos e meio de idade e com profundidade adaptvel ao tamanho da 
criana. O limite superior da grade deve proteger at o meio do peito da 
criana em p. O colcho indicado  o de espuma, com cerca de 15 cm de 
espessura, sobre um estrado de madeira inteiria. A melhor localizao do 
bero no ambiente fsico  longe da janela e fora da linha de corrente de 
vento que une a janela  porta do quarto; deve ter um mvel ao lado para 
higiene, trocas de roupas e fraldas e com espao para guardar utenslios. 

O banho 

Nos primeiros dias o banho do beb deve ser dado no quarto de 
dormir, principalmente em pocas frias, para evitar, com mudanas de 
ambiente, possveis variaes bruscas de temperatura. Recomendamos 
banhos parciais, sem molhar o umbigo at que este caia espontanea- 
mente. Depois, banhos com imerso de corpo inteiro, em gua morna, 
com temperatura ligeiramente mais elevada do que a do corpo (se a gua 
for tratada e encanada no necessita ser fervida), com sabonete neutro de 
glicerina. O banho deve ser rpido, comear pelos ps e terminar na 
cabea, para mant-la molhada o menor tempo possvel. Com uma mo 
se banha e com a outra segura-se firmemente a criana pelas costas e axi- 
las, mantendo um tecido (por exemplo, a camisetinha que ela estava 
usando) entre a mo e o corpinho para evitar que escorregue, com a 
cabea fixa ancorada no antebrao. Ao trmino, enrola-se a criana em 
toalha bem macia, apalpando, sem friccionar para manter a proteo da 
pele (gordura, camada crnea) contra irritaes e infeces. 

Estando o beb sequinho, dispensa-se o uso do talco por ser calcreo. 

Com o suor o talco forma "pedrinhas" muito pequenas, agressivas e abra 

sivas que irritam a pele. Alm disso suas formulaes, em geral, contm 

perfumes que, quando absorvidos pela pele, sensibilizam a criana in

duzindo a possveis alergias. Na eventual necessidade de aplicar algum p 

secativo, deve-se preferir p de amido puro sem qualquer adio. 

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A auto-estimulao precoce do beb 

Os banhos devem ser dados na hora mais quente do dia; no inverno, 
ao meio-dia e no vero, antes do anoitecer e, se o calor for muito intenso, 
um outro ao meio-dia. Durante o banho, o ambiente fsico deve ter, na 
medida do possvel, temperatura prxima  da gua para evitar alteraes 
trmicas bruscas ao imergir e emergir a criana. O objetivo dos banhos, 
alm de dar tranqilidade  criana pela ao da gua que relembra a sen- 
sao do ambiente intra-uterino (o peso do corpo diminui dentro d'gua 
e d a sensao de conforto e repouso),  a de remover detritos resultantes 
da associao das secrees glandulares (sudorparas e sebceas produ- 
toras respectivamente de suor e gordura) com impurezas, causa de des- 
conforto, mau cheiro e sensao desagradvel. Os banhos so muito apre- 
ciados pelas criancinhas e invariavelmente as levam ao sono tranqilo. 

Para os cabelos, usar escova bem macia pelo menos uma vez por dia 
para no embaraarem, para remover as camadas crneas do couro cabeludo e evitar os famosos "casces" que nada mais so do que uma super- 
posio dessas camadas impedidas, pelos cabelos, de se desprender, e co- 
ladas pelo suor e pela gordura natural. 

No se devem aplicar objetos duros para higienizar orifcios (ouvi- 
dos, narinas, etc.) porque todos so contundentes e acabam por empurrar 
as secrees e ler-las a maiores profundidades onde ressecam, dificul- 
tando sua drenagem espontnea ou posteror remoo na eventualidade 
de um exame clnico. A permanncia das secrees secas faz com que 
provoquem irritao da pele e mucosas, origem de eczemas. 

As roupas 

Muitas dvidas existem a respeito da vestimenta do beb. Ele sente 
muito frio? Ou muito calor? Quais as roupas mais apropriadas para as di- 
ferentes estaes e quais os melhores tecidos? Devido  sua delicada pele 
somos favorveis ao uso de roupas folgadas, confeccionadas com tecido 
suave, resistente, com cores de tintura firme para no impregnar a pele e 
ser por ela absorvida, que permitam livre perspirao da criana, durvel 
e resistente s lavagens freqentes, de fcil e rpida manipulao e absor- 
vente. Em nosso meio o melhor tecido para contato direto com a pele  o 
de algodo tipo malha. Sobre esta, quando necessrio, vestem-se outras 

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Dr. Henrique Klajner 

roupas ou agasalhos de fibras sintticas (no se usa l por ser um produ- 
to de origem animal, potencialmente alergnico). 

A criana usa fraldas enquanto no adquire controle esfincteriano. 
Suas trocas devem ser freqentes mesmo quando no sujas porque o simples suor absorvido por ela pode irritar a pele. Um creme ou uma pomada isolante devem ser sempre 
aplicados na regio das fraldas para minimizar o contato de fezes e urina, as maiores causadoras de assaduras. A 
cada troca, limpar ndegas e genitais com gua limpa, morna e pura e, 
quando necessrio, lavar com sabonete neutro de glicerina. Se houver 
aderncia de detritos, remov-los com leo de amndoas ou outro tipo de 
leo vegetal antes de lavar com a gua e sabonete. 

O ambiente 

, Durante o primeiro ms de vida a criana no deve ser exposta a va- 
riaes freqentes e bruscas, principalmente no que se refere  iluminao, 
temperatura e movimentaqo. A transio do tero para o meio externo 
deve ser graduaL'Estudos mostram que recm-nascidos sofrem com res- 
friamento brusco, dele advindo prejuzos posteriores que podem se mani- 
festar em vrios estgios do seu desenvolvimento fsico e psicolgico. Por 
isso  que em berrios se mantm o beb por algum tempo em bero 
aquecido. A adaptao dos seres vivos  constante e gradual. 

Em relao  higiene fsica,  interessante comentar o contato direto 
da criana com objetos, lugares, pessoas ou animais. Nunca devemos es- 
quecer que a sua formao inicial foi no tero materno, onde tinha pro- 
teo total e completa. Todas as influncias que sobre ela chegavam eram 
filtradas pelo organismo da me. No  justo que, de um momento para 
outro, com o nascimento, as mudanas se tornem bruscas. 

Deve-se manter a temperatura do ambiente dentro de certos limites, 
os rudos da casa devem ser mantidos nos nveis habituais sem minimizar 
ou maximiz-los, o transporte do beb deve ser calmo e Suave, devem-se 
permitir visitas, com exceo dos sabidamente portadores de doenas in- 
fecto-contagiosas, e em horrios que no perturbem a criana, evitar 
excesso de colo e de balano que, alm de trauma fsico, fazem com que 
haja condicionamento a uma realidade que o beb incorpora como roti- 

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A auto-estimulao precoce do beb 

na e passa a exigir cada vez mais, sabendo-se que essas prticas, com 
certeza, no podero ser mantidas. Eventuais deslizes devem ser abolidos 

o mais rapidamente possvel. Voltaremos a abordar este assunto quando 
tratarmos da higiene mental. 
Higiene do sono 


O recm-nascido tem grande necessidade de sono. Tem-se a impresso de que, aps nove meses de sono contnuo dentro do tero, a 
tendncia  a de continuar "hibernando" e sendo servido eternamente. 
Como no cansamos de insistir, para acordar e reclamar por suas necessi- 
dades, a natureza fez com que o acometam sintomas desagradveis, do- 
lorosos e intensos, sem os quais seguramente ele no acordaria. So os 
sinais de estresse, de alarme. Quando acorda, o faz por um motivo muito 
importante, berra ou chora forte para ser atendido em suas necessidades 
e, logo depois de satisfeitas, voltar a dormir. Em outras palavras, o beb 
pequeno dorme como rotina e s acorda, chora ou berra por um motivo 
muito forte e importante. 

No incio a criana dorme quase o tempo todo. Acorda para mamar, 
trocar roupas ou fraldas, eructar e hidratar-se quando necessrio. Como 
nessa fase ela mama em mdia a cada trs horas e de madrugada apenas 
uma e como em cada uma delas gasta cerca de uma hora, no total dorme 
aproximadamente dezessete horas por dia. 

O recm-nascido no tem ainda desenvolvida a percepo das dife- 
renas dia-noite, acorda para suas necessidades no momento em quede- 
las se d conta. A noo da diferena vai sendo adquirida com o tempo e 
sua tendncia  sempre acompanhar o ritmo e os hbitos do meio ambiente. Em sua grande maioria, as famlias dormem, fisiologicamente,  
noite. Como o melhor e mais repousante sono acontece no escuro, mesmo durante o dia, o ambiente deve ser mantido na penumbra porque a 
criana pequena necessita dormir -o que  mais importante do que tentar acostum-la com o dia deixando o ambiente na claridade e com a 
noite, na penumbra. Se houver necessidade o ambiente escuro deve ser 

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Dr. Henrique Klajner 

iluminado pelo tempo suficiente para atend-la ou realizar o que se precisa e, em seguida, voltar ao escuro. A criana aprende, assim, a relacionar 
sono com escurido e, simultaneamente, habitua-se  sua interrupo 
eventual e  volta ao escuro-sono sem prejuzos. Acostuma-se at a 
dormir no claro quando for excepcionalmente necessrio. 

O sono num beb normal e sadio costuma ser muito profundo, de 
sorte que nada pouco importante o perturba. Por isso, a rotina da casa 
no deve mudar em funo do seu sono, os hbitos da famlia devem ser 
mantidos e no se deve impor "toque de silncio enquanto ele dorme. Os 
rudos normais e habituais, os sons de msica ou rdio ou TV ou de ins- 
trumentos musicais, o ato de acender luz no quarto em que a criana 
dorme, mudanas do lugar em que dorme, nada deve ser evitado, para 
que o sono se mantenha condicionado exclusivamnte  necessidade e aos 
horrios para ele destinados. A medida que a necessidade de sono vai 
gradualmente diminuindo, a criana passa a participar cada vez mais das 
atividades domsticas, respeitando os horrios e as necessidades, e con- 
segue dormir em qualquer lugar. Essa necessidade de sono  mantida como primordial e indiferente s mudanas circunstanciais do ambiente 
fsico, para sempre. 

A conduta de pessoas que acalentam o beb ou o balanam no bero, 
na cestinha ou no carrinho, ou nele o levam a passear, ou ento simplesmente o acariciam ou se mantm ao seu lado, ou ainda ficam no quarto 
para que ele se aquiete e durma, no deve ser recomendada porque es- 
taro introduzindo tais condicionantes aos hbitos, em geral, ao sono, 
que passam a ser sempre exigidos; quando no presentes, haver dificul- 
dade para adormecer. Uma vez condicionado, o beb chora para obter tais 
hbitos e, se os circunstantes no resistirem ao choro e cederem, con- 
denar-se-o a continuar com essas ofertas. Com o tempo, com o cresci- 
mento e com o aumento da percepo da criana, esses procedimentos 
vo se tornando obsoletos para ele. Passa, ento, a insistir em mudanas e 
a exigir novos condicionantes, sob pena de no dormir, chorar e, o que  
pior, aprender que  obedecida sempre que assim se comportar. Se, nas 
tentativas de deix-la chorar sozinha at dormir espontaneamente (alis, 
 o que se deve fazer sempre que se instalar a dependncia), as pessoas 
acabarem por ceder aps intervalos de tempo variados, a criana aprende, 

34




A auto-estimulao precoce do beb 

condiciona e passa a suportar esses perodos at conseguir seu intento. 
Estar, assim, instalada a dependncia do ato de adormecer a algo extra, 
inteiramente inoportuno, prejudicial e intil. O que  pior, se no for in- 
terrompido, poder se estender pelo resto da vida, como j tivemos 
oportunidade de ver em alguns casos muito dramticos. A conduta de 
deix-la chorar, sozinha, no bero e no atend-la invariavelmente acaba 
por cans-la, adormec-la e, depois de duas ou trs tentativas, o beb re- 
condiciona o dormir espontneamente, induzido unicamente pelo sono 
natural. 

Como para todos hbitos relacionados s funes fisiolgicas, em re- 
lao ao sono ocorre o mesmo, isto , no se deve permitir que atitudes do 
meio impeam a criana de exercitar seus prprios mecanismos de 
evoluo, com o objetivo de faz-la conseguir desenvolv-los sozinha e 
dentro das suas prprias capacidades. As suas constantes ou repetidas 
tentativas de auto-realizao acabam fazendo com que suas capacidades 
se tornem progressivamente maiores, nesse sentido. Tudo que se fizer 
para ajud-la a superar dificuldades, acaba inibindo sua auto-realizao, 
por tirar oportunidades de auto-exerccio e auto-aprendizado e por 
incorporar aos seus hbitos as ajudas oferecidas. Incorporadas, o beb 
passa a considerar tais ajudas rotina que invariavelmente redundam em 
dficits cada vez maiores na aquisio das iniciativas para pedir ajuda (pe- 
lo fato de ter sido superservida), numa espirai contnua e de amplitude 
crescente. 

Esse processo de retardo de aquisio tende a expandir-se de uma 
para outras atividades fisiolgicas, como alimentao, higiene fisica, 
mental, etc., ampliando o leque das"incapacidades" e das "dependncias", 
chegando ao cmulo de termos at adolescentes "incapazes" para a realizao de mnimos procedimentos pela constante e ininterrupta ajuda 
recebida do seu ambiente e de seus circunstantes. 

O sono, portanto, deve ser exercitado e conseguido apenas por sua 
exclusiva necessidade, por ser fisiolgico e obrigatrio para uma vida sau- 
dvel. O ser humano tem necessidade imperiosa de sono, sempre e apesar 
de tudo. O sono falta somente em situaes patolgicas. O exerccio do 
ato de dormir, assim como o de todas atividades fisiolgicas,  importan- 
tssimo desde o nascimento e durante toda vida. No se deve condicion- 

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Dr. Henrique Klajner 

lo a colo ou balano, msica, presena de pessoas ou objetos ou animais, 
canes de ninar, chupetas mamadeiras ou paninhos no rosto, brinque- 
dos, gua, etc., mesmo que seja "apenas um pouquinho". Esse pouquinho 
poder chegar ase tornar muito no futuro e certamente ter de ser retira- 
do mais cedo ou mais tarde. 

O sono e o choro 

Nunca esquecer que, quando uma criana no consegue dormir e 
chora, algo a est perturbando. Deve-se procurar a causa desse choro e, 
entre elas, a possibilidade de j haver um condicionamento "extra", talvez 
indesejvel, anterior. Se a causa for uma necessidade real, deve ser satisfei- 
ta; mas se for um dos condicionamentos extras descritos, deve-se remov- 
lo; e quanto antes, melhor, por ser mais fcil e rpido. Quanto maior a 
criana, maior sua insistncia no choro devido  expectativa de ser aten- 
dida mesmo que demore, porque sabe que acaba cansando os circuns- 
tantes e, por experincia anterior, sabe que acabam cedendo pelo cansao. 
Para descondicion-la, basta deix-la no bercinho, no atendlla, resistir 
 tentao de fazer "qualquer coisa" para que se cale e, aps um perodo 
varivel, de acordo com a personalidade, constituio, idade da criana, 
personalidade das pessoas do seu ambiente e do grau de condicionamen- 
to feito, ela se cala pelo cansao e dorme espontanemente pela exausto. 
Isso  lquido e certo. 

Todos sabemos que  muito difcil ouvir uma criana chorar ou 
berrar sem tomar alguma providncia. Isso deve-se ao conceito incorpo- 
rado por todos de que ela  impotente e incapaz de resolver sozinha todos 
seus "problemas" e necessita "sempre" de alguma ajuda. Realmente  verdade, ela vem ao nosso meio, a ele deve adaptar-se progressivamente e, 
para isso, necessita de ajuda. Essa ajuda, porm, nunca deve ser tal que 
impea o aprendizado, as aquisies e seu progresso. Devemos ajud-la a 
aprender e a progredir mas nunca, nunca mesmo, devemos executar a 
"tarefa" em seu lugar e imprimir nela a certeza de que sempre ter ajuda 
para resolver as questes que so s suas e de sua exclusiva resoluo. 
Quando chora, berra e perde o flego, os pais, em geral, acabam por 
ajud-la, alimentando dessa maneira uma dependncia. Isso no  bom 

36 



A auto-estimulao precoce do beb 

porque o sucesso em obter ajuda, no momento, faz que se habitue a ele e 
aprenda que basta chorar ou berrar ou perder o flego para conseguir 
auxlio. Se houver tentativas de negar o auxlio e os pais, no suportando 

o choro, cederem aps algum tempo, a criana aprende a chorar ou berrar 
cada vez mais forte e se nessas circunstncias ela for progressivamente 
conseguindo os seus intentos, no mais haver limite para o tormento dos 
pais, chegando ao ponto de criar-se um verdadeiro caos. Sabedora de an- 
temo que para atrair os pais e conseguir o desejado  necessrio chorar 
muito forte, a criana passa a chorar muito forte j na primeira investida. 
E o mais interessante  que essa atitude passa a ser utilizada sempre, em 
todas as reas de participao, mesmo que tenha comeado em um deter- 
minado tipo de higiene como o sono, por exemplo. Com o passar do tempo, para conseguir conforto ou realizao, mesmo nas necessidades fisio- 
lgicas, ela comea a perceber que suas atitudes de chorar, berrar muito 
forte ou perder o flego tm o poder "milagroso" de "dobrar" os pais e os 
circunstantes. 
A perda de flego 

A perda de flego  comum e acontece quando o nvel de oxignio 
sanguneo aumenta em demasia pelo choro possibilitar sua entrada com 
rapidez. Esse aumento sinaliza ao centro respiratrio cerebral que a in- 
curso de ar no  necessria naquele momento porque a taxa de oxignio 
est muito alta, o que provoca, por sua vez, parada curta da respirao. 
Essa parada respiratria  muito chamativa, as pessoas, temerosas de que 
a criana possa no voltar a respirar, tomam-na nos braos e tem para 
com ela atitudes desesperadas com a finalidade de reverter a parada: 
jogam-na para o alto, balanam-na, sopram em seu rosto, etc. Isso acaba 
por incluir tais atitudes como condicionamento, anmalo  claro, uma 
nova forma de chamar a ateno sobre si. A perda de flego passa, ento, 
a ser usada como recurso mais avanado para reinvidicaes, como ver- 
dadeira "chantagem". 

No  fcil convencer as pessoas de que, deixando a criana sozinha 
no bero ou no local em que se inicia a perda de flego, o excesso de oxi- 
gnio  consumido rapidamente e a queda do seu nvel ativa novamente o 

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Dr. Henrique Klajner 

centro respiratrio, fazendo-a voltar  respirao normal. Quando, devi- 
do  repetio,  atingido um grau elevado de "chantagem", o procedi- 
mento dos circunstantes deve ser o mesmo, qual seja, deixar a criana 
perder o flego, nesse momento apenas pingar algumas gotas de gua fria 
e soprar forte e bruscamente em seu rosto. H uma reao de surpresa por 
parte da criana e o fenmeno termina. O descondicionamento da perda 
de flego se d aps trs ou quatro vezes em que a criana "sofre" a falta de 
ar (o que  muito desagradvel) sem ter conseguido seu intento. 

A perda de flego  apenas uma das maneiras que as crianas desen- 
volvem para "chantagear", s quais os pais se permitem submeter. 
Submetendo-se, transmitem aos filhos asensao de que eles,pais, so inseguros e facilmente manobrveis, fazendo com que os filhos tambm se 
tornem inseguros, uma vez que a segurana dos filhos  embasada na se- 
gurana dos pais. A segurana dos pais  demonstrada atravs de atitudes 
conscientes, convictas, firmes, invariveis que, se adotadas precocemente, 
evitam a aquisio de hbitos que no raramente chegam a extremos. 
Convulses, por exemplo, so hbitos que s vezes do seqncia s perdas de flego e simulam verdadeiras doenas neurolgicas. 

Higiene mental 


Esta  a seo que tem como objetivo orientar os pais para um relacionamento adequado entre criana e meio ambiente, abreviando ao 
mximo o tempo necessrio para a mtua adaptao, aperfeioando-a. 

O nascimento representa, para o beb, uma mudana brusca e radical.Apassagem da condio de feto para a de beb traz encargos enormes 
para ele epara toda a famlia. A partir da se iniciauma luta rdua pela so- 
brevivncia por parte da criana. O oxignio e os nutrientes j no mais o 
alcanam passivamente, j no h mais proteo natural contra os trau- 
mas fisicos e emocionais. O beb, guiado pelo instinto de sobrevivncia, 
passa a lutar para conseguir tudo de que necessita. 

No ambiente em que ir viver, lutar pela sobrevivncia e se desen- 
volver, a criana  cercada por pessoas, objetos, animais, plantas. A higiene 

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A auto-estimulao precoce do beb 

mental cuida de estudar a relao entre todos, compreend-la e chegar a 
concluses que nos permitam adotar condutas favorveis ao desenvolvi- 
mento sadio da criana, com trocas benficas, tendo sempre o amor mtuo expressado como moeda corrente a induzir o bem servir, o respeito, a 
compreender e a auxiliar. 

A criana, ao chegar, passa a fazer parte da sociedade porque  includano ncleo familiar.Cada famlia tem suasparticularidades, derecebe contribuio da sociedade 
em todos campos de atividades, segundo 
as disponibilidades ou necessidades dos seus componentes. A criana, como um dos seus componentes, e talvez o mais importante, tem sua 
posio no ncleo familiar. Quando chega,  completamente virgem em 
tudo e, como tal, assemelha-se a uma obra de arte que deve ser "esculpi- 
da" e moldada como um artista faz a partir da matria-prima bruta. Sua 
colocao na famlia deve ser a de lhe permitir, em sincronismo com os 
hbitos j estabelecidos, obter todas as condies para sua perfeita 
evoluo. A criana deve ser apresentada, com honestidade,  pura reali- 
dade assim como ela . Evitar sistematicamente e a todo custo falsas situaes e procedimentos que possam lev-la a condicionamentos com- 
portamentais que sejam considerados inadequados e que tero de ser 
removidos ou substitudos posteriormente. Cada pessoa deve se mostrar 
 criana como realmente  para que ela aprenda e tenha noo exata de 
como se adaptar e reagir, sem risco de incorrer em faltas comportamen- 
tais por desconhecimento. 

 muito comum pessoas que, para no desagradar, permitem s 
crianas atitudes das quais elas mesmas no gostam. Por exemplo, adultos 
falam a palavra "bobo" e a criana ouve, aprende, passa a articul-la 
repetidamente, sem sequer saber o significado, sempre que v a pessoa 
que falou. Chega o dia em que essa pessoa se sente ridicularizada pelo 
"bobo", ofende-se e passa a considerar a criana mal-educada, numa ati- 
tude compreensvel mas desprovida de qualquer fundamento. 

H linhas psicolgicas que defendem a idia de que no se deve im

primir nos descendentes o "ritmo" da famlia, mas deixar que eles mes- 

mos sigam seus rumos, criem seus prprios "ritmos", sendo apenas am

parados em suas necessidades bsicas com permisso para ter aquisies 

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Dr. Henrique Klajner 

aleatreas e incorpor-las conforme suas necessidades ou vontades. 
Respeitamos esse ponto de vista, mas discordamos dele. Consideramos 
uma criana uma obra de arte a ser desenvolvida durante uma existncia 
inteira e, para isso, deve ser diuturnamente monitorada. 

A famlia, ao receber a criana, j deve estar constituda e embasada 
em princpios de vida bem definidos. Desde que aceita como uma minis- 
sociedade, ela deve permutar elementos com a sociedade inteira em perfeita harmonia. A medida que crescem e convivem mais na sociedade, as 
crianas devem adaptar seu comportamento ao ritmo dela, o quese torna 
muito mais fcil se, desde cedo, o ritmo e os costumes sociais forem sendo 
adotados pelo ncleo familiar e passados  criana 

Na linha que adotamos, a famlia funciona como alicerce e como 
motor de proa, impusionando a criana em direo ao seu futuro, trans- 
mitindo-lhe seus valores de maneira exata, sem omisses e .sem falsas 
adies. Se em algum momento suas verdades no coincidem com as da 
sociedade, devem prevalecer as da famlia, deixando para um segundo 
momento o conhecimento das verdades externas.  muito fcil entender 

o porqu dessa prevalncia. Desde que se considere a famlia a respons- 
vel direta pela educao da criana, ela nunca deve lhe passar um conhe- 
cimento, uma realidade ou uma experincia alheia e no concordante 
com as suas. Isso seria imensamente desonesto sob todos os pontos de 
vista e faria com que a criana viesse a perder a confiana na famlia, e 
conseqentemente em si mesma, desde o princpio. 
As influncias dentro de uma famlia so complexas. Todos circuns- 
tantes tm bagagens genticas, experincias, aprendizados prprios. 
Crianas de uma mesma famlia, e obviamente com diferentes personali- 
dades, requerem, apesar de haver uma linha mestra comum a rodas, con- 
dutas especficas, individualizadas e adaptadas para as diferentes circuns- 
tncias. Isso no  difcil, desde que haja respeito, amor e orientao 
adequada, alm da observao e aprendizado das particularidades de ca- 

da uma. 

Muitos casais, na falsa impresso de que carecem de conhecimentos 
ou informaes, consideram-se inaptos para a tarefa de pais e procuram 
substitutos para sua funo. Empregam outras pessoas como babs ou

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A auto-estimulao precoce do beb 

enfermeiras para ajud-los, as quais, e muito freqentemente, acabam por 
assumir inteiramente esses cuidados. No somos ingnuos nem excessi- 
vamente otimistas a ponto de negar ser a tarefa de administrar uma casa e 
educar filhos, apesar de muito importante, no mnimo cansativa, difcil e 
aterrorizadora. No entanto, todos assumimos tarefas das mais variadas 
que no deixam de ser igualmente importantes e aterrorizadoras, sejam 
profissionais, sociais ou comunitrias e, assim mesmo, as assumimos. 
Qualquer atividade nova a exigir conhecimento e treinamento nos assus- 
ta inicialmente, mas assim mesmo a assumimos. 

O desafio em relao  paternidade e  maternidade  diferente pelo 
fato de sentirmos intuitivamente um profundo envolvimento com nossos 
descendentes, por sermos, como pais, os responsveis diretos por eles. A 
vontade e a necessidade que sentimos de acertar  enorme e o risco de tu- 
do no sair a contento nos pesa enormemente. Em nossa experincia,  
raro os pais no terem medo de errar. O imediatismo em querer vislum- 
brar os resultados finais  to presente e invarivel que o desespero atro- 
pela a disposio e a pacincia para aguardar os acontecimentos do dia-a- 
dia at chegar o esperado. 

O conselho que damos  no sentido de os pais assumirem as crianas 
desde o incio, mesmo que no possuam experincia ou grandes conheci- 
mentos porque rapidamente aprendem e facilmente se adaptam s suas 
funes, desde que planos criteriosos sejam elaborados, adotados e segui- 
dos sob orientao moderna e especializada. Eles nunca se arrependem 
por isso e passam a sentir grande satisfao nas respectivas funes pela 
gratificante sensao do dever plenamente cumprido. 

A "constituio" familiar 

A famlia, pequena sociedade, deve ser "governada democratica- 
mente". Os pais so os "governadores" dessa "pequena repblica" e, como 
tal, devem desempenhar suas funes da melhor maneira possvel. Como 
governo de qualquer repblica, necessitam de uma base que oriente seu 
trabalho e essa base  a "constituio" familiar. 

Dela devem constar "leis" e normas para o cumprimento de todas as 
resolues que o casal adorar de acordo com seus critrios, ideais, costumes, 

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Dr. Henrique Klajner 

valores, pretenses e ambies. Devem dela constar igualmente procedi- 
mentos "punies", para quando leis no forem cumpridas, ou elogios e 
promoes para quando houver merecimento. 

A "constituio" no precisa ser obrigatoriamente escrita, apenas 
adotada e incorporada  rotina da famlia. Ela deve poder, a qualquer tempo, ser alterada de acordo com mudanas indicadas para atualiz-la e 
adapt-la  modernidade. 

Na legislao da "constituio" devem ser levados em conta os valores do casal, desde a dinmica do lar at o comportamento de todos os 
componentes do ncleo familiar, normatizando o relacionamento deles 
com o meio interno e externo, baseando-se no que os pais julgam verdadeiro, conveniente e vlido, com a finalidade de atingir os alvos deseja- 
dos nas vriasfases do desenvolvimento dos filhos,emconcordncia com 
atualizaes ditadas pela cincia para cada poca. 

A "constituio" deve estabelecer normas para liberdades individuais 
e coletivas dentro dos limites impostos pela sociedade e pela famlia. A intuio de liberdade j vem incorporada e reforada em cada pessoa pela 
"libertao" do nascimento.A criana quer agir e reagir tendo plena liberdade para tudo, entendendo-a como principal ingrediente no planeia- 
mento da sua vida. A vida em sociedade, todavia, exige que a liberdade de 
um termine quando comea a do outro. Por isso, a "constituio" pretende passar  criana os limites a serem respeitados para que a liberdade 
de cada um no sofra interferncias e prejuzos por excessos de terceiros. 

No  nossa inteno legislar, e no deve ser a de nenhum orientador dizer a cada famlia quais leis devem adotar para seus filhos. Cada 
famlia deve optar individualmente por aquelas que preencham seus es- 
paos importantes, com a inteno de dar as diretrizes dos caminhos 
mais adequados, rpidos, construtivos e menos traumatizantes para to- 
dos. Tenha em mente que a meta da pediatria, como a entendemos atualmente, no se resume apenas em cuidar da criana dando condies de 
excelente sade fsica e mental; trata-se tambm de dar condies de ex- 
celente sade espiritual e, o que  mais importante, fazer com que ela se 
torne um adulto saudvel. 

Quando se colocam para as pessoas procedimentos inditos e dife- 
rentes daqueles aos quais esto habituados, multas estranham, questio- 

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A auto-estimulao precoce do beb 

nam e at se negam a adot-los, devido, com certeza,  impossibilidade de 
antever seus efeitos a longo prazo. O estabelecimento de leis e da "consti- 
tuio" familiar, para a maioria das pessoas, pode parecer um exagero por 
considerarem a criana pequena incapaz e necessitar de tudo que se lhe 
puder dar em matria de carinho, amor, ateno e recursos materiais. 

Esquecem, porm, duas coisas muito importantes: uma, que a criana  
um ser em evoluo, com realidades mutantes, e as mudanas ocorrem 
numa velocidade varivel de uma para outra e de acordo com o ambiente; 
outra, que os familiares nem sempre conseguem acompanhar o ritmo de 
mudanas dessas necessidades e satisfaz-las na medida exata porque 
sempre necessitam de prazo, tanto para reconhecer essas mudanas como 
para providenciar sua satisfao. Quando os limites da criana so plane- 
jados e estabelecidos desde o nascimento, reduz-se muito o leque de pos- 
sibilidades de mudanas e cada etapa da evoluo da criana  facilmente 
entendida e incorporada por todos. Como se ver adiante, a "constitui- 
o" no  um instrumento apenas para impor restries e limites, mas 
tambm de permisso porque deve conter tudo o que a criana pode e 
deve fazer, incentivos, premiaes, elogios e principalmente incluir mto- 
dos para a auto-estimulao precoce, que, a nosso ver,  a base do desen- 
volvimento sadio, global e perfeito. 

Os limites 

Discordamos dos que acham que a cada criana deve ser dada a 
chance para sozinha estabelecer seus prprios limites. Ao nascer, ela entra 
em contato com seu meio ambiente, composto de pessoas, obietos, etc., 
ao qual deve se adaptar. Para que se adapte num ambiente j constitudo, 
nada melhor que se lhe apresente clara e simplesmente as "normas da 
casa", assim como sempre  feito com qualquer recm-chegado a um pas 
estranho, que procura inteirar-se das leis e costumes aos quais ter de se 
submeter para ali poder viver. A criana, liberada para seguir um caminho 
de escolha espontnea, o far sem parmetros e sem quaisquer orien- 
taes.  lcito imaginar que o curso que vier a tomar por sua prpria iniciativa poder estar em discordncia daquele adotado pela famlia ou pela 

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Dr. Henrique Klajner 

sociedade e, para manter a harmonia, uma e outra devero adaptar-se ao 
rumo da criana. Para ns, isso  um contra-senso uma vez que, de um la- 
do, as "ordens" da casa estariam sendo dadas por "algum" ainda inexpe- 
riente, de permanncia ainda muito curta na famlia e absolutamente in- 
capaz de faz-lo. De outro, estaria sendo atribuda  criana uma 
responsabilidade muito grande, qual seja, a de gerir os destinos, seus e os 
da famlia. Se esse procedimento fosse adotado para todas as crianas, 
elas, em conjunto, iriam gerir toda sociedade. 

Por outro lado, comparamos o que elas podem sentir com a sensao 
de algum que repentinamente  convidado a ocupar um cargo para o 
qual no possui o devido preparo: pavor, angstia pela possibilidade de 
poder no ser bem-sucedido e, caso isso ocorra, decepo, culpa, constrangimento to intensos que podem lev-la ao desespero.  exatamente 
isso que ocorre com crianas quando se conduzem com "auto-gesto". 
Passam a responder ao ambiente com irritabilidade, agressividade, de- 
sobedincia, devido ao conflito que se instala entre a total liberdade e a in- 
capacidade, como querendo chamar a ateno de todos exatamente para 
a insegurana que sentem. A famlia no consegue inicialmente compreender o que est acontecendo, entende que a criana reclama por mais 
liberdade, continua a tomar condutas menos condizentes ainda, se des- 
governa e, no obtendo resultados satisfatrios, sobrevm o caos. 

Apesar de trazerem consigo a vontade de viver e clamarem por liber- 
dade, as crianas tm intuio exata da sua incapacidade e da sua depend6ncia ao meio e, pasmem, sentem-se muito melhor quando so de- 
vidamente orientadas quanto ao comportamento, aos seus direitos, aos 
seus deveres, aos prmios e "castigos" e, mais cedo do que se imagina, 
acabam reconhecendo a validade das condutas orientadas com bom sen- 
so e discernimento, por lhes evitar tropeos e garantir mais, maiores e 
rpidos sucessos. Quanto mais cedo as liberdades controladas so ado- 
tadas, ao entrarem em contato com as realidades da vida, mais cedo 
vivenciam experincias, mais cedo pagam "barato" por seus pequenos 
erros, mais cedo aprendem que a vida exige e depende de limites para que 
venha a ser perfeita, harmnica e as levem aos sucessivos e incontveis 
sucessos. Se tiverem liberdades ilimitadas, fatalmente confrontar-se-o 

44 




A auto-estimulao precoce do beb. 

com incompatibilidade familiar e social a exigir obedincia e limites 
muito maiores para a normalizao. Esse confronto depois de muita 
liberdade traz inconformismo, sensao de angstia e impotncia, diricultaaparticipao social,estudantil ouaentrada e manuteno emmer- 
cados de trabalho, alm da incompreenso do porqu do penoso insuces- 
so. A partir de certa idade, o amparo da famlia ou de terceiros para 
garantir a manuteno das suas liberdades ilimitadas j no pode ser 
mantido e advm a frustrao pela perda delas e pela incapacidade que re- 
sulta da falta de aquisio provocada pela superp roteo. Na nsia de se 
auto-realizar, comea, em qualquer idade, a adotar mtodos ilcitos e de 
contraveno, marginaliza-se, afasta-se do conv vio socialmente aceito, 
procura viver em ambientes de pessoas semel hantes, e o pior  que 
consciente ou inconscientemente, ao final, culpam seus responsveis pela 
orientao recebida, a que no lhe deu oportunid ade de um aprendizado 
"real", com os "instrumentos" necessrios ao bom desempenho. 

No  difcil concluir sobre as causas de tanto osadolescentes e jovens 
marginalizados, contraventores, agressivos, cada vez mais numerosos e 
que muitas vezes voltam a sua agresso para os pr prios pais: a liberdade 
incontrolada, embora no seja a nica,  uma Cas causas mais importantes. 

I 

Quanto mais tarde se tentar controlar a liberdade crianas inicialmente livres, quanto maior for essa liberdade, mais difcil ser. O hbito e 
a acomodao a esse tipo de conforto e mordomias podem chegar a um 
ponto em que, a partir da adolescncia, a revers o torna-se praticamente 
impossvel sem tratamentos especializados. 

Na dcada de 60 comeou-se a imprimir n as crianas a educao 
com liberdade total, em que pais e escolas, numa t,entativa de se contrapor 
s tendncias anteriores, julgadas muito restritivas, davam aos filhos 
liberdade deadotar, tanto navidafamiliar comonaescolar esocial,rumos 
que lhes aprouvessem. Depois de quase duas dc adas tivemos uma gerao de adolescentes e adultos jovens que no correspondiam ao esperado. 
O excesso de liberalidade deu ensejo ao aparecimento de elementos antissociais, marginais e pouco produtivos, envolvidcos com drogas, sem respeito a limites, acendendo 
as dvidas sobre a vali dade do esquema liberal 
de educao, 

45 




Dr. Henrique Klajner 

A nossa proposta  adotar um meio-termo -orientao educa- 
cional com limites bem amplos, dentro dos quais o educando pode ter 
opes aceitas pela famlia e pela sociedade, com deslizes ou erros sendo 
admitidos, dando novas e incontveis oportunidades de tentativas de au- 
tocorreo, com punies proporcionalmente ajustadas ao tipo e grau do 
erro ou falta, com atualizaes constantes, com premiao e elogios tam- 
bm proporcionalmente adequados aos acertos, sempre direcionando a 
criana e o jovem a aquisies progressivamente mais avanadas. 

Ao contrrio da educao restritiva, cuja orientao obrigava seguir 
uma linha "margeada por cercas eletrificadas ", e ao contrrio da liberal, 
que oferecia uma "rea aberta sem cercas ou muros" na qual a criana se 
perdia vagando em crculos sem qualquer orientao, premiao ou 
punio, a nossa proposta  a de lhe oferecer "uma ampla avenida", 
margeada por limites no traumticos, com permisso de os transpor, 
com direito a volta para reconsiderao e correo depois de reconhecer o 
erro cometido e, por outro lado, receber os merecidos prmios pelos 
sucessos adquiridos. Dessa maneira, ela vai aos poucos reconhecendo 
racional e moralmente a validade dos limites, dentro dos quais pode se 
movimentar e ver respeitado por todos seu livre-arbtrio ao ser autoriza- 
da a escolher seus prprios rumos, de acordo com a "constituio" fami- 
liar e com as leis sociais. 

Em resumo, achamos que nenhuma criana deve ser educada de- 
baixo de severas restries que lhe tirem os princpios da iniciativa, auto- 
realizao e auto-estima, nem com liberdade total que lhe permita caminhos desordenados e, com isso, se torne inapta a encarar a vida, tendo, 
mais tarde, que contrair pesadas dvidas e pagar altos preos materiais, 
psicolgicos, morais e sociais. No primeiro caso tira-se da criana a noo 
de responsabilidade, pelas condutas totalmente assumidas pelos edu- 
cadores, e se lhe nega a sensao da realizao plena, da auto-estima e de- 
senvolvimento de estmulos para conquistas posteriores. No segundo, a 
abstinncia dos pais em se envolver com a orientao adequada da criana transfere para ela a responsabilidade total pelos rumos que vier a 
tomar, sem que tenha tempo ou base para estruturao. De ambos os ca- 
sos resultam frustraes, fobias, ressentimentos contra os que se abstive- 

46 



A auto-estimulao precoce do beb 

ram da respectiva responsabilidade, que so origens dos futuros desvios 
de comportamento. 

Na nossa proposta, cada parte assume sua responsabilidade: os pais 
ou educadores oferecem o caminho escolhido para que seja seguido, 
mostrando riscos e vantagens, dando  criana chances de opes variadas, esclarecendo ganhos, perdas, castigos ou prmios que a atingiro, 
conseqncias diretas da opo adotada. A honestidade na apresentao 
do caminho real e verdadeiro  um exemplo observado e aprendido pela 
criana, que retribui com atitudes tambm honestas e verdadeiras, esta- 
belecendo-se, a partir da, a honestidade mtua, com considervel grau de 
confiana que aumenta progressivamente e culmina com a aquisio de 
slida e perene segurana pela criana, garantia de felicidade plena, real e 
concreta que se autonutre e chega a inimaginveis expresses de amor in- 
tenso, puro, leal e verdadeiro. 

O Choro 

 medida que crescem, os bebs e as crianas vo adquirindo capaci- 
dades e, atravs delas, suprem suas necessidades bsicas para sobreviver. 
Enquanto pequenas e pouco capazes, as necessidades bsicas das crianas 
vo sendo supridas pela famlia, mas,  medida que elas adquirem pro- 
gressivamente suas capacidades, vo se tornando auto-suficientes. 

A primeira proposta, e das mais importantes,  a de que os pais, na 
funo de provedores e principalmente de educadores, devem satisfazer 
os filhos na medida estritamente exata das suas necessidades, mas apenas 
quando por eles solicitados e se, pela "constituio" familiar, esse atendi- 
mento for permitido dentro das possibilidades oferecidas pelo tempo e 
pelo espao. Queremos dizer que os pais nunca devem se preocupar em 
dar s crianas mais ou menos do que sua real necessidade. 

Sabemos que o meio-termo no  fcil de conseguir. Dependendo da 
personalidade dos pais, das pessoas que cercam as crianas e do momen- 
to especfico de seu bom humor ou boa vontade, as ofertas s crianas podem variar e no obrigatoriamente se ater ao mdio ideal. A tendncia da 
maioria, com o beb recm-chegado,  dar "tudo porque chegou a grande 
fortuna da vida".  medida que o tempo e o deslumbramento passam, as 

47 



Dr. Henrique Klajner 

ofertas tendem a diminuir. Se dermos menos do que a criana necessita 
haver carncia, e se dermos mais ocorrer uma acomodao e um condi- 
cionamento da criana aos excessos. 

Como se podem avaliar as reais necessidades dos filhos e como se 
pode satisfaz-los na medida exata? 

No recm-nascido, a manifestao das necessidades  rudimentar e 
se faz atravs de um aparente "mal-estar". Sente-se que o beb no est 
bem quando faz uma carinha feia, choraminga, chora ou berra, ou as- 
sume uma atitude de desconforto, posicionando os bracinhos para baixo, 
e no para cima como  normal em situaes de bem-estar. Esses so 
sinais de alarme que acionam os circunstantes e os fazem ficar preocupa- 
dos, tentando descobrir o que est errado. "Como seria bom se a criana 
expressasse o que a incomoda.." Na verdade, no incio, esses sinais j se 
constituem num modo de comunicao para um entendimento rpido e 
perfeito entre a criana e o meio. 

A comunicao  perfeitamente factvel quando se permite  criana 
desenvolver "sua prpria linguagem". Para auxiliar a famlia a entender o 
linguajar do beb  que entramos ns, os profissionais da rea, orientando em cada caso como reconhecer os vrios tipos de manifestao, rela- 
ciona-los s suas causas e propor solues. Isso s  possvel com o con- 
vvio e observao constante da criana, com orientaes baseadas em 
estudos cientficos e procedimentos bem direcionados que permitam 
chegar s finalidades, mesmo sabendo da possibilidade de erros. 

O choro, ou berro,  o primeiro modo de comunicao, uma "lin- 
guagem", o mais precoce meio de entendimento que a natureza nos con- 
fere. Certas necessidades so manifestadas atravs de um berro muito intenso, pela sensao igualmente intensa, como a dor de fome, por 
exemplo, cuja intensidade  comparada  dor de parto. 

Se atentarmos para o fato de que o feto passa nove meses dentro do 
tero em total repouso, com todas as necessidades sendo supridas auto- 
maticamente, "usufruindo um repouso e sono contnuos", vemos que ao 
nascer tudo muda. Ele deve sair e comear a lutar pela sobrevivncia, pela 
nutrio e hidratao, por seu bem-estar. A natureza o obriga a isso, pelo 
menos nos primeiros tempos, atravs de estmulos fortes (do contrrio 

48 



A auto-estimulao precoce do beb 

continuaria a dormir e sucumbiria por desnutrio), obrigando simul- 
taneamente os circunstantes a atend-lo sempre e rapidamente pelo inc- 
modo e preocupao que o choro intenso lhes causa. 

No comeo, os pais encontram-se muito motivados e dipostos a "dar 
tudo para o filho" e socorrem-no ao menor suspiro. E normal a criana 
emitir rudos e sons, respirar alto, rosnar, fungar, sem que isso seja obri- 
gatoriamente preocupante. Como tudo ainda  novidade para os pais, 
principalmente se for o primognito, cada manifestao dessas represen- 
ta uma "corrida" ao leito do beb para ver o que ocorre. No se limitam, 
pelo menos nos primeiros dias, a apenas uma "olhada". Mexem, pegam, 
carregam, chacoalham, danam, cantam. A repetio seguida desses pro- 
cedimentos leva ao condicionamento de uma informaqo errnea pela 
criana, de que essa  e ser a rotina, sempre que houver, de sua parte, 
qualquer tipo de manifestao, mesmo que normal. 

Com o tempo, os pais acabam cansando de atender s "necessidades" 
inexistentes do beb. O beb sente falta da seqncia condicionada, in- 
tensifica e muda o tipo dos chamamentos, dos sinais. Por ser considerado 
sinal novo, ainda desconhecido ou mais forte, os pais voltam a correr para 

o beb, pensando que algo novo pode estar acontecendo e alimentam ainda mais o condicionamento anmalo e indesejvel. Cria-se um crculo vi- 
cioso de sinais cada vez mais intensos por parte da criana, seguidos de 
"socorro" sistemtico dos pais e chega um momento em que o choro se 
torna to forte que j no  suportado pelos circunstantes. Pode at ser 
eventualmente suportado mas o ser apenas por tempo muito curto, para 
depois os pais voltarem a acudir. Essa atitude de tentar suportar deixando 
chorar para depois acudir  muito pior porque assim estaro ensinando  
criana chorar muito "porque a compensao chega fatalmente em algum 
momento", mesmo que tarde. Quando condicionado ao choro muito 
forte, o choro j se torna intensssimo desde o incio, como que para evi- 
tar "perdas de tempo desnecessrias". A repetio sistemtica dessa situa- 
o torna insuportvel o convvio com a criana e, desesperados, os pais 
procuram socorro no sentido de ter uma orientao de como fazer cessar 
esse ciclo. 
A reverso do quadro descrito somente se consegue com o descondi- 
cionamento, que  obtido  custa de muito sacrifcio.  importante que o 

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Dr. Henrique Klajner 

choro intenso e duradouro seja suportado, aguardando o tempo que for 
necessrio para que ele prprio o choro e a agitao conseqente acabem 
por cans-lo espontaneamente. O cansao faz com que o beb. entre no 
sono espontaneamente e acorde descansado. 

Dependendo da idade da criana e do tempo durante o qual ela es- 
teve "dominando" a famlia, a durao e intensidade do choro a ser su- 
portado varia, assim como o nmero de vezes ase aplicar tal "corretivo" 
para que a criana seja recondicionada ao ritmo desejado. Quanto mais 
tempo os pais demorarem para a mudana, mais tempo ser necessrio 
para conseguir a reverso. A cada aplicao o choro se torna mais breve 
e menos intenso. O beb percebe o "baixo rendimento" que o choro lhe 
d, entende que no vale mais a pena "investir" nesse "negcio de 
poucos lucros", cessa o choro e permite a introduo de um novo condi- 
cionamento. 

Uma vez entendida a utilidade do choro, vejamos como se pode 
aceit-lo como um meio de comunicao usado pelo beb.. Entende-se o 
choro ou berro como uma maneira de chamar as pessoas do seu meio 
ambiente para lhe transmitir alguma mensagem. Uma das preocupaes 
dos pais  "a quase impossibilidade" de identificar, nos primeiros dias, o 
porqu- do choro. Realmente, essa dificuldade existe para todos, inclusive 
para os profissionais habituados a lidar com o problema e com as crian- 
as. Para facilitar a compreenso, faamos de conta que a criana  um 
nosso convidado, que fala apenas um idioma estrangeiro e desconhecido, 
a conviver em nosso ambiente e, para isso, ser de capital importncia 
conseguir uma maneira de comunicao entre ele e ns. A nica lngua 
que essa pessoa conhece  o "chor-s" ou "berrs". A nossa meta, como an- 
fitries,  fazer com que, dentro da capacidade que possui e no perodo 
mais curto possvel, ela aprenda a se comunicar na lngua portuguesa, 
nossa lngua oficial. O modo mais vivel, pelo que entendemos,  apren- 
dermos primeiro sua lngua, mesmo que rudimentarmente, para atravs 
de analogias ensinarmos a nossa. A cada aquisio que ambas partes con- 
seguirem, novas e mais numerosas adviro. 

50 



A auto-estimulao precoce do beb 

O primeiro passo  permitir que o convidado articule bastante sua 
lngua, gesticule, aponte, ou de alguma forma indique seus pensamentos. 
Se isso no for permitido, no se conseguir sequer a primeira aquisio, 
a partir da qual ser possvel ensinar-lhe nossa lngua atravs de "tra- 
dues" sucessivas. O importante , realmente, permitir que o beb fale 
sua lngua, chore, fale bastante o "chors", para que os circunstantes pos- 
sam, atravs de gestos, condutas, tentativas, erros e acertos, atinar com o 
que a criana deseja "dizer". Em hiptese alguma o choro deve ser impe- 
dido, principalmente atravs de condutas que tentam cal-lo e que nada 
tm a ver com o motivo do choro no momento, como pegar ao colo, 
passear com ele, oferecer lquidos, balanar, etc., porque, alm de no se 
conseguir aprender a sua "lngua", tambm no se chega a satisfazer suas 
reais necessidades. Alm do que, so prejudiciais, mantm a tendncia do 
beb em continuar chorando porque, ao contrrio do que se pensa, irritam a criana enquanto introduzem novos condicionamentos absoluta- 
mente desnescessrios. Isso caracteriza o estado de mimo. Sugerimos que, 
enquanto no se entende a solicitao, se permita o choro continuar at 
atinar-se com sua causa e san-la. Assim, a criana entende, desde cedo, a 
necessidade de empenhar-se com seus prprios recursos para conseguir o 
que almeja, desenvolve auto-estima ao conseguir, ao mesmo tempo que se 
lhe d a oportunidade de abrir um canal de comunicao e se mostrar to- 
do o interesse em agrad-lo e ajudar a resolver seus problemas. 

Salvo situaes patolgicas, de acordo com estudos cientficos, o be- 
b chora fundamentalmente por um ou vrios dos seguintes motivos, em 
ordem decrescente de possibilidade: fome, sede, desconforto, clicas ab- 
dominais e alguma outra dor, das quais uma das mais freqentes  a dor 
de ouvido. Nos primeiros dias a concluso sobre a causa  tomada por 
tentativa-erro-acerto, comeando pela fome e seguindo as tentativas na 
ordem acima. Para auxiliar na dinmica do raciocnio dos pais e da co- 
municao com o beb, o pediatra deve estar ao dispor da famlia, uma 
vez que, pelo menos no incio, no  fcil para os pais e familiares tirar 
concluses e tomar condutas. 

A conduta "democrtica" de deixar a criana "falar" leva todos, inclu- 

sive o pediatra, a sentir segurana e confiana recproca muito grande, 

51




Dr. Henrique Klajner 

desde que se aceite a idia de que a criana tem, no choro, um meio de 
transmitir suas necessidades atravs de "mensagem" que vai ser fatal- 
mente compreendida por quem cuida dela; essa pessoa, por sua vez, con- 
fia na tranqilidade do beb, que advm depois da conduta tomada ade- 
quadamente e seguida de satisfao. A segurana e a confiana mtua 
evitam angstia e medo geradores de tenses, d tranqilidade a todos e 
fecha o circuito, transmitindo-se tambm  criana. 

Desse modo, a comunicao entre a criana e seu meio ambiente 
adquire um carter sincero, autntico, bom e sincrnico, a ponto de, por 
volta de trinta dias, o choro apresentar formas diferentes, cada uma ca- 
racterizando determinada situao. O choro ou berro caracterstico passa a sinalizar aos pais, de imediato, o que o beb. necessita no momento. 
Comea a haver um tipo diferente de choro para fome, outro para sede, 
outro para manha, etc. O tempo a se aguardar, em mdia, para que se te- 
nha a comunicao funcionando perfeitamente, na nossa experincia,  
em torno de trinta dias, desde que se observe e siga o exposto acima. 

A "auto-estimulao" precoce 

Quando h comunicao efetiva o convvio no lar torna-se agradvel 
e convidativo para os pais que se interessam em participar cada vez mais 
da vida do beb e aprender mais detalhes e condutas para serem tomadas 
no dia-a-dia. Mal percebem que j praticam a "auto-estimulao precoce" 
do seu filho, a maneira mais indicada de conduzir a evoluo do beb, ao 
permitir que ele mesmo se auto-aplique e se autocondicione a estmulos 
oferecidos pelo meio e suas prprias respostas aos estmulos, que se cons- 
tituem tanto em aprendizado como em novos auto-estmulos. O termo 
precoce, neste caso, no significa o meio estar antecipando a evoluo do 
beb, mas indica apenas que condutas estimuladoras so tomadas desde o 
nascimento e no calendrio cronolgico do desenvolvimento da criana, 
antes do que era feito em tempos passados, quando se impedia, atravs de 
condutas de superproteo ou de represso, seu desenvolvimento normal 
e natural. 

52 



A auto-estimulaao precoce do beb 

Houve tempos-- eatualmente algumas correntes querem sua volta 
em que se procurou maximizar a velocidade do desenvolvimento e atin- 
gir sua mxima perfeio estimulando o beb em demasia, conduta  qual 
se atribuiu as causas de desvios psicolgicos e de comportamento porque 
se sabe que nem sempre as crianas conseguem acompanhar a intensa es- 
timulao programada. A conduta da auto-estimulao precoce, ao con- 
trrio, permite  criana participar do seu meio ambiente, obedecendo  
sua prpria constituio, com liberdade de expresso de todos os seus 
sentidos e percepes, usando plenamente suas potencialidades e seus 
prprios recursos, incorporando simultaneamente os recursos do meio e 
de seus componentes, humanos ou no, ao mesmo tempo que conhece os 
limites apresentados por ele. 

A proposta de auto-estimulao precoce d  criana a oportunidade 
de evoluir rapidamente, com respeito s suas caractersticas prprias, permitindo que adquira conhecimento completo e progressivo do mundo e 
dos seus limites e, enquanto suas aquisies avanam, paulatinamente 
aprende "at onde pode chegar" com liberdade e sem traumas. H pessoas 
que ainda tm dvidas quanto  necessidade de estabelecer limites para a 
criana. Somos da opinio de que eles devem ser estabelecidos pelo sim- 
ples fato de haver limites em tudo na vida. Limite significa demarcao 
alm da qual no se deve avanar. Estabelecer limites para uma criana 
no significa obrigatoriamente impor proibies ou restries, mas ensi- 
nar como  e como funciona o ambiente em que ela se encontra, inicial- 
mente a famlia e depois a sociedade. Se a criana for sendo habituada aos 
pequenos limites desde que nasce, vai aceitando-os gradativamente e in- 
corpora-os de maneira suave e no traumtica  sua realidade. Ela vai ten- 
do conhecimento das suas "reais" possibilidades, at onde estas podem ser 
utilizadas em seu benefcio sem se prejudicar e a terceiros, vai tendo conscincia da realidade e de como deve se comportar, ao aprender a avaliar e 
considerar as conseqncias de suas atitudes. 

A tranqilidade ntima e a autoconfiana da criana adquiridas pela 
auto-estimulao precoce permitem sucessos em cadeia, com aceitao 
racional de possveis derrotas, diminuindo ou abolindo frustraes e rea

 53




Dr. Henrique Klajner 

limentando a segurana e a autoconfiana adquiridas. Se for mantida 
constncia no processo, sua evoluo ser sempre ascendente, semelhan- 
te a uma construo onde os tijolinhos vo sendo sobrepostos na ordem, 
local e velocidade adequados, embasando firmemente o desenvolvimento 
para o futuro. 

Se permitirmos  criana a auto-estimulao para que desenvolva to- 
do seu potencial e paralelamente no lhe ensinarmos os limites, ela no 
saber que eles existem e ter que aprend-los obrigatoriamente mais 
tarde, multas vezes  custa de grande sofrimento porque a vida toma para 
si a iniciativa desse ensino. Em todas as fases, em todas as idades pelas 
quais passar, a noo de que "na vida no h limites" d-lhe conscincia 
de que " dona do mundo", realidade que no existe. 

Se, ao contrrio, tiver apenas limites apontados para si, sem auto-es- 
tmulo para desenvolver plenamente seu potencial, crer ser portadora de 
uma incapacidade irreal, ficar retrada e com enorme dificuldade para 
vencer obstculos e, o que  pior, sem vislumbrar sequer a possibilidade 
de venc-los sozinha, uma vez que no teria tido oportunidade de saber 
que h caminhos para isso. As opes extremadas de educao, ou s de 
estmulos ou s com limites, so causas de frustaes devido s falhas na 
colocao dos "tijolinhos na sua construo". As conseqentes lacunas, de 
tipos e tamanhos variados, repercutem na formao da personalidade e 
do ensejo a perturbaes emocionais que, em muitos casos, s6 desapare- 
cem aps tratamentos psicoterpicos que consigam colocar os "tijoli- 
nhos" faltantes. 

A criana auto-estimulada e conhecedora de limites desenvolve se- 
gurana, confia firme e fielmente no meio ambiente e nas pessoas que o 
compem, particularmente as responsveis pelos seus cuidados. Significa 
que, apesar de pequenas frustraes e desenganos que  obrigada a su- 
portar com o estabelecimento gradual de pequenos limites, vai aos 
poucos percebendo que os limites so obrigatrios e sempre se fazem pre- 
sentes, e ela vai progressivamente os estendendo e ampliando para todas 
as situaes durante sua evoluo. Consegue adaptar-se  existncia deles, 
aceita-os como normais e justos e entende que eles, juntamente com seu 

54




A auto-estimulao precoce do beb 

esforo, levam-na a ser extremamente bem aceita nos sucessivos meios e 
aos conseqentes sucessos que alimentam sua autovalorizao e auto-estima. Em decorrncia, passa a valorizar seu empenho tanto quanto o respeito aos limites, interessa-se 
por novas conquistas, aprecia a multipli- 
cao da "premiao" que delas advm, sente-se cada vez mais estimulada 
a esforar-se para conseguir seus intentos, o que incrementa a confiana 
em si e em seu meio. Ao projetar o exposto para o futuro, resulta numa 
pessoa sempre autoconfiante, decidida, segura, educada, respeitosa, tendo 
considerao pelos limites e pelos direitos de todos e aprendendo a con- 
quistar, com mritos prprios, os seus "espaos", desde a infncia, a ado- 
lescncia e por toda a vida. O "edifcio" da sua personalidade estar embasado sobre alicerces saudveis, sobre o amor e confiana em tudo e em 
todos com os quais entra em contato. A vida se processar alegre, feliz e 

com o mnimo de traumas. 

55




3 
A criana em seu 
primeiro ms de vida 

A criana nos primeiros trinta dias, principalmente se for pri- 
mognito,  para os pais algo novo e desconhecido. Entre os casais, a 
maior parte, se chegou a conhecer alguma coisa a respeito de infantes, 
nunca vivenciou a experincia de ser pai ou me. Podem, eventualmente, 
ter feito cursos, assistido a palestras, lido livros, tido informaes e co- 
mentrios de parentes, amigos, televiso, revistas, mas o fato de terem que 
assumir as funes de pais e responsveis diretos faz com que sejam as- 
saltados por sentimentos de ansiedade e medo.  absolutamente normal. 
O futuro desconhecido que tm pela frente dever ser vivido dia a dia, hora a hora e minuto a minuto e, alm disso, sabem que essa vivncia ser 
para o resto de suas vidas, mesmo quando forem avs. 

O perodo inicial de trinta dias, ns o chamamos de "perodo de 
adaptao mtua". Se na famlia todos se apresentarem  criana e se permitirem um auto e mtuo reconhecimento real obedecendo  "cons- 
tituio" familiar e se esta tiver sido formulada de acordo com os anseios 
do casal, ao cabo dos trinta dias os pais e os circunstantes tero se adaptado de maneira saudvel ao beb e permitido tambm sua perfeita adap- 

tao. 

O pediatra de hoje no  mais, como era antigamente, a nica e 
suprema autoridade a dar orientaes genricas e aplicadas indistinta- 
mente a todas crianas, sem levar em considerao a natureza particular 
de cada uma. Atualmente, concluses baseadas em estudos cienttficos re- 

56




A auto-estimulao precoce do beb 

centes fazem com que as orientaes sejam individuais, dadas aps avaliar 
cada criana em particular, levando em considerao suas caractersticas 
genticas, fsicas, psicolgicas de personalidade respeitando-a e amparando-a em seu contexto pessoal e ambiental-familiar. 

Aprendemos, antes de mais nada, que a mxima observao da 
criana  o incio de bons cuidados. A anlise da criana baseada em ob- 
servaes permite concluses que nos do ensejo de escolher procedi- 
mentos especiais para ela. Para se conseguir trilhar essa linha de conduta 
 primordial o dilogo e o entendimento entre as partes que iro se 
ocupar do seu atendimento. 

O pediatra 

Os pais so os responsveis diretos pela criana, tomando e dividindo as tarefas entre si, inclusive o encargo das observaes. Em casos ou 
momentos especiais, podem delegar temporria ou definitivamente suas 
funes a terceiros, cuja participao nos cuidados e observao de crianas dever estar nitidamente estabelecida na "constituio" familiar. E, 
fechando o tringulo de relaes, est o pediatra, cuja funo  fornecer a 
todos os meios pelos quais podero chegar aos melhores resultados, 
orientando no s a parte mdico-teraputica, como tambm diferentes 
reas onde existam influncias mtuas que incluam pais e filhos, como as 
psicopedaggicas, sociais, escolares, etc. O que de mais importante se 
deve visar  manter um dilogo permanente, sempre aberto e disponivel, 
terrivelmente honesto e sincero entre todos, principalmente com o pe- 
diatra. A adoo ou no, pelos pais, das condutas indicadas por ele est 
obrigatoriamente na dependncia da aprovao prvia, ou no, aps 
anlise judiciosa dos pais ou dos responsveis. Sua resoluo  sempre 
soberana, pois  sobre eles que recairo lucros ou prejuzos decorrentes. 

Nem sempre o consultor dos pais  o pediatra. Um membro da 
famlia, vizinhos, elementos que aparecem na imprensa falada ou escrita 
podero ser eleitos e adotados pelos pais como consultores. Em nosso 
meio, porm, o pediatra  o profissional mais freqentemente convidado 
a s-lo e sua participao em todo processo varia de acordo com a famlia, 
podendo ocupar posies de simples orientador para medicamentos mas

 57




Dr. Henrique Klajner 

chegando, em muitas famlias, a preencher o vazio deixado pelo "mdico 

de famlia" do passado, to querido e de import~ncia ainda nos dias de 

hoje.  muito natural que isso acontea, uma vez que  atravs da criana, 

elemento importante e mais recente, que o pediatra entra e participa da 

dinmica da famlia, mostra sua linha de conduta e  analisado. Quando 

ganha a confiana de todos, por ser um dos raros generalistas da rea 

mdica, por atuar "desde o comeo da vida das pessoas", por ter como fi- 

nalidade fazer delas adultos normais sob todos os pontos de vista e, por is

so, ser obrigado a conhecer no s procedimentos curativos mas, princi

palmente, os preventivos, passa a ser depositrio de amizade e confiana 

irrestritas. Como veremos no decorrer das nossas exposies, ele chega a 

tomar condutas aparentemente prematuras e antecipadas, em certas 

ocasies, para evitar possveis ou provveis problemas projetados para 

acontecer, s vezes, dcadas adiante, o que nem sempre  bem compreen- 

dido pelas pessoas. De qualquer maneira, o pediatra entra no circuito, 

convidado, para satisfazer as reais necessidades da criana, dos pais e da 

famlia, obedecendo sempre a uma linha de conduta constantemente 

atualizada e adaptada criteriosamente  "constituio" familiar. 

Durante toda nossa vida profissional sempre preferimos vivenciar 

muito o dilogo por julgarmos ser o mais importante instrumento de que 

todos dispem para um entendimento pleno. Quanto mais se conversar, 

quanto mais se trocar idias, melhor. O dilogo deve ser iniciado por 

quem carece de esclarecimentos, qualquer pessoa do agrupamento fami- 

liar ou mesmo do prprio pediatra. No raro eu mesmo costumo tomar a 

iniciativa de entrar em contato com a famlia para inteirar-me de deta- 

lhes, de informaes ou simplesmente para saber como "as coisas vo in- 

do". Tenho comigo constantemente uma agenda, com os telefones de to- 

dos os clientes, que me permite contat-los  hora e local em que julgar 

importante faz-lo. Da mesma forma, o casal precisa ter sempre um canal 

aberto para dilogo entre todos os membros da famlia, e principalmente 

com seu pediatra, sem limitaes de hora ou local. O dilogo  o acesso  

amizade agradvel que se vai firmando entre todos e, atravs dessa 

amizade, se instala uma confiana recproca, pais confiando nas orien- 

taes, o pediatra, nas informaes prestadas a partir das observaes da 

58




A auto-estimulaao precoce do beb 

famlia, sendo possveis e at muito freqentes as famosas orientaes por 
telefone. 

Quando o dilogo  sempre disponvel, a confiana geral que se esta- 
belece  passada  criana atravs dos procedimentos firmes de pais con- 
fiantes, tranqilos, satisfeitos e seguros. A confiana e a tranqilidade da 
criana retornam a eles num circuito que se auto-alimenta indefinida- 
mente. Esse circuito de confiana facilita ao pediatra auxiliar a famlia a 
adaptar seu filho ao ambiente e  sociedade. 

As "superofertas" e os mimos 

Com o advento de um beb, o ritmo da famlia sofre uma mudana 
radical, sentida principalmente nos primeiros trinta dias; nada mais normal porque dever ocorrer uma adaptao ampla entre todos. O casal no 
deve abdicar de seus hbitos, gostos, planos, mas neles deve sempre levar 

o beb em considerao, sem prejudicar a integridade e a evoluo normal de todos. Os pais no devem ter, entre si, interesses conflitantes, devem estar sempre de 
acordo. Se chegarem a ter, porm,  imperioso esta- 
belecer rapidamente um consenso, pelo dilogo e por concesses 
recprocas, tendo como objetivo primordial oferecer  criana a mxima 
satisfao de suas necessidades bsicas que no lhes cause prejuzos srios 
e evite excessos desnecessrios. No nos devemos esquecer de que a sade 
perfeita da criana depende, antes de tudo, da plena sade fsica e mental 
do casal, fator incondicional para que dela possam cuidar melhor. 
Os pais devem adequar suas condutas s reais necessidades dos 
filhos. Devem sempre evitar excessos, tanto para menos como para mais. 
O mais freqente, nesse perodo,  ocorrer a segunda possibilidade, pela 
facilidade e natural disposio que todos tm de oferecer mais do que as 
reais necessidades, condicionando-os ao suprfluo, que se integrar s 
suas rotinas, fazendo-os entender que o suprfluo  muito importante 
porque  "oriundo dos seus prprios pais". 

Citamos como exemplo o colo. Ningum duvida ser agradvel ter 
uma criana ao colo, carreg-la, aconcheg-la, nin-la, beij-la, acarici-la, 
a ponto de os circunstantes disputarem cada um a sua vez. Cremos que a 

59




Dr. Henrique Klajner 

criana, pela necessidade que tem de repouso, at que preferiria ficar no 
bero, mas diante de situaes de insistncia em peg-la impostas pela 
famlia, ela se v na contingncia de aceitar, acreditando que  bom porque 
 oriundo do seu meio, acabando por gostar de ficar ou dormir no colo, 
convencida de que no seu meio ambiente, essa  uma rotina normal e, para 
nele poder sobreviver e nele ser bem aceita, assim deve se comportar. 

Carregar beb ao colo  gostoso enquanto"tudo  novidade", porm, 
 medida que a criana cresce, ganha peso e outros afazeres reclamam a 
presena e atuao das pessoas, a tendncia  de se parar com isso. Mas 
como, se quando se tenta parar, a criana, j acostumada, comea a berrar 
reclamando? Como suportar a gritaria? Como suportar uma criana 
chorona e birrenta? A criana, ento, ganha o seu primeiro rtulo:  muito 
nervosa. 

Impera, na criana, a lei do tudo ou nada. Uma vez condicionada a 
um estmulo, como o colo, por exemplo, querer sempre preservar o colo 
por consider-lo bom, uma vez que foi oferecido por uma pessoa do seu 
prprio meio e das que mais gostam dela. At certa idade, ainda no exis- 
te capacidade da criana poder discernir situaes e saber dosar o quanto 
exigir de determinado estmulo e tambm dosar as respostas a dar a eles. 
S com o tempo a criana vai adquirindo tal capacidade. 

Se os pais pararem de oferecer suprfluos quando assim desejarem, 
significar grande frustrao para o beb, que v negado aquilo que 
aprendeu a aceitar como bom. A frustrao com a manuteno da nova 
conduta corretiva  rapidamente esquecida e compensada pela satisfao 
em sentir-se mais bem aceito ainda pelo meio no novo ritmo. O pior  ter 
frustraes no futuro, quando os condicionamentos errados iniciais e 
mantidos j tiverem cado no esquecimento e comearem as dependn- 
cias afetivas deles decorrentes, nos mais variados setores de atividade e de 
acordo com a fase pela qual a criana estiver passando.  claro que as con- 
seqncias nem sempre so catastrficas, mas nunca deixam de ser de- 
sagradveis, incomodativas e trabalhosas e, o que  mais importante, per- 
feitamente evitveis. Basta, para evit-las, que desde o incio se abstenham 
ou se removam, o quanto antes, condicionamentos suprfluos que no 
devero ser mantidos eternamente. 

 60 



A auto-estimulao precoce do beb 

As "superofertas" mantidas so invariavelmente incorporadas  roti- 
na e a criana, acostumada a elas, passa a exigi-las e a no mais se satisfa- 
zer s com as ofertas normais. Essa rotina leva a criana a entender que, 
para sempre e em tudo, poder exigir mais do que  normal.  impor- 
tante saber que a criana valoriza o que lhe  dado apenas nos primeiros 
minutos. Logo, habituada ao suprfluo fcil, comea a desprez-lo e, 
para se satisfazer novamente, exige ofertas diferentes, progressivamente 
maiores. Se as exigncias forem continuamente atendidas, passar a exigir sempre coisas novas, na maior parte das vezes suprfluas, mas preco- 
cemente desvalorizadas, at que seu interesse intrnseco e real mude do 
objeto ao emocional,  simples sensao de ganhar ateno continuada- 
mente, usando o objeto material como meio de conseguir o emocional. 
Chega ao cmulo de sentir necessidade apenas do "ato" da oferta. Os pais 
dizem, ento, que "esta criana no d valor a nada que recebe", o que no 
deixa de ser verdade. Mas isso acontece por exclusiva responsabilidade 
deles prprios ao habitu-la, pela repetio, ao "ato" de receber e no 
mais aos objetos recebidos. Em suma, ela passa mesmo  a querer a 
ateno constante das pessoas e, para consegui-la, usa pedir e obter 
algum obieto. 

 fcil entender que as "superofertas" terminam por abolir a iniciativa da criana para as "conquistas" normais e que ela mesma deve desen- 
volver atravs de esforos prprios e durante toda a vida, porque tudo lhe 
ter chegado "gratuitamente". Sem iniciativa e sem conquistas prprias 
no acontece a auto-realizao, no se desenvolve autoconfiana nem au- 
to-estima. A criana sem auto-estima  carente, no se ama e, por conse- 
qncia, no adquire capacidade de amar terceiros e de se relacionar, torna-se egocntrica, egosta, continua a querer que tudo continue sendo a 
ela oferecido e, se perdurar o processo, acaba tendo incapacidade de rela- 
cionamento, o que em geral leva  retrao,  timidez como defesa,  fuga 
diante dos desafios e  agressividade como meio de disfarar o medo de 
sofrer agresses, assim entendida quando solicitada a alguma realizao, 
maneiras que, em ltima anlise, so tentativas de continuar atraindo as 
"superofertas", materiais ou emocionais, s quais se habituou. 

Os pais que se "esmeram" em "superofertas" precisam ser alertados 

61




Dr. Henrique Klajner 

para o fato de que rapidamente chega o dia em que no geral se cansam e 
comeam anotar uma dependncia crescente dobeb sua presena ou  
sua participao, at para funes fisiolgicas. A disposio para atend- 
lo exageradamente comea, ento, a diminuir, estranham e ficam incomodados por ele no conseguir ficar sem sua presena ou participao 
constante ("ele j deveria ser mais auto-suficiente") e comeam a tentar 
no satisfazer suas exigncias. A criana pequena investe com a nica 
arma de que dispe, o choro e o berro. Interpretado como sinal de sofri- 
mento, os pais acabam por atend-lo, porm tentam, nas oportunidades 
que se seguem, "agentar"o choro por tempo cada vez mais longo mas, 
diante da insistncia, vo sempre cedendo, enquanto o beb vai "apren- 
dendo" a chorar longa e intensamente, porque foi condicionado a ser, no 
final, sempre atendido. Ao cabo de alguns dias, ele  levado ao "entendi- 
mento" de que "sem choro no consigo nada", e instala-se, ento, o choro 
e berro preventivo j como primeiro modo de solicitao usado pelos bebs "mimados ". A situao comea ase agravar, o cansao dos pais aumenta, sua irritao tambm, 
podem aparecer situaes de desavenas e 
discusses que geram intranqilidade no ambiente ase transmitir para a 
criana. A intranqilidade  motivo de insegurana da criana, a provocar 
mais choro como tentativa de chamar a ateno sobre si, i naturalmente 
insegura. Fecha-se o crculo vicioso do choro compulsivo dos bebs que 
se auto-alimenta continuamente, se providncias no forem tomadas. O 
ambiente pode tornar-se to tenso, o casal sentir-se to desesperado que, 
inconscientemente, na busca de uma soluo, a criana acaba sendo con- 
siderada uma "inimiga", taxada como "nervosa", irritadia, possuidora de 
um "gnio muito forte". Esquecem que foram eles mesmos os iniciadores 
do condicionamento que levou o beb a tais hbitos, pelo raciocnio su- 
perado de "dar ao filho tudo o que puderem". Esquecem, tambm, que a 
criana, nessa fase, necessita dos pais apenas para satisfao das suas necessidades bsicas, encontrando, nas vontades e iniciativas prprias, motivo para se auto-estimular 
e evoluir conforme suas capacidades, e de 
acordo com o que lhe apresenta o ambiente ao qual pertence, No h 
condies, fsicas ou emocionais, que confiram aos pais "gs" ou "cacife" 

62




A auto-estimulao precoce do beb 

suficiente para manter e sustentar comportamentos de exceo por tempo muito longo. 

Todos os artifcios que se tenta usar para acalmar uma criana mi- 
mada funcionam por pouco tempo. Logo ela passa a exigir novos artif- 
cios porque, na realidade, se habitua s "novidades" e passa a no valorizar 
os artifcios em si, porque incorpora todas as"mudanas" e ateno cons- 
tantes  sua rotina. Se projetarmos a manuteno disso tudo para o fu- 
turo, vemos uma criana, depois adolescente e depois adulto, evoluindo e 
exigindo, dos sucessivos ambientes, satisfaao constante, no de necessi- 
dades, mas de vontades e excessos eternamente mutantes, comportamen- 
to que certamente lhe trar grandes problemas nos lugares que vier a freqentar e onde muito raramente poder encontrar plena e eterna 
disposio das pessoas para isso. Ao contrrio, os ambientes  que sempre 
exigem dos seus participantes uma grande cota de desprendimento, de- 
dicao, autodoao, indispensveis nos processos de relacionamento que 
uma pessoa mimada no tem condies de atender porque nunca foi 
"treinada" para tal. Ter sido "sempre servida e atendida', procedimento 
que limita as capacidades de relacionamento e de integrao. 

 fcil imaginar a dificuldade na vida e no desempenho individual da 
criana mimada interferindo em todos os setores de suas atividades. Sua 
auto-realizao, autoconfiana e auto-estima no acontecem numa 
sucesso normal, seu amor-prprio tambm claudica, o que impede o de- 
senvolvimento da sua capacidade de amar o prximo e a faz encontrar 
sempre obstculos nos relaci0namentos. No conseguindo vencer sozinha 
os obstculos, evita-os recorrendo  introverso,  introspeco,  angstia 
e, para super-las,  agressividade, principalmente contra os que julga 
"causadores e, por isso, culpados por todos dissabores" (os pais), aos quais 
inconscientemente atribui a responsabilidade por sua situao. A angstia 
leva  depresso, s brigas, ao uso de drogas e aos crimes, ocorrncias que 
podem ter, entre outras, sua causa em mtodos educacionais como o das 
"superofertas" com superproteo. 

Colocamo-nos contra os mimos por considerarmos serem eles 
origem de problemas que, embora possam no chegar a ser to graves 
quanto o descrito, podem alcanar graus variveis de intensidade. Da 

63




Dr. Henrique Klajner 

nosso apelo: tentar evitar os mimos ao mximo e, se no for possvel, corrigi-los o quanto antes por ser mais fcil ameniz-los enquanto precoces. 

Se consideramos a possibilidade contrria e no rara da criana ser 
carente, no ter do seu ambiente sequer a satisfao das necessidades bsi- 
cas, deparamos com um quadro diferente, no qual, buscando ficar satis- 
feita, ela procura, sozinha, os meios de conseguir o que necessita ou quer. 
Atravs de movimentao, choro, etc. -que nada mais so do que autoestimulao --, vai sozinha s conquistas, desenvolve-se aceleradamente, 
adquire "esperteza", torna-se cativante, alegre  aproximao de pessoas, 
grata por qualquer coisa que por ela se faa, mesmo que no seja de ca- 
rinho. Acaba por se tornar pessoa habituada  autoconfiana, bem-suce- 
dida mas no sem problemas de ordem emocional, devido  carncia que 
sente. O esforo para sobreviver sem ajuda bsica e sem expresso de 
amor a far autoconfiante e cheia de auto-estima, mas sem saber como 
doar porque lhe ter faltado o ensino de como faz-lo, por sempre ter re- 
cebido muito pouco. 

A auto-estima adquirida o  com prejuzo por no ter recebido expresso de amor nem a devida "valorizao" por parte do ambiente e de 
terceiros; adquire to-somente aquela que consegue por si mesma. 
Costuma, como conseqncia, retribuir qualquer relacionamento com 
pouca expresso de amor e estima, comprometendo-o pelo aparente 
egosmo e frieza. Segundo estudos, a criana carente tem mais facilidade 
do que a superprotegida em adaptar-se aos ambientes e em conquistas futuras exatamente porque desenvolve uma altssima capacidade de 
raciocnio e mudanas estimulados pela constante necessidade de autoconquistas a fim de alimentar a auto-estima. Por outro lado, sua frieza e 
egocentricidade impedem o bom relacionamento porque os outros no 
recebem dela a afetividade to necessria para qualquer tipo de relao. 

64




A auto-estimulao precoce do beb 

A auto-estimulao precoce 

O ideal, e mais difcil de conseguir,  a posio intermediria entre a 
superproteo e a carncia. Desvios para um dos extremos costumam 
ocorrer em graus variados porque o comportamento humano  mutante. 
Mas  para essa "santa busca" do meio-termo que existimos, os pediatras, 
num trabalho diuturno com pais e familiares, procurando convenc-los a 
aderir s novidades", mesmo que, em muitas situaes, devam impor 
condutas enrgicas aos filhos. Tolerar crises de choro sem interferir, 
aplicar castigos leves ou perdoar ou ainda desculpar-se perante o filho 
quando de uma conduta injusta fazem parte da conduta moderna e sadia, 
sempre respeitando a "constituio" familiar dos pais, a "Carta Magna da 
repblica domstica". O meio-termo leva inevitavelmente a criana  luta 
e s conquistas progressivas. Cada conquista se torna estmulo para outras novas atravs da autoconfiana e auto-estima adquiridas e todas se 
ampliam como num leque, acelerando o desenvolvimento pessoal, familiar, social, intelectual, ao mesmo tempo que permitem  criana ter progressiva independncia 
das pessoas e dos meios pelos quais passar. E tudo 
com enormes trocas de amor devido  auto-estima adquirida com 
expresso do amor e da estima recebidos. A criana assim conduzida se 
destaca das mimadas e das carentes pelo discernimento, pelo comportamento natural, confiante e independente, pela precocidade de aprendiza- 
do e evoluo que a fazem sobressair, se destacar. Esse destaque retroali- 
menta a autoconfiana, a auto-estima, o amor-prprio e, pasmem,  
acompanhado da humildade que a torna capaz de amar, ampliando e 

facilitando relacionamentos e adaptaes. 

O meio-termo que aprovamos, sem admitir carncias ou"superofer- 

tas", se consegue atravs da auto-estimulao precoce, desde o nascimen- 

to e no primeiro, segundo e terceiro meses de vida. Como o prprio nome 

diz, atravs dela a criana recebe estmulos dela mesma. Isso significa que 

desde o nascimento  permitido  criana manifestar suas necessidades 

que, quando identificadas e satisfeitas basicamente, sem excessos mas 

com carinho e amor, a fazem sentir e aprender que o ambiente a atende s 

no que for importante, no lhe rouba a iniciativa de pedir nem lhe tira os 

mritos proporcionais do sucesso, dando-lhe plena sensao de ser ama

65




Dr. Henrique Klajner 

da e aceita com suas necessidades e respeitada quaisquer que sejam suas 
aptides. Cada conquista sua representa novo estmulo para outras, e a 
cada auto-realizao incorpora mais auto-estima e amor. 

 muito importante frisar que o processo se inicia no nascimento, l 
nas primeiras amamentaes, quando a fome e a sede (sensao dolorosa 
intensa transmitida ao ambiente pelo choro) so satisfeitas por serem 
necessidades bsicas, o beb j determina e evidencia a intensidade dessas 
sensaes pela aceitao ou recusa do que lhe  oferecido. Com toda 
certeza, depois de um ou dois dias, nos quais lhe  mostrado o ritmo de 
alimentao e de vida que o ambiente est disposto a oferecer, estar iniciada a auto-estimulao seguida de auto-satisfao e auto-estima. O 
mesmo vale para o sono e para todas as necessidades bsicas, permitindo 
que o beb. participe das atividades do meio, adaptando-se a coisas e sensaes como rudos, msica, alegria, tristeza, iluminao, visitas, sadas, 
etc., desde que se respeitem suas limitaes e aptides. Esse  o procedimento adequado para a educao auto-estimulada e com limites. 

66




4 
A criana em seu
segundo ms de vida 


Nos primeiros trinta dias a famlia ocupa-se com o mtuo reconhe- 
cimento, auxiliada pelo pediatra, enfermeiras e parentes. A entrada da 
criana no segundo ms de vida constitui um marco importante para os 
pais porque  tradio sentirem-se ansiosos, aguardando o retorno ao 
consultrio do pediatra para avaliar a evoluo, verificar quanto engor- 
dou, quanto cresceu, se est forte, se os reflexos esto normais e, principalmente, porque, sem haver explicao convincente, a partir da o beb 
ganha o direito de comear os passeios ao sol e eventualmente receber, na 
alimentao, algo mais do que simplesmente o leite materno. Depois de 
trinta dias de "sacrifcios", durante os quais houve empenho geral e aprendizado bsico, o segundo ms desponta como o incio de uma "nova era" 
pois inicia-se um novo perodo de expectativas, apesar de nele quase no 
haver mudanas sensveis nos cuidados gerais do beb. Os pais j se reco- 
nhecem "senhores" de uma situao de fato e, dependendo da orientao 
que tiverem tido, sentem-se bem mais seguros para transmitir segurana 
 criana. Contribui bastante o fato de, no incio, parmetros de evoluo 
como as curvas de ganho de peso e altura terem ascenso vertiginosa para 
quase cem por cento das crianas. 

Os procedimentos em relao  higiene alimentar, fsica, ambiental, 
mental continuam os mesmos. O condicionamento da criana ao seu am

67




Dr. Henrique Klajner 

biente, aos rudos, aos odores j se deu, sua viso j distingue vultos (a 
partir dos dez dias), ela encanta os circundantes por j permanecer des- 
perta por tempo maior e esboar sorrisos-reflexos ou emitir rudos prin- 
cipalmente quando algum se aproxima. O encanto entusiasma, todos 
sentem-se recompensados e atrados e o primeiro impulso que tm  o de 
tentar obter as reaes espontneas acima descritas atravs de estimu- 
laes falar  criana, toc-la, peg-la ao colo, balanar e notam que, 
dessa maneira, realmente as obtm. 

A criana necessita cada vez menos de sono  medida que cresce. 
No decorrer do segundo ms os perodos de viglia se ampliam, ela pas- 
sa ase interessar por progressiva adaptao e reconhecimento do am- 
biente atravs da auto-estimulao, de acordo com suas aptides cada 
vez maiores, sendo atrada cada vez mais pela diversificao de seu 
meio. Essa atrao desperta seu interesse em olhar, analisar, tentar 
aproximar-se e pegar objetos e, a cada conquista, se auto-estimula a tentar e conseguir outras mais difceis, maiores e mais distantes, com a con- 
seqente aquisio de mais capacidade para manter a continuidade do 
seu progresso. 

Estimular artificialmente a criana em qualquer idade, dar-lhe o que 
deve conquistar sozinha, lembr-la de executar determinada tarefa, ante- 
cipar acontecimentos e dar a conhecer resultados de atitudes que ela deve 
tomar espontaneamente, provocando sua curiosidade antes mesmo que 
chegue a manifestar interesse por elas, for-la a fazer demonstraes do 
que j aprendeu para entretenimento de terceiros e deles receber 
aprovao e aplausos so atividades que propiciam, na verdade, dficits de 
aquisies porque estariam acontecendo na dependncia e  custa de outros. Esses procedimentos oferecem invariavelmente o risco de que a 
criana entre numa acomodao subseqente, limitam sua disposio 
para o auto-estmulo e autoconquistas, alimentam sua dependncia a es- 
tmulos artificiais de terceiros para evoluir. Essa dependncia tende ase 
manter e aumentar se essas prticas de estimulao artificial no forem 
interrompidas. Pode ocorrer um bloqueio da noo de necessidade de 
evoluir e a dependncia crescer se retroalimentando num crculo vicioso 

68




A auto-estimulao precoce do beb 

onde so gerados pedidos de superproteo que aumentam ainda mais o 
bloqueio, resultando em atraso de aquisio sem perspectivas de recupe- 
rao espontnea. 

Durante o segundo ms o choro ainda  a forma de comunicao da 
criana com o ambiente, mas j  razoavelmente compreendido pelos pais 
que conseguem identificar respostas do beb s suas solicitaes e abor- 
d-lo convenientemente quando solicitados. Essa  a fase em que, se no 
se tomar cuidado, inicia-se o processo da dependncia afetiva porque a 
tentao de "curtir" a criana, ento muito engraadinha, leva muita 
gente a esquecer da "constituio" familiar. Interessados na satisfao pes- 
soai, procedem com a criana, muitas vezes inadvertidamente, de maneira 
a no apenas satisfazer suas necessidades bsicas, e condicionam-na a 
hbitos com os quais muitas vezes eles mesmos no concordam. 
Esquecem que, depois, a ausncia desses procedimentos  sentida e 
provoca choros, no incio suportveis mas,  medida que as tentativas de 
inibi-lo forem sendo tomadas sem sucesso, aumentam de intensidade e 
durao, tornam-se insuportveis e levam os circundantes ao desespero. 
O pior  que prejudicam o bem-estar e a evoluo normal do beb. 
Portanto,  importante o julgamento preciso e antecipado das condutas 
com as crianas e no tom-las, se no puderem ser mantidas. 

Passeios e banhos de sol 

Nesse perodo tm incio atividades sociais como passeios para 
tomar sol, visitas mais freqentes a familiares ou amigos, etc. O meio 
comea ase ampliar, oferece novos atrativos  auto-estimulao da crian- 
a e cria muitas oportunidades para que comece a sair da rotina. O con- 
selho que costumamos dar  o de no permitir exposio do rosto e ge- 
nitais ao sol e usar sempre um protetor solar no sensibilizante, de fator 
adequado  durao e  intensidade da exposio e, de preferncia, pela 
manh, quando as radiaes so mais benficas. Se outras atividades 

69




Dr. Henrique Klajner 

forem introduzidas, sempre priorizar as necessidades bsicas, os horrios 
mais ou menos rgidos e de acordo com os habitualmente aceitos, e talvez 

o mais importante, evitar adoo de costumes que no podero ser man- 
tidos para sempre. 
Vacinas 

Atualmente, no incio do segundo ms de vida, j so feitas algumas 
vacinas nos bebs, consideradas importantes tanto do ponto de vista populacional como individual. So a BCG percutnea ou intradrmica e a 
contra a hepatite B. (Veja mais sobre vacinas na p. 71). 

70




5 
A criana em seu 
terceiro ms de vida 

Quando a criana entra no terceiro ms de vida, ocorrem algumas 
modificaes e introdues so feitas. 

Na higiene alimentar, embora o aleitamento materno exclusivo seja o 
objetivo maior, muitas vezes somos obrigados a introduzir algo mais no 
sentido de corrigir eventuais ocorrncias. Por exemplo, o leite de peito,  
medida que se adapta  criana, vai tornando-se justo para as necessi- 
dades e paulatinamente oferece menos resduos estimulantes da eva- 
cuao. A criana pode tornar-se constipada e passar horas ou dias sem 
evacuar. A constipao intestinal no pode ser tolerada devido ao seu 
carter progressivo e, por isso, costuma-se introduzir sucos de frutas la- 
xantes como os de laranja, mamo ou ameixa preta nos intervalos entre as 
mamadas, embora trabalhos cientficos defendam, e com eles concor- 
damos, sua no introduo precoce em face da possibilidade de desen- 
volver alergias alimentares em funo da mucosa intestinal no ser seleti- 
va ( extremamente absorsiva) nessa faixa etria. 

Vacinas 

Nessa fase  dada sequncia ao esquema de vacinao que faz parte 
da higiene antiinfecciosa. Esse esquema tem sofrido modificaes com o 
tempo e provavelmente as modificaes continuaro, buscando sempre o 
aperfeioamento, obtendo vacinas que consigam o mximo em eficcia 

 71 



Dr. Henrique Klajner 

com doses menores e menor nmero de aplicaes. As doenas infecciosas prevenidas por vacinas at a data de hoje so ttano, difteria e 
coqueluche (componentes da vacina trplice bacteriana), poliomielite 
(vacina Sabin, oral e Salk, injetvel que precedeu a Sabin), tuberculose 
(vacina BCG intradrmica ou percutnea), rubola com caxumba e com 
sarampo (componentes da vacina trplice viral), e as mais recentes, contra 
Haemophilus influenzae B nas sua subespcie invasiva, hepatite por vrus 
tipos B e A e contra a catapora (Varicella zoster). O esquema de vacinao 
 montado com base nas caractersticas individuais de cada vacina que, 
por sua vez, ditam idades, doses e freqncia. 

A importncia das vacinas  enorme. No  necessrio determo-nos 
em grandes explicaes sobre suas vantagens, tanto individuais como 
populacionais, na erradicao de doenas, como j ocorreu com a varola 
e como ocorrer com outras prestes a s-lo, como o sarampo. As vanta- 
gens superam, de longe, as falhas raras ou os raros efeitos colaterais como 
febre, convulses, erupes cutneas, etc. 

As vacinas so importantes, inclusive, porque no terceiro m~s a 
criana comea a ter contato mais ntimo, mais amplo e mais assduo com 

o seu e com outros meios, o que a expe a infectantes mais abundantes e 
freqentes. Alm disso, seu sistema imunolgico j consegue responder 
ao estmulos das vacinas a partir dessa fase. 
O primeiro sorriso 

O primeiro sorriso social aparece no decorrer do terceiro mas de vida quando a criana consegue ver um rosto de perto e quando este muda de fisionomia. Sons, luzes 
ou movimentos provocam respostas como 
grunhidos ou gritinhos, indicando a "disposio" do beb. em j estabele- 
cer maior contato e intercambiar mais com o meio. As respostas que os 
bebs do aos estmulos funcionam como novos estmulos para o meio 
que, por sua vez, se esmera em retribuir, variando-os e desencadeando 
umaascenso vertiginosa nodesenvolvimento dobeb. eno seu envolvi- 
mento com ele. Sabendo que  desse intercmbio constante que depen- 
dem as aquisies em percepo, anlise, conhecimentos, memria, 

72




A auto-estimulao precoce do beb 

treinos motores e sensitivos,  fundamental que se permita  criana re- 
ceber tais estmulos de forma espontnea, fiel  normalidade e responder 
tambm livre e espontaneamente a eles porque, pelas repostas que d,  
que se consegue avaliar o grau de sua percepo, o rumo de suas 
aquisies e ponderar, na eventualidade de retardos ou precocidades, da 
necessidade de tomar providncias corretivas sempre respeitando sua ca- 
pacidade e investigando causas de possveis desvios dessas aquisies e 
de comportamentos. 

A auto-estimulao precoce e o cho 

A melhor maneira de agir para obter uma evoluo geral harmnica, 
sem excessos e sem traumas,  a auto-estimulao precoce j exposta. Em 
tempos passados, devido aos cuidados excessivos que visaram  proteo 
e ao conforto, restringia-se o universo da criana em demasia, o que impedia trocas com seu meio. Naquele tempo se subestimavam suas capaci- 
dades de receber e doar. 

Desde que foi instituda, h cerca de vinte anos, a proposta da autoestimulao precoce causou estranheza devido  posio diametralmente 
oposta  superprotetora vigente. Sua aceitao implicou a mudana radical e imediata dos hbitos e condutas at ento transmitidos s mes de 
gerao em gerao. O uso de cueiros, por exemplo, que restringiam a 
movimentao, assim como a orientao alimentar, obedeciam aos conceitos da poca em que no se levavam em considerao as necessidades 
nutritivas, motoras ou sensoriais da criana nem sua capacidade de 
aceitar aquilo que a me lhe oferecia. Consideravam-se apenas os con- 
ceitos dos profissionais e orientadores, suas condutas "fechadas, indis- 
cutveis e engolidas pelos pais", que as seguiam fielmente. 

O choro era considerado como sofrimento e no como manifestao 
ou comunicao da criana e, por se constituir num sofrimento, deveria 
ser contido a qualquer custo para a criana no sofrer, sem se preocupar 
com sua causa. O sono era uma necessidade imperiosa por acreditar-se 
que  "como alimento"; a criana no deveria ter o sono importunado em 
hiptese nenhuma e por motivo nenhum. O silncio absoluto era impos- 

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Dr. Henrique Klajner 

to e, quando o beb no conseguia conciliar o sono, era embalado no colo ou no bero porque "tinha que dormir". Outras condutas semelhantes 
contribuam para impedir a adaptao da criana ao ambiente, o que 
provocava sua retrao e, por falta de alternativa, sua acomodao, com 
conseqente prejuzo para seu desenvolvimento. Era como se as pessoas 
quisessem evitar que os bebs, "prisioneiros" do tero materno por nove 
meses, tivessem subitamente uma exposio e contato bruscos com o 
meio exterior expondo-se a traumas e prejuzos. 

As pesquisas nas reas mdica e psicopedaggica mostram que as 
crianas, assim que nascem, devem ser postas diante dessa realidade de 
progresso muito rpido como a atual, sob pena de no conseguirem se 
adaptar ao meio nem acompanhar devidamente o progresso. Mesmo 
dentro do tero, o feto j sofre influncias do exterior: fsicas, como variaes de temperatura, balanos, choques, etc.; qumicas ou alrgicas pela 
ingesto de substncias pela me, e tambm emocionais. O prprio par- 
to, normal ou no, solicita esforo da criana e a submete a estresse. Por 
isso, no procede a idia da"preservao do sossego intra-uterino" como 
motivo para isolar os recm-nascidos e bebs da realidade do seu meio. 

Quando a criana, a partir do terceiro ms, seguindo o programa da 
auto-estimulao precoce,  colocada no cho forrado apenas com um fi- 
no edredom ou cobertor (medida de higiene e isolamento trmico), oferece-se a ela o que h de mais basal na natureza (o cho  a base de tudo, 
para todos, em toda a vida, em todos os lugares).  o ponto inicial, o mais 
"baixo" e, do ponto de vista material, psicolgico ou espiritual, a nossa 
evoluo deve comear bem de baixo. E isso vale para qualquer atividade. 
Depois dos dois primeiros meses, durante os quais foram estabelecidos 
contatos e conseguidas adaptaes entre a criana e a famlia, comea-se a 
dar  criana, que j demonstra vontade e capacidade de receber estmu- 
los e a eles responder, oportunidades de iniciar sua escalada de aquisies 
a partir do cho. 

No cho, com a movimentao ampla que possibilita, esto afastados 

riscos de quedas e acidentes espontneos. A dureza do cho provoca des- 

conforto com conseqente procura de mudanas de posies, o que re- 

74




A auto-estimulao precoce do beb 

presenta exerccios musculares constantes e intensivos a possibilitar 
aquisies fsicas progressivas e proporcionais. Permite o desenvolvimen- 
to da audio, e da viso para perto e para longe, pela rotao da cabea 
at cento e oitenta graus, na tentativa de fixar pessoas e objetos que des- 
pertam curiosidade, associada ao interesse em tocar e pegar tudo para co- 
nhecer. Quando consegue os intentos, suas tentativas bem-sucedidas so 
estmulos para novos movimentos. Ao seu redor, objetos e brinquedos de 
texturas e cores diferentes e jogados a dist~ncias variadas so estmulos 
para conquistas imediatas e propulsoras de novas tentatvas e investidas 
para conseguir outros, mais distantes. Os estmulos ambientais mais o es- 
foro prprio se constituem em exerccios para o desenvolvimento tambm dos rgos dos sentidos: o taro, a viso em cores e perspectiva, a 
audio (pelos rudos emitidos pelos objetos manuseados), o olfato e o 
sabor (pelos objetos levados  boca que, nessa fase,  o rgo mais usado 
para reconhecimento de tudo). O cho, pelos motivos expostos, desperta 
a vontade e permite conhecer todo o ambiente com segurana, respeitan- 
do a capacitao progressiva da criana nas sucessivas idades, assim como 
as limitaes suas e as do ambiente. 

Exerccios ininterruptos a princpio limitados e paulatinamente 
estendidos a toda a musculatura e a todo o esqueleto levam a movimen- 
taes cada vez maiores, mais reqentes e mais amplas, delas advindo 
"sucessos" contnuos que promovem a auto-afirmao, o aumento da 
autoconfiana, induzindo a tentativas de criar novas e mais complexas 
situaes, ampliando as oportunidades de auto-realizao e contribuin- 
do, como base slida e importantssima, para o desenvolvimento 
psicolgico e mental. Esse desenvolvimento  paralelo ao fsico-motor e 
abre muito as futuras possibilidades de aquisies intelectuais, principal- 
mente se os circunstantes participarem com idias e propostas leais, 
atitudes coerentes, palavras corretamente pronunciadas, canes, rdio e 
televiso. 

No cho, a criana tem a possibilidade de desenvolver-se sozinha, de 
maneira autnoma, estimulando-se a si mesma, tendo como objetivo 
alcanar o que seu ambiente lhe oferece, obtendo sucesso  sua prpria 

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Dr. Henrique Klajner 

custa, mesmo sem ajuda de terceiros pois, quanto menos ajuda temdos 
circunstantes, tanto maiores so seus sucessos e auto-satisfao, alimen- 
tando o prprio ego. A auto-suficincia experimentada e conseguida 
tende ase manter para sempre, inclusive contribuindo para a autocon- 
fiana, se forem mantidas as condies de auto-estimulao. Instala-se 
uma indescritvel tranqilidade na criana por no necessitar de outras 
pessoas para suas conquistas e porque essa atividade "liberada" a far 
gastar energia que de outra forma nela se acumularia, causando ansiedade. Autoconfiana, auto-satisfao, auto-realizao trazem alegria e 
auto-estima e so expresso de amor-prprio. 

O cho inviabiliza a oferta em excesso de colo e de outras condutas 
irregulares e evita, assim, os condicionamentos desnecessrios e prejudi- 
ciais j comentados. Em conseqncia, os familiares, contentes e satisfeitos por verem a criana evoluir de maneira mais satisfatria do que 
esperavam e com o mnimo de esforos, tranqilizam-se tambm com a 
certeza de que a continuao da auto-estimulao precoce  benfica para 
todos. 

Por tudo o que foi descrito, o cho passa a ser o lugar preferido do be- 
b para suas atividades e ele reclama quando no o tem. Prefere ficar nele 
tempo cada vez maior,  medida que a necessidade de sono vai normal- 
mente diminuindo e  movido pelo interesse em evoluir cada vez mais. 
Comea a gostar tanto do cho que no aceita dele sair a no ser para sa- 
tisfazer necessidades imperiosas como sono, fome ou higiene fsica. 

O cho abre-lhe os horizontes e lhe d a intuio da possibilidade de 
uma evoluo infinita, que comea com movimentos simples como o de 
braos e pernas, os oculares, o de rotao da cabea, da boca, das plpe- 
bras, para culminar na aquisio de novos e mais complexos movimen- 
tos, impulsionado pela curiosidade e pela vontade crescente de aprender 
e exercitada pelo treino contnuo. A aquisio motora segue paralela- 
mente a da senso-percepo e juntas provocam uma reao em cadeia, 
progressiva, estimulando-se mutuamente, incluindo aquisies na esfera 
psicolgica e levando o beb  rpida adaptao e participao no am- 
biente, recebendo e oferecendo. A conseqncia lgica e prevsivel  a 
abertura ampla do ngulo da evoluo, facilitando, inclusive, adaptaes 

76 



A auto-estimulao precoce do beb 

sucessivas a diferentes ambientes aos quais a criana for submetida pelo 
resto da vida. Dar valor ao que conquista porque ser por esforo 
prprio, no conhecer superproteo, acostumar-se- aos limites que for 
aos poucos conhecendo, com as dificuldades normais de cada aquisio. 
Por isso ser aceita, assumir suas posies, resolver seus problemas, ajudar na resoluo dos de outros conforme sua capacidade. Acostumada s 
conquistas pela persistncia, ser persistente em tentativas sucessivas at 
conseguir por si s seus objetivos e ter discernimento bastante para iden- 
tificar momentos em que necessite de ajuda, com espontaneidade para 
pedi-la a quem mais indicado for e com humildade suficiente para aceit- 
la sem restries ou inibies. Ficar satisfeita consigo mesma e cheia de 
auto-estima. 

No cho, a criana comea a virar-se, rolar, chegar a lugares distantes, 
sentindo o ambiente ficar "cada vez menor". Estabelece contato com pes- 
soas e objetos, amplia a "cultura", passa a conhecer texturas, sabores, pe- 
sos. A possibilidade de conhecer tudo pela boca, seu rgo de relao mais 
desenvolvido, permite que inicie o aprendizado e  quando os circuns- 
tantes devem ficar atentos aos perigos de objetos contundentes, cortantes 
ou txicos de modo a impedir seu contato com o beb. 

O ambiente nunca deve ser esvaziado. A criana deve ser exaustiva- 
mente ensinada a tocar ou manipular somente o que for permitido, que 
no oferecer riscos de agredi-la ou agredir a terceiros ou causar danos ma- 
teriais. Com esses ensinamentos se inicia o estabelecimento dos limites, 
ao mesmo tempo que, no escondendo ou impedindo o contato com elementos do meio ambiente, evita-se despertar maior curiosidade e an- 
siedade por esconder "frutos proibidos". 

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Dr. Henrique Klajner 

Os limites 

A auto-estimulao d  criana a sensao de que temos como objetivo lhe oferecer oportunidades para aquisies amplas e ilimitadas. Os pe- 
quenos limites iniciais relativos s primeiras aquisies incentivadoras 
do-lheaidia,quando superados, deque capaz detudo fazer e,pelofato 
de conseguir, poder continuar a ter tudo o que desejar. Por isso, ela se re- 
cusa a aceitar os limites impostos quando, j maior, tenta pegar ou conseguir algo proibido pelo seu meio ambiente. Ela continua querendo satisfazer curiosidades, 
aprender os aspectos de tudo, inclusive experimentar 
comportamentos, quer pegar e experimentar tudo, sem ainda conhecer os 
riscos que possa correr ou os benefcios que possa ter.  fundamental, 
atravs de permisses ou proibies, ensinar-lhe o que pode dispor de seu 
meio. O ensino honesto e sincero leva ao conhecimento do que pode e, 
principalmente, do que no pode, conferindo-lhe tranqilidade pela 
aceitao que passa a ter quando se comporta de acordo com o modelo fa- 
miliar. A insistncia em exigir o proibido  uma forma da criana testar as 
reaes dos circunstantes, pretendendo com isso, inconscientemente, 
aprender o que acontece quando insiste para aprender exatamente ase 
comportar de acordo com o esperado e ser bem aceita pelo meio. 

Na maioria das vezes a tentao dos circunstantes em burlar a "cons- 
tituio" familiar, a sinceridade e a honestidade, em ceder e abrir excees 
 enorme. Insistimos sempre em que nunca uma regra deve ser "afiouxada" circunstancialmente, apenas para"quebrar o galho" do momento, 
sem um motivo muito importante. Proibies e exigncias devem ser 
mantidas apesar da possvel teimosia, insistncia, choro ou at agresses 
por parte da criana para que aprenda que, apesar de tudo, a lei na casa  
a lei dos pais. ~ uma forma de aprendizado desde o comeo da vida, uma 
vez que punies existem durante a vida toda por erros, deslizes, insubor- 
dinaes, negligncias e so regidas por leis. Se, desde cedo, a criana sou- 
ber da existncia de limites e punies quando no os respeita, evoluir 
tomando as devidas precaues, procurando pelos limites em qualquer 
de suas aes, conseguindo identific-los, localiz-los e dimension-los 
com antecedncia suficientepara no passar por sofrimentos ou punies 
posteriores. 

78 



A auto-estimulao precoce do beb 

No  s de proibies que a educao das crianas deve se valer. Pelo 
contrrio, elas necessitam muito mais de aprovaes e permisses. A 
criana entende naturalmente que h permisso quando simplesmente 
no h nenhuma proibio; a permisso das atividades no necessita ser 
obrigatoriamente enfatizada com palavras como "isto pode.." porque a 
"permisso enfatizada" cria a idia de que ela deve sempre aguardar uma 
autorizao expressa para sua ao, o que prejudica sobremaneira a 
espontaneidade, a iniciativa e a liberdade para se auto-estimular. Deve ser 
passada  criana a noo de que permisso e aprovaao so rotinas normais e as proibies, os limites, embora faam parte da mesma rotina, so 
excepcionais. 

Enquanto a criana  pequena e no tem ainda a capacidade de se comunicar verbalmente, a proibio de uma atitude deve ser sempre feita 
dizendo-se firmemente um "no" acompanhado de fisionomia sria ou 
at mesmo brava, demonstrando o desagrado provocado pela referida ati- 
tude, mas sem provocar temores que poderiam despertar futuras inibies oufobias. Ammica deum rostobravo ousrio associada ao "no" 
condiciona rapidamente a criana a aceitar a palavra "no" como "sinni- 
mo" de desagrado e proibio. Depois de trs ou quatro vezes em que for 
usado, um "no  dito simplesmente, mesmo sem a mmica, passa a ser 
suficiente para que seja entendida a ordem dos pais. 

Do mesmo modo, o sorriso associado ao "sim  condiciona-a  
aprovao. A manuteno honesta desse procedimento de maneira cons- 
tante --a diferenciao entre o "sim" e o "no" w, leva a criana ao 
condicionamento sadio pela adaptao e obedincia ao meio, evitando 
desentendimentos e traumas com possveis repercusses futuras. 

O uso da palavra "no" com crianas sempre gera polmicas. H cor- 
rentes psicolgicas que julgam ser traumatizante falar-se "no" prematu- 
ramente. Discordamos e achamos que, sendo uma palavra que pertence 
ao vocabulrio, das mais ditas e ouvidas em toda a vida e s no usada 
quando existe obedincia s regras, sua introduo precoce  benfica 
porque vai habituando a criana  sua existncia, e seu uso desde cedo evita "choques" futuros quando algum dia fatalmente for dita por algum. 
Ao enfrentar uma proibio, quando nunca ouviu um "no ,a criana es- 
tranha e se traumatiza com a sbita "novidade" cerceante a solicitar uma 

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Dr. Henrique Klajner 

reao indita e ainda desconhecida, e sem antes ter tido dela prvio co- 
nhecimento mais o devido preparo. A introduo pautatina e precoce do 
"no" e do "sim" faz com que a criana se habitue a diferentes situaes, 
aprenda a lidar com elas gradualmente, adapte-se a elas em suas progres- 
sivas complexidades, alcanando, ao mesmo tempo, o aprendizado e 
evoluo que valorizam tanto o "sim" como o "no", conforme a exigncia 
do meio em cada circunstncia, evitando traumas em fases futuras. 

Do mesmo modo que a auto-estimulao precoce confere  criana 
um desenvolvimento pleno, rpido e em ngulo infinitamente aberto, os 
limites tambm vo sendo adquiridos plenamente e com rapidez.  inte- 
ressante notar que a auto-estimulao confere capacidade de aprender 
tudo, inclusive os limites, permitindo adaptao suave e harmoniosa ao 
meio e fazendo a criana entender que h liberdade para tudo, desde que 
no se cometam excessos que ferem os interesses de terceiros. Ela tem no 
lar, sua minissociedade, o treino para ingressar depois no amplo meio 
social, projetando para esse meio, e por toda vida, os sucessos e a auto- 
estima adquiridos na famlia, culminando na to almejada felicidade, 

Tudo isso vale para todas as crianas normais e tambm para as que 
apresentam retardos de aquisio ou de maturao porque a auto-esti- 
mulao precoce, assim como a estimulao teraputica, so indicadas 
para acelerar o desenvolvimento. 

A auto-estimulao precoce, incluindo a determinao de limites, 
evita os dois extremos indesejveis: superproteo e abandono. Com ela, 
os pais e familiares, acompanhando o desenvolvimento sadio da criana e 
com muito "menos trabalho", sentem-se satisfeitos, felizes, recompensa- 
dos, tm sua auto-estima incrementada ao ver a auto-estima da criana 
tambm aumentar, e todos com plenas condies de expressar amor mtuo emaximizado. Vocs jimaginaram que mundo lindo teramos seto- 
das as famlias fossem felizes, com filhos aptos e adaptados? 

O estabelecimento de limites  uma tarefa das mais difceis e  quan- 
do os pais comeam a dar os primeiros passos em falso. Mesmo imbuidos 
da idia de que tudo o que expusemos  vlido, na hora em que um "no" 
deve ser dito e feito valer, vem-se na contingncia da clebre disputa que 
devem travar com o "sim" enfatizado pela criana. O firme propsito de 
conseguir valer o "no" enfrenta, ento, a insistncia de um "sim ,peculiar 

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A auto-estimulao precoce do beb 

de quem foi devidamente auto-estimulado para tudo, inclusive para 
enfrentar os "nos" dos pais. Movidos pelo desejo de no polemizar (pe- 
los mais variados motivos), os pais so tentados a ceder  criana dizendo: 
"s desta vez, na prxima no mais permitirei", ou ento "no consigo 
ouvir o choro e o sofrimento do meu filho". Se, pela "constituio" fami- 
liar, aquele "no" deve ser imposto, ele realmente dever ser a ltima 
palavra, quaisquer que sejam as conseqncias no momento. O "no" 
deve ser incisivo, dito seriamente, sem sorriso ou chacota, com fisionomia 
fechada em tom que no admite recuos, at que a criana se convena da 
ordem dada e desista do intento de impor o seu "sim". 

O choro e a manha 

A auto-estimulao precoce leva a criana a um desenvolvimento 
rpido, com enorme capacidade de solicitar cada vez mais, e mais 
racionalmente, aquilo que necessita do ambiente. Essas solicitaes po- 
dem ou no, devem ou no ser atendidas. A famlia raras vezes considera, 
ou quase sempre esquece, o fato de que ela mesma comea a ser progres- 
sivamente mais conhecida pela criana e identificada como seu ambiente 
e participante de sua vida. Raramente se lembram que devem interagir 
com ela, faz-la entrar em contato com todas as realidades familiares, com 
ela intercambiar informaes e, quando pequena, manipular objetos 
proibidos naquele momento para ela. Mas nunca devem atend-la em 
suas solicitaes ou exigncias, em toda e qualquer circunstncia, apenas 
com o objetivo de evitar que "sofra" ou que todos passem por situaes 
constrangedoras. Se o fizerem, abrem excees s regras, o que a criana 
procurar conservar. Sobrevm da uma sucesso interminvel de "nos" 
impostos pelos pais em ocasies sucessivas, com freqentes e inevitveis 
atritos do "no versus sim, insistncia e choro". O corao dos circuns- 
tantes comea a fraquejar, passa a oscilar entre o "sim" e o "no", a vacilar, 
e muitas vezes comeam a ceder pela persistncia da criana, mesmo em 
ocasies semelhantes a outras anteriores nas quais fizeram valer o "no . 
Quando a criana percebe que pode conseguir vencer  custa de choro e 
manha, incorpora-os ao seu comportamento como verdades absolutas e 
comea a us-los como "poderosas armas" para conseguir seus intentos. 

81 



Dr. Henrique Klajner 

Usa-os mesmo que sofram prejuzos, desde que lhe dem, no momento, a 
falsa sensao de vitria, auto-realizao e auto-afirmao. Incorporados, 

o choro e a manha passam a fazer parte da sua rotina como nova 
aquisio e se mantidos, so continuamente aperfeioados. Em todas as 
disputas com os pais, pela enorme motivao que tem para as conquistas 
imediatas, a criana habituada a vencer passa a usar artifcios manhosos, 
inclusive imitar as prprias caras feias e o prprio "no  que as pessoas 
fazem quando tentam intimid-la. 
Quando derrotada, apela para o choro ou berro como manifestao 
de frustrao, pois o choro sempre comove os pais. Quando afetados cor- 
rem o risco de se ver novamente tentados a ceder e evitar tal "sofrimento . 
Se isso acontece, o choro depois da manha passa a ser a grande arma forte, 
a ser usada com intensidade e freqncia cada vez maiores numa sucesso 
de episdios iguais. Os pais chegam ao desespero. O desespero faz com 
que se irritem, percam a pacincia e punam a criana com castigos fsicos. 
Para ns, a punio fsica  o fim da linha porque esse tipo de castigo 
tende a ser usado com freqncia cada vez maior e a ser mais tolerado pela 
criana. Se o processo continua, o que  muito freqente, a criana desen- 
volve tolerncia progressiva ao castigo fsico, e at "satisfao" em apanhar 
porque, atravs dele, consegue pelo menos atrair a ateno dos pais e 
circunstantes. O fenmeno de apreciar o castigo fsico  conhecido como 
pseudomasoquismo infantil e pode se constituir no comeo do masoquismo em alguma fase posterior. 

Esse condicionamento indesejvel pode ser perfeitamente evitado se 
os primeiros "nos"  forem impostos de maneira veemente. O passar do 
tempo e a sucesso dos fatos levam a criana a aprender que os "nos" recebidos nem sempre objetivam proibies tolas ou inoportunas e sim, na 
maior parte das vezes, acertos indiscutveis por parte dos pais. 

O interessante  que, at aprender e incorporar a noo de 
proibies, a criana continua a repetir os atos que a motivou, e  exata- 
mente essa repetio seguida das respectivas negativas que a leva ao 
aprendizado. A satisfao e a auto-estima sobrevm quando, num dado 
momento, ela se torna capaz de antecipar a futura reao "sim" ou "no", 
executar exatamente o esperado pelos circunstantes e ser alvo de 
aprovao do meio ambiente. Isso sela sua convico de que o aprendiza- 

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A auto-estimulaco precoce do beb 

do  a forma de ser vitoriosa. Na realidade, achamos que, na maior parte 
dos episdios, a criana pode at no estar interessada na execuo estri- 
ta do ato em si, mas nas respostas ambientais e do que advm dessas res- 
postas em relao ao ato praticado, o "sim" ou o "no", assim como os 
fenmenos que seguem  sua obedincia ou desobedincia. De acordo 
com o bom senso dos pais e o grau de desenvolvimento dos filhos, muitos 
"nos" podero, no futuro, se tornar "sins", dando  criana a noo de 
que proibies ou permisses podem ser temporrias e se transformar 
umas nas outras, quando ela se capacita para execut-las. 

Se o "no" dito pelos pais no for aceito, a criana pode reagir com 
choro, uma das suas inmeras opes de reao. Para sucesso do ensina- 
mento, o choro deve ser encarado como comunicao normal, aceito com 
indiferena o que, alis, deve ser uma constante sempre que ela reagir de 
maneira contrria s intenes dos progenitores. Acarinhar ou repreen- 
der, a fim de evitar o choro ou fazer com que cesse, induz  crena de que 
ele  uma forma de chamar a ateno e torn-la centro das atenes e, 
assim, sentir-se segura. 

Insisto:  apenas nesse incio de vida e at os dois anos e meio de 
idade que h necessidade da imposio veemente, honesta, criteriosa e 
constante dos "sins" e dos"nos". A partir de ento, a criana j bem adap- 
tada ao ambiente sabe, com detalhes, o que dele pode esperar e, mais im- 
portante, sabe exatamente o que o seu meio espera dela. 

As aquisies e o desenvolvimento da criana se processam de acor- 
do com o que lhe  oferecido, tendo como base a auto-estimulao, os li- 
mites apresentados e exigidos, e isso vale para todos os aspectos da 
educao. Ela aprende e se habitua a comer normalmente, obedecendo s 
suas reais necessidades alimentares (isto , realmente, "comer bem"!) e 
desenvolve esse hbito sadiamente; estimula-se atravs de suas conquistas 
progressivas para outras novas com excelente "preparo fsico", devido aos 
movimentos cada vez mais complexos executados e provocados pela au- 
to-estimulao; aceita naturalmente a introduo de alimentos novos 
aps os experimentar e cada aquisio abre possibilidades para outras no- 
vas; o desenvolvimento da musculatura da boca adquire uma normalidade absurda e alcana sua capacidade mxima. O sono fica ritmado 
pelos hbitos introduzidos pela famlia. Mudanas transitrias ou defini- 

83




Dr. Henrique Klajner 

tivas do sono no que se refere a horrio, durao, local, etc. tornam-se 
facilmente aceitas. O mesmo acontece no tocante  higene fsica, mental 
e outros. 

Se o cho  eleito local permanente para a criana ficar a partir dos 
dois meses de idade, nele a criana se auto-estimula, as atividades fsicas e 
mentais crescem e se tornam progressivamente maiores, levam-na a um 
gasto energtico bem maior (do que se ela no ficar no cho)responsvel 
por maior consumo alimentar e maior cansao, os dois indutores de melhor nutrio, melhor condicionamento fsico e melhor sono fisiolgico. 
O bem-estar resultante para a criana  enorme inclusive porque regu- 
lariza o funcionamento de rgos e sistemas aut6nomos. A mico e as 
evacuaes tornam-se normais, ritmadas, ciclicas e bem adaptadas ao 
meio ambiente. 

Tudo o que foi descrito, quando feito com amor, honestidade e cons- 
tncia traz, como resultado final, uma criana com personalidade firme, 
amante do seu meio ambiente, com discernimento e principalmente con- 
fiante em si prpria. 

84




6
A partir do quarto
ms de idade


Os trs primeiros meses da vida do beb so os mais importantes e os 
cuidados dispensados nesse perodo se constituem no ponto de partida 
para o sucesso e evoluo de toda a famlia. Os avanos cientficos e 
tecnolgicos tm dado condies de cuidar cada vez melhor das crianas. 
"Cuidar melhor" significa dar-lhes condies de se adequarem s rpidas 
mudanas dos costumes nos dias modernos. No basta procurar adaptar 
os cuidados com os filhos apenas s mudanas j conhecidas, passadas, o 
que seria o mnimo desejvel, mas, principalmente, fazer com que tais 
cuidados possam ter mecanismos de adaptao s mudanas futuras, 
sucessivas, e que possam ser acionados sempre que o tempo e o espao 
assim solicitarem ou exigirem. 

O objetivo  que cheguem  fase adulta tendo cristalizado e incorpo- 
rado s suas personalidades as to almejadas auto-satisfao, auto-estima 
e auto-aceitao, com caminho aberto para a evoluo o mais satisfatria 
possvel e cheia de realizao. 

A partir do quarto m.sde idade, se adotadas as condutas expostas at 
aqui, qualquer orientao, inclusive eventuais mudanas, ser normalmente bem aceita pelo beb em virtude da perfeita adaptao e confiana 
que ter desenvolvido no seu meio devido  atuao honesta dos seus 
circunstantes. 

85 



Dr. Henrique Klajner 

Em todos esses anos lidando com crianas, vimos que as condutas de 
atuao alimentar, mental, fsica, de sono, de escolaridade, de sociabi- 
lidade sofreram mudanas. As mudanas certamente continuaro com os 
avanos cientficos e tecnolgicos. Ns as acompanharemos, analisare- 
mos, avaliaremos e seguiremos sempre respeitando sua importncia e 
concluindo sobre sua validade. Porm, o que queremos deixar bem claro 
 que a grande maioria dessas mudanas costuma incidir a partir do quar- 
to ms de vida e no vale a pena expor e comentar aqui o que se faz atualmente. Quando este trabalho estiver sendo lido, possivelmente muita 
coisa j ter mudado, principalmente nas reas no atinentes  higiene 
mental, de tal forma que deixarei a cargo dos profissionais diretamente li- 
gados s famlias darem sua prpria orientao. O importante no  dar 
"dicas" sobre como dar banhos, como alimentar ou preparar alimentos, 
fixar horrios, etc., embora isso tambm seja de suma importncia, mas 
as orientaes dependero, alm da poca em que estiverem sendo intro- 
duzidas, da escola peditrica seguida, do local (cidade e pas), do tipo de 
cultura da famlia (costumes, religio, e outras variantes). Julgamos mais 
importante analisar a maneira como a famlia e a criana podem se adap- 
tar s orientaes e suas variaes, ajudar no seu julgamento, aceitao e, 
em qualquer situao, conduzi-la um convvio familiar e social to mais 
satisfatrio, harmonioso e no-traumtico quanto possvel. 

A maioria das crianas costuma ser acompanhada por um pediatra 
escolhido pela famlia at a idade em que se julgar oportuno. A famlia 
deve ter a liberdade de acionar o pediatra sempre que sentir necessidade. 
Como podemos ns, pediatras, julgar e avaliar o que ocorre com a criana e com sua famlia se no tivermos oportunidade de tomar o devido conhecimento? Alm disso, 
esperar demasiadamente para resolver problemas gera sempre ansiedade e angstia na famlia, inevitavelmente 
passadas  criana em propores bem maiores. Portanto, quanto mais 
rapidamente o pediatra for contatado, mesmo que seja por telefone, melhor para ele, para a criana e para a famlia. Os contatos liberados junta- 
mente com a resoluo dos problemas e o esclarecimento das dvidas es- 
tabelecem um elo firme de amizade, com confiana mtua entre todos 
porque tranqilizam a famlia, a criana e o profissional. 

86 



A auto-estimulao precoce do beb 

Para que possa orientar corretamente, o profissional tambm precisa 
confiar na famlia no que diz respeito  obteno de informaes corretas 
e seguras. Nunca esquea que a ansiedade  o maior inimigo da tima as- 
sistncia global  criana. 

De qualquer modo, o bom relacionamento permite ao pediatra pas- 
sar novidades  famlia e controlar convenientemente a evoluo da crian- 
a nas suas vrias fases. O mais difcil  a famlia executar tudo o que lhe  
passado, principalmente no tocante s atualizaes porque estas envolvem mudanas de conceitos, comportamentos e condutas que no 
raramente se chocam com o que os familiares entendem como correto e 
que j pode estar superado. Esse confronto cria, muitas vezes, situaes 
por demais desagradveis e incmodas, atritos e at desavenas em vrios 
nveis do relacionamento familiar e social que envolve a criana. Todos fa- 
miliares tm,  claro, muito interesse em dar o melhor s crianas mas, de- 
vido s rpidas transformaes nos modos de vida, e por eles no estafem 
obrigatoriamente atualizados, tm dificuldade em acompanh-las e tambm de concordar entre si. Da a importncia da participao constante 
dos profissionais. 

A participao do profissional peditrico na orientao dos pais deve 
comear pela maneira como devem conduzir seu lar. A melhor maneira, 
na nossa opinio,  o estabelecimento de normas para o seu funciona- 

mento. 
Tudo comea com a adoo da "constituio" do lar. 

87




7 
Estabelecimento da
"constituio" do lar


A passagem da vida intra para a extra-uterina solicita do beb es- 
foros enormes para sobreviver. Fora do tero, no ambiente novo, ele no 
 mais "servido em tudo". Embora suas necessidades ainda sejam peque- 
nas, continua muito incapaz e, por isso, precisa de ajuda. Solicita a parti- 
cipao ativa e consciente dos circunstantes pois foi cortado bruscamente 

o cordo umbilical atravs do qual contava com a ajuda automtica da 
me. Como a todo recm-chegado, deve lhe ser apresentado o ambiente e 
mostrado tudo o que nele tem  disposio, como e quando pode 
usufruir, o que o ambiente espera dele em matria de compreenso, 
aceitao e tolerncia, para que todos tenham oportunidades de adaptao recproca, progressiva e evolutiva. Tudo deve ser feito dentro da pura, simples e mxima 
honestidade, procurando passar  criana o que de 
fato existe para ser mantido. 
A criana  um ser em eterno desenvolvimento. A partir das suas 
primeiras necessidades, como as nutricionais, ela marcha constantemen- 
te, em todas fases,  procura da sua auto-realizao e auto-estima e, para 
isso, usa o ambiente como primeira alavanca, e as conquistas sucessivas 
como embasamento constante. A procura por novas conquistas e 
aquisies  permanente e contnua; o seu alcance  gradual, s vezes mais 
lento, outras vezes mais rpido, e depende das pretenses de cada pessoa 
e das facilidades ou dificuldades encontradas no percurso. 

Os valores do ambiente familiar devem ser apresentados gradativa- 

88




A auto-estimulao precoce do beb 

mente a elas, num ritmo que lhes permita absorv-los paulatinamente, 
com oportunidade de aprender e incorpor-los, adaptar-se aos hbitos, 
formar sua realidade e ter os pais como modelo. A capacidade e a nsia 
que todas crianas tm para com o aprendizado em geral so enormes. 

O que chamamos de "constituio" familiar  a "Carta Magna" que 
apresenta a todos, familiares ou no, e principalmente  criana, as 
"leis'que regem o ambiente: permisses, proibies, horrios, refeies, 
tudo o que  ou no tolerado, o que deve ou no ser punido ou premiado, 
tipos de premiao, punio, etc. Ao chegar, a criana deve ser considera- 
da algum que pretende morar num pas estranho. A primeira coisa a fa- 
zer  inteir-la das leis, dos costumes dos habitantes, moeda, horrios, 
rgos pblicos e suas atribuies, etc. 

O aprendizado das crianas, no incio, se faz atravs de condiciona- 
mento, pela repetio do mesmo estmulo vrias vezes. Propondo-se algo 
repetitivamente ao beb, ele o aceita e incorpora ao seu arsenal de conhe- 
cimentos e aos seus hbitos, passa a t-lo como vlido e extremamente 
confivel por ter sido proposto pelo seu ambiente e, por isso, serve como 
"modelo  para toda a vida, se no for posteriormente modificado por 

.outro condicionamento. Por esse motivo, devem ser passados a ele so- 
mente ensinamentos autnticos do seu meio, no os simplesmente copia- 
dos de outros ambientes, e estranhos, porque correm o risco de no 
poderem ser mantidos por no virem de encontro ao que os pais desejam. 
Dependendo da idade da criana, a modificao pode ser difcil e muito 
trabalhosa. A entra outra lei, a da autenticidade, da sinceridade e da ho- 
nestidade dos pais na adoo de condutas e na educao dos filhos desde 
que nascem; nunca ensinar algo que no lhes seja prprio porque esse 
ensino soa como mentira e a mentira no alimenta a confiana. No podendo confiar, as crianas tornam-se inseguras e ansiosas porque so exa- 
tamente os pais seus verdadeiros "suportes". 

 muito comum ouvir dos pais: "minha inteno  dar aos meus filhos tudo o que eu no tive". A primeira crtica que se faz a essas palavras 
 relativa a quando e ao modo pelo qual pretendem praticar essa "doao". 
Como pode algum dar a outrem algo que nunca teve e que nunca viven- 
ciou? Mesmo se houver possibilidades materiais ou econmicas para rea

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Dr. Henrique Klajner 

lizar o intento, mesmo que a doao no seja apenas material, o ato no 
ser adequado para a criana porque o que ela mais precisa e deseja 
aprender ou receber  o que h de real no seu modelo familiar. Esse "... tudo o que eu no tive" pode ser um "tudo" de qualquer natureza, mas os 
pais devem antes fazer para si prprios algumas perguntas: o que eu estou 
querendo dar  realmente meu, o que aprendi, testei e apliquei em 
ocasies adequadas e com sucesso? Isso  realmente importante para o 
meu filho, agora? Na ordem de prioridades da minha famlia, ocupa um 
dos primeiros lugares? Qual  o momento exato para faz-lo? Quais im- 
plicaes, resultados e conseqncias o meu ato tem ou ter num futuro 
breve ou remoto? Essa minha conduta levar a seqncias comportamen- 
tais que, se permanentes, poderei manter ou suportar? Em caso de erro de 
minha parte, quais as possibilidades e quais os caminhos que terei de 
tomar para corrigi-lo? Saberei faz-lo? Em caso de prejuizos, terei como 
assumi-los? Terei, por mnima que seja, humildade para pedir desculpas 
ao meu filho pelo erro que terei cometido? Poderei suportar crticas de 
terceiros a ele? 

Temos outra lei para a "constituio": nunca passar aos filhos o que 

ainda for desconhecido e no vivenciado pelos pais. 

Ainda o choro 

Outra lei bsica da "constituio" familiar: nunca condicionar a 
criana a condutas que no podero ser mantidas porque descondicion- 
las e reintroduzir novo condicionamento  tarefa das mais diflceis e de 
muito esforo, pacincia e abnegao. Um exemplo tpico e muito freqente  o caso de pais que no suportam o choro do beb e tentam de 
vrios modos mant-lo calado sem antes saber por que chora. Pegam-no 
ao colo, balanam-no no colo ou no bero ou no carrinho, ninam, embalam, etc. Essa conduta  pssima porque o beb sente que os circuns- 
tantes no esto interessados na resoluo dos seus problemas reais, seja a 
fome, dor ou simplesmente, o que  muito mais freqente do que se pode 
imaginar, uma enorme vontade de dormir. Mas como pode o beb con- 
seguir dormir com atitudes que no o deixam tranqilo? O beb sente-se, 
assim, "enganado", a causa original do choro associa-se a uma revolta 

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A auto-estimulao precoce do beb 

muitojustificada, eleentra fatalmente numa crisede excitao da qual somente sai se for deixado no bero, sozinho ase embalar com o prprio 
choro que acaba por cans-lo e conduzi-lo ao sono repousante. Alm do 
mais, calar obeb no resolve o problemaque originou ochoro, que pode 
recomear ao acordar sem t-lo resolvido. 

A repetio desses episdios condiciona e incorpora, ao comportamento do beb, a atitude dos pais em tentar cal-lo sem atinar com a 
causa, atitude que passa a ser reclamada a partir de ento, mesmo que no 
haja motivos importantes para chorar. 

 claro que os pais suportam esse tipo de "maratona" por algum tem- 
po; quando quiserem parar, devero descondicionar o hbito criado. Para 
tanto, no h outra sada: deixar a criana chorar por alguns dias at que 
ela perceba que os "costumes" mudaram e cesse o choro espontanea- 
mente. Tero eles pacincia, "nervos" e capacidade para ouvir tanto cho- 
ro? Essa pergunta deve ser feita por todos antes detomar qualquer atitude 
que os possa levar a situaes como a descrita. 

Quando a famlia cansa, tenta parar com as condutas tomadas, mas, 
acriana j habituada aelas,lana mo de tudo aoseu alcance para mant-las, seja devido ao prazer que sente pela pseudovalorizao que a atitude lhe traz, seja apenas 
pelo hbito, mesmo que a levem ao desconforto 
(ter sono e ser impedida de dormir, calor excessivo quando no colo, etc.). 
Comea resmungando, chora, berra e aumenta a intensidade e durao 
do berro  medida que os pais tentam resistir. Se consentirem em satis- 
faz-laantesua forte insistncia, "ensinando-a" acontinuar chorando cada vez mais porque, no final, acaba "conseguindo seu intento", ela entra 
no crculo vicioso choro-ateno, situao terrvel e de grande tenso para 
ela e para os pais. Esse crculo a leva a vcios de comportamento, resulta- 
do da insegurana que o suprfluo lhe transmitiu e que tanto a satisfez e 
do qual j no pode prescindir. Cria-se ento entre todos uma tenso que 
chega, no raras vezes, a provocar agresses entre o pai e a me, entre eles 
e os familiares, at a agresses fsicas  criana, sem antes tax-la de chata, 
nervosa e mal-educada. A queixa principal, quando a levam ao mdico,  
a de que "...ela deve ter algum problema muito srio porque no dorme, 
no come, no fica nem um minuto sozinha, adormece s nos braos, s 

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Dr. Henrique Klajner 

come com outras pessoas, etc.",esquecendo que tudo comeou com um 
procedimento errado ao instituir condutas suprfluas, desnecessrias, 
que no poderiam ser mantidas. 

Para reverter a situao, instituda sabendo que no poderia ser mantida, a nica alternativa  parar com os "mimos,agentar os resmungos, 
choros e gritos da criana (que, inclusive, so a vlvula benfica de escape 
de toda energia e angstia represadas durante todo o perodo em que foi 
frustrada pela conduta superprotetora que recebeu e que impediram sua 
auto-realizao e auto-estima) em todos os episdios e pelo tempo que 
for necessrio, at que, vencida pelo cansao, ceda s mudanas desejadas 
e se habitue a aquietar-se sozinha. 

Os pais devem ficar atentos e no incorrer em outros tipos de procedimentos inadequados que substituam os subtrados e mantenham o 
comportamento anmalo da criana. Depois de algumas vezes, a criana 
deixa de "investir nesse choro no lucrativo"  , entende que as regras da sua 
vida mudaram e, levada pelo instinto de sobrevivncia num meio do qual 
 dependente, comea a acatar todas novas condutas que se lhe apresen- 
tam, aprende-as, incorpora-as  sua memria e com elas continua a con- 
viver, tendo-as comoplenamente vlidas eimportantes. Passaa sentir, depois dos "escndalos ,um enorme alvio e que esses valeram muito para 
que pudesse conseguir auto-estima atravs dos prprios esforos dispendidos durante o perodo de adaptao s novas regras. Desenvolve, 
conseqentemente, autoconfiana, aceita os pais como seus benfeitores 
apesar do sofrimento por que passou (para "tratar doenas", aplicam-se, 
s vezes, remdios muito desagradveis) e,para admirao geral,cresce ao 
mximo seu amor e respeito pelos circunstantes e destes por ela. 

Como j tivemos oportunidade de dizer, as dependncias afetivas ou 
no que comeam em tenra idade atravs dos "mimos" podem ser causa 
de dependncias em adolescentes e adultos devido  superproteo que 
conferem, principalmente s drogas, passando, durante a vida, por outras 
peculiares a cada idade. A superproteo das crianas, ao mesmo tempo 
que habitua a tudo ter sem nada fazer para conseguir, impede que, exata- 
mente por nada fazer, exercite a capacidade para resolver seus prprios 
problemas. Por exemplo, na escola poder depender de algum colega para 

92 



A auto-estimulao precoce do beb 

um bom desempenho; no convvio social, de um amigo ou amiga para 
boa integrao; poder ter dificuldades para relacionar-se, na adolescn- 
cia, com o sexo oposto, ou at com o cnjuge quando adulto, ou, ainda, 
no trabalho ou at depois com os filhos. Temos, portanto, a obrigao de 
evitar todos os problemas futuros que pudermos, j a partir dos primeiros 
dias de vida da criana, evitando introduzir ou manter condutas de mimos e superproteo. 

As excees 

Outra grande dificuldade dos pais , uma vez constituidas as leis 
familiares, serem fiis e terem disposio de mant-las vigentes e 
mutveis. Por motivos variados, condutas so tomadas aleatoriamente em 
inmeras oportunidades, tendo como base disposies de momento ditadas por sentimentos circunstanciais e no pelo raciocnio. Abrem 
excees inexplicveis s regras, mostrando  criana que a lei existe mas 
 flexvel e que, dependendo da ocasio, pode ou no ser respeitada e aplicada. Do-lhe ensejo de aprender como dribl-la. 

A manuteno de excees pe em descrdito a regra, que passa a 
no ser respeitada pela criana; esta assume um comportamento contrrio, criando dificuldades e condies que muitas vezes levam os pais a 
desistirem. Portanto, aconselhamos uma "constituio" com leis que tam- 
bm possam reger as possveis ou provveis excees. 

Um exemplo corriqueiro  o consumo de guloseimas e refrigerantes 
que se constituem, juntamente com outros fatores, em alteraes dos 
hbitos familiares nos fins de semana ou em casa de terceiros.  claro que 
essas"sadas" da rotina so normais e devem ser ocasionalmente permiti- 
das mas segundo "leis" que as orientem, assim como a volta ao comporta- 
mento habitual normal quando a ocasio chega ao fim. Outro exemplo 
corriqueiro  a inibio que os pais sentem em chamar a ateno dos filhos, educ-los e corrigir comportamentos anormais em ambientes dife- 
rentes ou diante de pessoas estranhas. Insistimos: na "escola da vida", o ato 
de educar e ensinar filhos no deve ser interrompido nem respeitar feriados, domingos, frias ou determinados horrios. A educao deve ser 
contnua, ininterrupta, independente de hora e lugar e, para esse proce- 

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Dr. Henrique Klajner 

der, deve haver a devida "legislao" familiar. Em caso de dificuldades, os 
profissionais e pediatras devidamente instrudos podem e devem ajudar. 

Em crianas pequenas, os hbitos devem ser incorporados pela 
repetio dos procedimentos. Quando crescem devidamente condi- 
cionadas, a comunicao verbal encontra enorme facilidade em ser insti- 
tuda como continuidade educacional, promovendo entendimentos e 
compreenses mais viveis, mais rpidas, facilitando, inclusive, altera- 
es de condutas e comportamentos e, se a lgica e honestidade fiis s 
reais necessidades tiverem sido respeitadas com persistncia, a palavra 
falada continuar sendo praticamente o nico e suficiente modo de 
comunicao e entendimentos para todos. 

Erros e avaliaes 

Erros cometidos pelos pais so muito comuns durante o processo 
educacional dos filhos, principalmente no incio. Enganos de avaliao 
das propores dos eventos, dos resultados (positivos ou negativos) das 
atitudes, das condutas, dos corretivos e/ou punies ocorrem em quase 
cem por cento das famlias. Alis,  atravs de erros, enganos e correes 
que todos adquirimos conhecimento e experincia. O importante  ter 
flexibilidade para as devidas correes. No raro vemos casos com neces- 
sidade de correes, s vezes trabalhosas, com posterior verificao que 
outra teria sido, talvez, a conduta corretiva mais acertada. Quando assim 
ocorre e outra correo se impe, a orientaqo deve ser a de voltar atrs e 
corrigir tudo novamente. O que nunca dever ser feito  se acomodar e 
admitir que "algum dia tudo se ajeitar por si",sem esforo. 

A participao constante, diuturna dos pais  importantssima em 
todos os processos familiares que envolvem os filhos. Mudanas de orien- 
taao so at muito mais freqentes que acertos imediatos e  importante 
nunca esquecer que muito deve ser dispendido em matria de tempo e 
pacincia para correes. 

So importantes as reavaliaes constantes da evoluo das crianas, 

de eventuais opinies novas para atualizao e as mudanas de procedi- 

mentos,quando fundamentadas econcordes comassoberanas "leis fami

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A auto-estimulao precoce do beb 

liares". Nunca devem ser mudadas leis apenas para satisfazer circunstn- 
cias ou momentos porque essas mudanas estariam passando para as 
crianas informaes confusas e contraditrias, com prejuzos psi- 
colgicos importantes para todos. 

Pais costumam dizer que corrigir comportamentos se torna mais f- 
cil depois que a criana cresce e fala, devido  facilidade em poder comunicar-se com ela pela verbalizao, conversas e entendimentos. A verba- 
lizao, porm,  um modo de comunicao que a criana adquire depois 
de se comunicar pelos meios iniciais rudimentares, o choro ou o berro. 
Estes vo gradualmente deixando de ser usados enquanto ela vai se desenvolvendo e se adaptando s sucessivas fases e por fim acabam substi- 
tudos pela linguagem falada, seguindo todo um processo de aprendiza- 
gem. Se ela tiver sido condicionada pela comunicao a qualquer 
comportamento que leve a resultados indesejados em alguma fase anterior, isso ter sido na "lngua" praticada naquela fase, no importando 
qual tenha sido essa lngua. O comportamento foi aprendido, conhecido, 
assimilado, interiorizado, admitido como vlido e incorporado naquela 
"lngua". Se assim aprendeu, assim dever ser corrigido. A dificuldade ou 
facilidade da correo posterior sero as mesmas independentemente da 
"lngua" que se usa (mesmo se j for a falada, mais aperfeioada), porque 

o que deve ser corrigido  o comportamento gravado na memria da 
criana e responsvel por suas atitudes e no a maneira pela qual foi 
condicionado. 
Enfatizo, porque estou convencido de que as leis da famlia devem ser 
aplicadas com a mxima exatido possvel desde o incio e com a mxima 
persistncia para se evitarem esforos e sofrimentos a serem dispendidos 
em futuras correes. 

Vamos tomar como exemplo de todo o exposto um dos tpicos mais 
divergentes e que mais preocupam as famlias: a alimentao. 

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Dr. Henrique Klajner 

A alimentao 

O ato de se alimentar  inerente ao ser vivo,  obrigatrio. Para co- 
mer, o nosso organismo  "despertado" por uma sensao muito descon- 
fortvel, a fome. Portanto, todos os seres animais, inclusive o homem, 
para sobreviver, sentem fome. 

A fome s se faz ausente em situaes muito particulares: doena, 
sada do estado de higidez ou quando, mesmo com perfeita sade, a 
criana estiver passando por situaes especficas como irrupo den- 
tria, mudanas de ambiente ou de pessoas que com ela interagem, alte- 
rao do sabor ou da apresentao dos alimentos, enfim, situaes 
diferentes daquelas squais elasecondicionou. Em qualquer das eventua- 
lidades a fome volta aos padres normais assim que a doena desaparecer, 
ou as alteraes ambientais voltarem s habituais, ou a criana junto com 
os circunstantes a elas se adaptarem. Insisto: a ausncia da fome  sempre 
temporria e a sua volta  certa. 

O apetite normalmente varia com a constituio e com a idade da 
criana ou da pessoa porque, para cada criana, para cada fase, para cada 
personalidade e para cada ambiente mudam as necessidades nutricionais. 
No comeo da vida, ela come para sobreviver. A medida que cresce, de 
acordo com o que lhe for oferecido,vaipaulatinamente desenvolvendo o 
paladar, dando preferncia adeterminados tipos de alimentos, influencia- 
da por incontveis fatores genticos e ambientais. Ao pediatra cabe encontrar o caminho mais adequado para alimentar a criana, adaptando, 
ampliando ou reduzindo o cardpio de acordo com o seu crescimento e 
dar condies de, atravs das refeies e de outras orientaes, estimular 

o desenvolvimento das aptides alimentares peculiares a cada uma delas. 
Ser bem alimentada no significa comer muito. O importante  ingerir exatamente aquilo de que necessita. No princpio, no se consegue 
saber de antemo o que e quanto a criana necessita. Por isso fixam-se 
limites elsticos para a conduta alimentar que os pais devem adotar em 
relao  criana, dentro dos quais ela possa conhecer e se adaptar ao que 

o ambiente tem para lhe oferecer, respeitando suas disposies e 
condies. Esses limites se baseiam em estudos atualizados que visam 
abranger a maioria das crianas e podem, excepcionalmente, no vir de 
96




A auto-estimulao precoce do beb 

encontro ao que uma determinada criana necessita. Para as excees, o 
pediatra deve sempre encontrar alguma soluo satisfatria, alterando os 
limites para outros que julgar adequados, orientado pela prpria criana 
atravs da comunicao peculiar para sua idade. 

As refeies devem ter horrios adequados mantidos, inseridos nos 
hbitos, que respeitem intervalos racionais e possam estabelecer o relgio 
biolgico individual que, depois de alguns dias, funciona automatica- 
mente despertando a criana para a fome nas horas certas. O relgio biolgico  muito importante porque, com ele, desde o incio, mostra-se  
criana que o ambiente quer entrar em sintonia harmnica com ela num 
ritmo disciplinado. 

Em virtude da pequena capacidade que o beb tem de processar os 
alimentos, por mais simples que sejam, fixam-se as refeies de leite com 
intervalos curtos de trs ou quatro horas. A medida que mostra aptido 
crescente ou no atravs da aceitao e capacidade para digerir mais ali- 
mentos, os intervalos so ampliados automaticamente  medida que ela, 
pelo despertar, mostra maior tolerncia  fome. 

Fixar horrios flexveis para as refeies d  criana a noo do 
tempo que tem de esperar para comer novamente. Isso permite ao organismo, de acordo com suas necessidades e possibilidades, "planejar" o 
que e quanto deve ingerir em cada refeio. Quando os horrios no so 
fixados, os parmetros para a ingesto alimentar so influenciados por 
fatores externos e no relacionados  fome. Por exemplo, pessoas que 
oferecem a refeio sem obedecer a horrios simplesmente porque 
acham que "j  hora..."; ou quando ela chora pela agitao do ambiente; 
ou quando acontecimentos, objetos, guloseimas atraem sua ateno, 
fazem com que a criana tenha a sensao de poder receber alimentos a 
qualquer hora. Esses episdios dificultam fixao posterior de horrios, 
quando se o desejar, porque a aceitao alimentar fica condicionada tosomente  saciao imediata, sem que a criana se programe para se 
manter satisfeita por um intervalo racional suficiente para conseguir 
aguardar a refeio seguinte. 

Ora, sabemos que em refeies muito prximas o aporte torna-se 

pequeno devido  certeza de que logo pode vir outra, bastando, para isso, 

97 




Dr. Henrique Klajner 

que pea. Alm do que, j tendo comido h pouco, "quase nada caber no 
estmago" depois de curto intervalo. Por conseguinte, quando o nmero 
de refeies aumenta, reduz-se o volume aceito em cada uma. No balano 
dirio, tem-se que nas vinte e quatro horas o montante ingerido acaba 
sendo menor, levando a criana  possibilidade de m nutrio ou desnu- 
trio. Se, ao contrrio, as refeies forem espaadas demais, a fome e a 
ingesto em cada uma  maior, desenvolve-se o hbito de comer demais, 
ocorre a bulimia, e sobrevm a obesidade. 

Outra vantagem de se fixarem horrios racionais para as refeies 
desde o comeo  que a criana adquire a noo de limites e passa a proje- 
tar essa noo para todas as outras reas. A alimentao do incio (as mamadas), alm de satisfazer a primeira das grandes necesidades do beb 
a nutrio para sobreviver --, promove tambm o estmulo da suco e, 
com ela, a satisfao da prpria necessidade de sugar na fase oral, importantssima para exercitar a musculatura da face, da mastigao e da deglu- 
tio, fase que vai at doze ou quinze meses e se constitui, quando plena- 
mente realizada, na base do perfeito desenvolvimento dos hbitos 
alimentares da crianqa nas suas fases posteriores. 

Por fim, refeies com horrios relativamente fixos no permitem 
que a crianqa assuma a responsabilidade de "gerir", ela prpria, sem para 
isso estar preparada, qual seja, colocar sozinha a alimentao dentro de 
parmetros ideais, o que pode ser causa de insegurana. Os horrios fixos 
transferem tal responsabilidade para quem dela cuida, o que aumenta sua 
segurana, autoconfiana e confiana no meio ambiente, permitindo sua 
auto-realizao por faz-la sentir-se bem alimentada e adaptada ao meio 
ambiente e, por tudo, ser por ele bem aceita. 

Deve constar da "constituio" familiar, ainda em relao  alimentao: durao de cada refeio, tipos, qualidade e seqncia dos alimentos oferecidos, dando prioridade 
aos mais nutritivos no incio da refeio 
(para aproveitar a fome sempre maior no incio) e em seguida oferecer 
aqueles dos quais ela mais gosta (menos nutritivos) como doces, frutas, 
guloseimas. Esses tornam-se "prmio" por j ter aceito os mais impor- 
tantes. Deve-se proibir a ingesto de qualquer coisa, por mnima que seja, 
nos intervalos (prejudica a refeio seguinte e tambm a anterior porque 

o hbito de comer fora de hora a condiciona a no aceitar bem a comida 
98 



A auto-estimulao precoce do beb 

e guardar um lugar para o "lanchinho" a seguir); oferecer apenas gua em 
quantidades moderadas e suficientes. Evitar lquidos que tm sabor (chs, 
refrigerantes, sucos, etc.) durante ou fora dos horrios de comida porque 
levam ao hbito e  sensao constante de "estmago cheio" o que, para 
muitos autores, pode ser origem de posterior bulimia; fixar e manter o 
mesmo lugar das refeies com intuito de evitar outros condicionamen- 
tos, que no a fome, para comer, que podem dar oportunidade para re- 
cusa alimentar; no distrair a ateno nem enganar para que aceite mais 
comida porque, com isso, aos poucos a criana perde a confiana nos 
adultos e, se a ingesto chegar a ser maior do que a necessria, h srio 
risco de vomitar; preferir um lugar que ela possa sujar enquanto come, e 
seja de limpeza fcil; respeitar as fases de inapetncia normal ou patolgica sem agradar ou "inventar modas" como brincadeiras, televiso, passeios, trocas de pessoas 
para dar comida, porque so exatamente essas 
modas que desrespeitam a vontade e a capacidade de comer e a obrigam 
ao que no est disposta e provocam nervosismo e repulsa s pessoas, aos 
alimentos e ao prprio ato de comer; nunca forar, insistir ou bater para 
que coma porque tais procedimentos, assim como no caso anterior, 
condicionam-na a aceitar comida somente quando forada e, nessas 
eventualidades, a criana, com o tempo, passa a "exigir procedimentos 
sempre novos", fazendo da recusa alimentar uma forte arma de chan- 
tagem para atrair ateno; as fases de inapetncia normal nunca ultrapas- 
sam um perodo mdio de quinze dias, aps os quais o apetite volta  nor- 
malidade, desde que os pais o tolerem com a devida pacincia e 
mantenham a conduta rotineira e disciplinada. 

Nunca castigar a criana por no comer porque comer no  obri- 
gao, mas um direito dado a ela; a punio indevida cria revolta incons- 
ciente por ser injusta e um trauma que se reflete sobre os circunstantes e 
sobre os alimentos, levando  ojeriza  comida e s pessoas (todas, porque 
a criana pequena no consegue individualiz-las), anorexia duradoura 
ou permanente e inclusive a to temida anorexia neuroptica. 

Deve-se permitir  criana desenvolver aptides para comer e beber 
numa evoluo que comea com as mamadas no seio, passa pelas ma- 
madeiras (no obrigatoriamente), depois para a fase de comer e beber 
usando principalmente as mos, depois talheres, pratos e copos,  medida 
que evolui. Nunca punir ou ridicularizar uma criana por "erros" ou 

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Dr. Henrique Klajner 

"deslizes" normais para sua idade. Permitir, na fase compatvel, que par- 
ticipe das refeies  mesa com os adultos, em horrios que o permitam, 
mesmo que j tenha sido previamente alimentada no seu horrio habitual, para que possa conhecer a alegria e o prazer que sua presena traz aos 
familiares, aprender seus hbitos e comportamentos socialmente aceitos  
mesa e fazer desses momentos um motivo de alegria e prazer para si tambm. Nesses momentos devem ser evitadas discusses, brigas, gritos que 
sempre bloqueiam o condicionamento saudvel do apetite e tiram das 
refeies o prazer e a alegria. 

Pelo exposto, pode-se ver como a vida pode se complicar quando 
nao sao adotadas condutas com as crianas com a inteno de prevenir 
problemas futuros. Todos os cuidados orientados para alimentao valem 
paralelamente para todas as higienes. Poderamos ficar dissertando interminavelmente e discorrer detalhadamente sobre rodas, mas no  esse o 
nosso objetivo. Quero apenas chamar a ateno para a necessidade de 
sempre seguir o to enfatizado e pouco seguido dito popular de que  
"melhor prevenir do que remediar". 

100




8
Ingredientes para a
"constituio" familiar 


Muitos diro, e este tipo de comentrio  mais do que previsvel, que 
no papel tudo  fcil, que "na prtica a teoria  outra, q  ue  muito difcil 
se propor a executar um plano quando se deve levar em considerao ca- 
pacidades de cada pessoa, do casal, interesses e obrigaes familiares e so- 
ciais, etc. Conhecemos tais comentrios de sobejo e so exatamente essas 
afirmaes cheias de dvidas que continuamente mobilizam os pesquisadores e estudiosos no sentido de procurar encontrar solues que 
levem aos resultados desejados. 

O meu ob)etivo aqui  colocar uma trilha no caminho dos casais, dar 
as ferramentas" para que pais e familiares cheguem ao fim do aparente 
labirinto que  a tra)etria pela vida, a um final feliz, desejado por todos, 
tendo orientado seus filhos e ajudado outras crianas a tambm alcanar 
a felicidade. 

A seguir, resumo o que seriam os principais ingredientes para uma 
boa e funcional "constituio" familiar, segundo nosso entendimento. 

Honestidade e sinceridade 

A honestidade caminha ao lado da sinceridade e so inseparveis. 
Presentes esses elementos desde a formao do casal e da famlia, sua per- 
manente continuidade  da maior importncia. A honestidade conscien- 
te do casal em querer filhos e aceit-los para formar um todo indissolvel 

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Dr. Henrique Klajner 

 a base mais slida e mais importante para a construo do lar no seu 
sentido mais amplo. Essa honestidade deve ser contnua, perene, incondi- 
cional, em todos os instantes, em todos os lugares e sem atenuantes. 

J durante a formao do beb, h muito tempo se sabe que o meio 
uterino permite trocas de influncia entre ele e o meio externo. Apenas 
no se conhece a maneira pela qual essas influncias se do. Acredito que 
elas sejam no apenas conscientes, mas tambm inconscientes, reflexas, 
sentimentais, enfim, vibratrias, porque so captadas, sentidas e referidas, 
de alguma forma, pelas pessoas da famlia. A honestidade e a sinceridade 
recprocas das pessoas em qualquer situao, momento ou perodo me- 
xem com o consciente e o inconsciente de cada um. 

Depois do nascimento se inicia uma fase de contato intensivo e ostensivo da criana com o meio. As influncias de um sobre o outro agora 
so diretas, sem intermediao do corpo materno. O impacto das vibraes  direto e, por isso, cremos ser mais ntida a demonstrao, pela 
criana, das conseqncias desses impactos. A partir da, e por toda vida, 
influncias so trocadas, demonstradas e auto-alimentadas numa 
sucesso permanente. 

Honestidade e sinceridade significam expor somente verdades, Cada 
ser ou grupamento de seres vivos, humanos ou no, possui suas verdades. 
Na escala animal, o ser humano  o nico que nem sempre expe perma- 
nentemente suas verdades e as modifica de acordo com a ocasio. Um 
vegetal sempre"aquele" vegetal, um animal sempre"aquele" animale 
seus comportamentos, apresentaes ou atuaes so, salvo excees, 
sempre os mesmos. O ambiente animal  honesto e sincero com os fi- 
lhotes, dando-lhes pleno conhecimento do que nele podem encontrar e o 
que a ele devem oferecer para conseguirem sobreviver e evoluir. 

Entre os humanos observam-se aberraes comportamentais. A sin- 
ceridade e a honestidade so manipuladas pela razo e pelo raciocnio, di- 
recionadas ourecebidas deforma asatisfazer convenincias de momentos. 

Quando um filho nasce, e isso ocorre principalmente com o 
primeiro,  mais que freqente, j no perodo gestacional, um interesse e 
intenes extremadas de toda a famlia no sentido de oferecer  me e  
criana um tratamento muito alm de superprotetor. Excetuando-se os 

109




A auto-estimulao precoce do beb 

casos em que a criana por algum motivo no  desejada, o marido cerca 
a esposa de afetos e carinhos superdimensionados, de atenes inusitadas 
e desmedidas, como se a concepo, em si mesma, fosse a nica finalidade 
da unio. A famlia toda cerca o casal com atenes exageradas, tanto ma- 
teriais como afetivas, esquecendo que essa situao  apenas um incio, 
que a gestao  um fenmeno fisiolgico, natural e, como tal, se no for 
"atrapalhado", segue o curso imposto pela natureza com, sem ou apesar 
da sua interferncia; que o simples fato de ela estar em curso foi uma 
decorrncia tambm de um fenmeno natural, o ato sexual "bem-sucedi- 
do". Tudo, at ento, no teria passado de uma sucesso de processos 
naturais e, s por isso o casal no seria merecedor de elogios, tratamentos 
especiais e "prmios". Essas atenes exageradas acontecem, sim, e at 
"por obrigao", mesmo que, em muitas ocasies, a honestidade e a sin- 
ceridade possam estar indicando aos circunstantes no faz-lo. 

Quando a criana nasce, passados os primeiros dias de alegrias e 
comemoraes e o casal j se encontra em casa, a realidade comea desde 
cedo a apresentar obstculos, com todas as incgnitas e surpresas "desa- 
bando" numa avalancha, enchendo o lar de dvidas, incertezas, temores, 
ansiedade, sofrimentos e conseqentes desacertos. 

Quando a honestidade e a sinceridade imperam, todos se preocu- 
pam, o mnimo que seja, com o futuro da criana e com o melhor meio 
de conduzi-la. Os mais velhos, quando honestos e sinceros, advertem 
os mais moos das dificuldades do porvir, sem interferir ou tentar "impor" suas condutas baseadas em experincias prprias passadas, talvez 
obsoletas e no recicladas, aconselhando-os a procurar orientaes 
especializadas e atuais. O marido sincero e honesto trata a esposa com 
naturalidade, cultivando ambos a humildade junto com a honestidade 
e sinceridade, preparando assim, para o beb, um ambiente honesto e 

sincero. 

 tambm freqentssimo ouvir-se: "pretendo dar tudo ao meu filho, 

inclusive o que no tive", numa demonstrao exuberante e invejvel de 

otimismo e esperana. Essa afirmao, alm de ser extremamente ampla, 

 muito indefinida. Uma pessoa que se prepara para ter filho, no tem 

idia do que o futuro reserva nem a ele prprio, nem ao filho nem ao 

mundo. A disposio "de tudo dar" que a afirmao faz entrever no  di- 

103




Dr. Henrique Klajner 

recionada, dimensionada e planejada porque, para que se possa ter dis- 
posio e realiz-la, seriam necessrios conhecimentos que a falta de 
vivncia no permitiu ainda adquirir. Insisto sempre junto s pessoas e 
aos pacientes que mesmo profissionais da sade no tm condies de 
planejar com exatido os procedimentos futuros de quem quer que seja. 
Cada criana  uma individualidade no tempo e no espao e, em cada lu- 
gar e em cada momento, os valores so muito variveis. A honestidade e a 
sinceridade que tanto pregamos fazem com que as pessoas repensem e se 
disponham a "pretender oferecer ao filho tudo de melhor que puderem, 
dentro das suas possibilidades e das suas limitaes". 

A honestidade e sinceridade devem estar presentes sempre, em qual- 
quer lugar, levando em considerao tudo com o que a criana vier entrar 
em contato: ambiente fsico, personalidade dos pais e da famlia; modos 
de se relacionar com tudo e com todos, mostrando, desde o incio, que ela 
veio para se adaptar ao que j existe.  claro que "aquilo que j existe" tambm muda com o passar do tempo. Os irmos que precederam o beb que 
est chegando j se encarregaram de mudar o ambiente original formado 
pelos pais, de forma que, na mesma famlia, o meio muda de um para o fi- 
lho seguinte. Mas, cada um deles, ao chegar, deve ter como tnica sua 
adaptao ao que existe por ocasio da sua chegada. Tudo o que  real e 

verdadeiro deve-lhe ser mostrado. 

Devido  necessidade de sobreviver,  vital que o beb confie no am- 
biente em que se encontra e no que este lhe apresenta, que tome tudo co- 
mo base real e verdadeira para a evoluo sua e de todos e que acompanhe 
as eventuais mudanas, adaptando-se sucessivamente a elas. Mesmo que 
em certos momentos o ambiente no esteja oferecendo aquilo que mais 
lhe agrada, a criana  obrigada a aceitar e encontra mecanismos que permitem uma adaptao e que se constituem em treino que lhe facilitar 

descobrir novos mecanismos em futuras eventualidades. No adianta, 
por exemplo, um pai de temperamento explosivo se conter ou disfarar a 
agressividade diante da criana porque, alm de no conseguir faz-lo 
eternamente (algum dia acaba explodindo), a criana sente o desconforto 
da sua insinceridade e desenvolve, a partir dela, insegurana. Mesmo que 
ela venha ase adaptar  conteno ilusria do pai, no dia em que houver 
a demonstrao do real temperamento dele, tender aliar a frustrao por 

104




A auto-estimulao precoce do beb 

nele ter "confiado"  falta de confiana em qualquer figura paterna dali 
para frente. Quando a realidade  apresentada a priori, a criana aprende 

o temperamento do pai desde cedo e invariavelmente toma, por seu lado, 
"providncias" no sentido de harmonizar o relacionamento. 
Enfim, honestidade e sinceridade em relao s crianas significa 
mostrar-lhes, desde o incio, tudo o que o ambiente pode ou pretende lhes 
oferecer e o que o ambiente espera delas receber. A criana se adapta s 
verdades, por piores ou melhores que possam ser, inclusive a eventuais ou 
constantes mudanas que venham a ocorrer no seu ambiente, e as aceita 
como vlidas, desde que feitas com honestidade, sinceridade, que visem 
ao bem comum e tenham objetivo construtivo. 

Autenticidade 

A honestidade e a sinceridade so os ingredientes mais importantes 
para o estabelecimento da "constituio" familiar. So imprescindveis, 
inclusive para os outros ingredientes que vm relacionados adiante 
porque todos devem ser usados sincera e honestamente. A autenticidade 
deve ser usada honesta e sinceramente. 

Ser autntico significa pensar e comportar-se sempre fielmente quilo que se . No campo da educao, principalmente de crianas, esse sig- 
nificado  ainda mais veemente em relao aos pais porque  da autenti- 
cidade que depende a felicidade no s da criana mas tambm de toda a 
famlia. 

Nunca se deve "enfeitar" ou mascarar o meio em que a criana ir se 
desenvolver, em nenhum aspecto, seja ele econmico, cultural, intelectual 
ou mesmo relacionado ao temperamento das pessoas e principalmente 
dos pais, porque  vital que a criana aprenda tudo do jeito real para no 
ser, mais tarde, surpreendida com revelaes que a possam frustrar, ao 
perceber que o que lhe foi passado no corresponde  verdade. Os pais de- 
vem se preocupar em nunca demonstrar o que no so, nem para mais 
nem para menos, porque os efeitos prejudiciais da falsidade em ambos os 
casos so igualmente catastrficos. A criana frustra-se demais com falsi- 
dades e as conseqncias das frustaes so inevitveis e de intensidades 
variadas. Nunca a verdade e a realidade a frustram, por pior que elas pos- 
sam ser ou parecer. 

105 



Dr. Henrique Klajner 

MuRas vezes, mais freqentemente do que se pode imaginar, na se- 
qncia dos acontecimentos, os pais deparam com situaes em que sen- 
timentos entram em conflito com a razo. O raciocnio manda, mas a 
vontade no concorda. Em geral, tais episdios se relacionam com con- 
dutas restritivas a serem tomadas com as crianas, por motivos variados, 
e  quando so acometidos por um sentimento de piedade, por um im- 
pulso de "perdoar s aquela vez", desde que a criana prometa "nunca 
mais repetir o erro que cometeu". Outras vezes, no cumprem o previsto 
na "constituio" familiar por causar, a eles e  criana, enorme constrangimento naquele momento. 

Lembramos que tais procedimentos abrem precedentes aos quais os 
filhos se apegam para "burlar" as regras em outras ocasies. Se os prece- 
dentes devem realmente ser abertos, que suas aberturas sejam includas e 
constem das leis familiares, da "constituio". 

Mas, de qualquer modo, ao estabelecer a "constituio", os pais de- 
vem autenticamente nela incluir somente aquilo que seja condizente con- 
sigo mesmos, desprezar influncias de terceiros e no as considerar s por 
existirem ou por serem da moda, porque "todos assim procedem" ou 
porque as famlias de amigos assim fizeram e foram bem-sucedidas com 
seus filhos. O sucesso que teriam obtido, com certeza, se deveu  honesti- 
dade e autenticidade que "aqueles pais" usaram na codificao das "suas 
respectivas leis". Outras vezes os sucessos aparentes no existem real- 
mente ou so passageiros e podem no significar, obrigatoriamente, algo 
sedimentado e que d garantias de embasamento definitivo para outros 
sucessos no futuro. A simples "imitao'" sem autenticidade, pode levar os 
casais a frustraes e a resultados indesejados. 

fl extremamente comum, quase uma constante, haver influncias so- 

bre o casal oriundas principalmente da prpria famlia. Eu mesmo, s 

vezes, me Surpreendo tentando levar meus filhos j casados  seus cn- 

juges a tomar condutas que acho importantes, esquecendo que eles de- 

vem ter liberdade de deciso, alis, introduzida e incrementada por minha 

prpria conduta autntica em relao a eles e a toda famlia em todo 

processo de orientar sua educao. Ao perceb-lo, automaticamente re- 

conheo meus impulsos paternais exagerados e me retraio, 

1~incomum, porm, os mais velhos se retrarem em suas tentativas de 

106




A auto-estimulao precoce do beb 

influenciar os filhos casados, nem quando alertados. Obstinadamente 
insistem em tentar impor suas idias e condutas sem sequer se interessar 
em conhecer procedimentos novos, e muito menos levar em considerao, as decises do casal e da sua "constituio". 

Aconselhamos aos pais novos que sempre incluam na sua"carta" a lei 
de "no infringir em nenhum momento a sua autenticidade, que levem 
em conta tudo o que ouvirem ou o que lhes derem como conselhos, que 
analisem tudo, mas somente adorem o que sua autenticidade permitir". 

Desprendimento 

Desprendimento vem de desprender-se. Todos esto, de alguma for- 
ma, presos a algo, a idias, a pessoas que possam ter influenciado a vida 
em algum momento. Em rodas as pocas, as aquisies vo sendo feitas e 
incorporadas e formam a individualidade em todos os sentidos. No que 
se refere a filhos, a maioria das pessoas e principalmente os pais encon- 
tram-se presos a conhecimentos ou condicionamentos anteriores, ou 
seja, a aquisies, mesmo sem ter, obrigatoriamente, se envolvido pes- 
soalmente com as situaes que os provocaram. Mas como pais, so obri- 
gados ase envolver pessoalmente com os filhos. 

O desprendimento e a desvinculao pressupem que os pais, ao es- 
colherem o caminho para o futuro de suas vidas e a dos filhos, tenham a 
chance de optar pelo que mais lhes convm de acordo com suas prprias 
determinaes. O caminho por eles escolhido nem sempre estar em con- 
cordncia com suas idias anteriores, possivelmente presas a conceitos 
ultrapassados. No importa qual rumo desejam tomar. O que importa  
tom-lo nica e exclusivamente obedecendo  sua prpria vontade,  sua 
prpria resoluo. 

Mas  nesse ponto que a maioria dos casais tropea. A inexperincia 
com crianas, associada  maior ou menor dependncia anterior a idias, 
pessoas ou condicionamentos, faz com que os casais encontrem extrema 
dificuldade em fazer valer seus propsitos. Logo no incio sentem que fa- 
zer valer tais propsitos tromba com o passado personificado pela famlia 
e por outros relacionados, e o desconforto, causado por confrontos e con- 

107 




Dr. Henrique Klajner 

tradies, os desencoraja e faz com que adiem, pelo menos temporaria- 
mente, as mudanas pretendidas. O fato  que o modo pelo qual se com- 
portam se mostra como continusmo. O adiamento, a cada dia que passa, 
dificulta mais as mudanas e o grande risco  todos irem se acomodando, 
adaptando-se s situaes nem sempre satisfatrias, levando a criana a 
um ponto a partir do qual qualquer mudana incluir enormes sofrimen- 
tos para ela e para toda famlia. 

O desprendimento dos pais jovens causa em todos, no mnimo, cer- 
ta estranheza.Quando sinalizam para um comportamento que de certa 
maneira contraria as "leis vigentes", a primeira coisa que acontece  a 
famlia e os circunstantes tentarem bloquear. Se estes mesmos tiverem si- 
do independentes, autnticos e desprendidos com seus filhos, na sua 
poca, o desprendimento dos jovens pais atuais no  to traumtico e 
sensvel, a reao familiar pode no ser to exuberante, mas est sempre 
presente. Costumam, para tentar impedir o desprendimento, comentar 
disfaradamente, opinar, criticar veladamente ou dar indiretas que de 
alguma forma sempre interferem no pensamento e nas condutas do casal. 

Depende da vontade do casal ter ou no uma vida "desprendida". Em 
caso negativo, nada a fazer a no ser continuar seguindo os costumes de 
sempre. Em caso positivo, a melhor maneira de se desprender  comear 
mudando a forma de pensar das outras pessoas, procurando traz-las 
para uma outra mais nova, esclarecendo e explicando detalhadamente as 
atualizaes constantes e, mesmo se houver resistncia, continuar pro- 
gredindo a despeito das situaes que se forem criando, suportando as 
"possveis intempries", aguardando que o tempo acabe por provar a va- 
lidade de suas resolues. 

O importante  entender que no caso do no desprendimento, quan- 
do a orientao adotada pela famlia e seguida pelos pais resulta em in- 
sucesso ou desagrado, a famlia dificilmente, para no dizer "nunca", as- 
sume a responsabilidade pelo fracasso. Atribuem-na aos pais porque " 
sempre dos pais, e no dos avs que j cumpriram a sua misso, de as- 
sumir as funes e dar a ltima palavra e autorizao para tudo". Nos ca- 
sos da grande maioria das "crianas-problemas", os familiares se declaram 
"inocentes" e isentos de qualquer responsabilidade e at chegam a negar 

108




A auto-estimulao precoce do beb 

sua participao e sua influncia que, todavia, podem ser facilmente comprovadas a qualquer momento. 

Quero insistir: no fim toda responsabilidade sempre recai sobre os 
"responsveis" diretos pela criana, os pais. Portanto, que a assumam 
desde o incio, mas com desprendimento, para que possam gozar dos 
mritos pelos bons resultados, "paguem" pelos erros eventualmente 
cometidos, porm conscientes, conferindo-se a oportunidade de, sozi- 
nhos, acertar ou errar, corrigir enganos e trajetrias na seqncia dos 
episdios com os filhos, provando a validade do desprendimento na 
criao dos filhos. 

Planejamento 

A determinao de estabelecer uma "constituio" familiar ou sim 
plesmente adotar algumas regras j implica em um planejamento. A 
grande dificuldade  algum, como os pais, planejar sobre leis familiares, 
coisa completamente estranha, nunca vivenciada, um assunto que trata 
de experincias a serem ainda vividas, sem ter antes elementos que se 
constituam num padro para comparao ou exemplos anteriores ou 
mesmo concomitantes que sirvam de base. Mesmo que os tivessem, eles 
nem sempre poderiam ser usados para seus planejamentos futuros, uma 
vez que as experincias diferem entre si quanto ao tempo e ao espao e 
experincias de terceiros nem sempre podem ser aproveitados. 

Por isso, o planejamento deve ser sempre orientado por algum 
com experincia, eleito pelos pais. Pode at no ser ligado  rea peditri- 
ca. O importante  que tenha experincia que fale de perto para os pais, 
seja de sua preferncia espontnea e desprendida porque  nessa pessoa 
que devem confiar e segui-la fielmente. 

O conselho que damos  que escolham, para o planejamento, uma 
pessoa relacionada ao assunto que quiserem tratar. Achamos que a 
primeira a ser lembrada deve ser o pediatra convidado a acompanhar a 
criana, profissional supostamente atualizado que, com viso de genera- 
lista, sabe orientar a maior parte dos assuntos e sabe como e quando 
procurar ajuda de outros especialistas, se necessrio. O planejamento 
peditrico da "constituio" familiar j inclui, desde o comeo, procedi- 

109




Dr. Henrique Klajner 

mentos que permitem conduzir a criana dentro do esquema desejado 
pelo casal e tambm mudanas eventuais. Deve-se ter em mente que, 
mesmo com planejamento, vo surgindo problemas para resolver durante o percurso, enganos e desencontros, como em qualquer planeja- 
mento, pelo simples fato das crianas serem imprevisveis. Alm disso 
nem tudo que se planeia para uma criana serve para outra porque todas 
diferem entre si, mesmo sendo gmeas. Nunca esquecer tambm que o 
planejamento nunca pode ser estanque porque mudanas so sempre 
esperadas e baseadas nas constantes atualizaes. 

Planejar no significa prever e saber de antemo tudo o que se far 
no futuro exatamente porque cada criana tem evoluo prpria e vari- 
vel de acordo com o meio, com as novidades e com sua constituio. 
Planejamentos devem ser reciclados periodicamente, com maior freqn- 
cia no incio (e mais ainda quando os pais so inexperientes) e, com o 
passar do tempo, mais esporadicamente,  medida que a vivncia en- 
riquece os pais com mais conhecimentos e segurana. 

Em muitos casos, em certos perodos, se observa negligncia incom- 
preensvel nos planejamentos por parte dos pais, que passam a considerar, 
depois de algum tempo, que a criana "j est grandinha e daqui para 
frente tudo se ajeita por si..". Pode at acontecer do acaso fazer com que 
tudo caminhe a contento, mas nossa experincia evidencia que mais ca- 
minha a contento a criana que vem sendo bem orientada com planeia- 
mento sempre refeito. Costuma-se dizer que uma vez pais, sempre pais, 
isto , as funes educativas e orientadoras dos casais tm o momento de 
comear, mas nunca terminam, mesmo depois que os filhos casam 
porque, como avs, estaro em melhores condies de ajudar, com muito 
mais preparo pela vivncia e experincia acumuladas. 

Portanto,  importantssimo planejar sempre e empenhar-se na atualizao de mtodos e condutas. Lembrar que "aposentar-se da funo de 
pais  continuar com funes de educadores pelo resto dos seus dias". 

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A auto-estimulao precoce do beb 

Amor, humildade e caridade desinteressada 

Esses trs ingredientes, ns os consideramos juntos porque, sem esse 

trip, o mximo que se consegue na vida so realizaes incompletas, ocas 

e sem consistncia, que no trazem satisfao ntima, auto-realizao e 

auto-estima. 

O amor  inerente ao ser humano. Difere de um ser para outro ape- 

nas na forma, na intensidade ou na extenso da sua manifestao e ex

presso. 

A humildade  o passaporte que franqueia,  o "lubrificante  que facilita a passagem do amor pelos estreitos caminhos da conscincia, evitando os atritos e os desgastes 
que reduzem sua expresso ou at o fazem 
desaparecer. O amor oferecido com humildade  o que no humilha 
quem recebe e tira orgulho e o egosmo de quem d. 

Amor com humildade  o ponto mais alto da caridade desinteressa- 
da. Caridade  doar-se sem esperar recompensas, e isso h sculos nos 
ensina o "amai-vos uns aos outros e a Deus acima de tudo e de todos . 
Todos devem se amar, todos merecem ser amados incondicionalmente e 
muito mais ascrianas por necessitarem de tudo, inclusivede aprenderem 
a amar. E se forem filhos nossos, o amor expressado se torna obrigatrio, 
uma vez que o desejo de lhes fazer todo bem possvel deve ser questo 
primordial. 

Amor, humildade e caridade constituem a parte mais difcil de incluir e executar na "constituio" familiar. Significam renncia, mudanas, aceitao de novos eventos, 
transformao de personalidades, 
adaptao aconceitos,assuno de definies enovas verdades, tudo den- 
tro de uma atmosfera de bondade, de doao e desejo de oferecer o melhor para as crianas, mesmo que  primeira vista haja impresso de prejuzos pessoais ou de 
incongruncias por colocarem em posies 
desconfortveis ou de confronto pessoas com conceitos antigos ou con- 
trrios. Significam enfrentar, assumir, tendo pacincia e as mais altas doses de contemplao para aguardar resultados que podem tardar longos e 
interminveis perodos, talvez uma vida inteira. 

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Dr. Henrique Klajner 

Universalidade 

Usamos o termo universalidade no seu sentido lato. No mundo 
atual, onde tudo  rpido e os meios de comunicao permitem uma 
quase instantaneidade na difuso de conhecimentos, a imprensa, em 
todas as modalidades, tem a possibilidade de, em fraes de unidade de 
tempo, proporcionar o acesso a rinces inimaginveis. As crianas tm de 
ser entendidas e enquadradas numa situao de absoluta mutabilidade, 
no cabendo, em nenhuma hiptese, sequer meno de fixar planos e 
determinar objetivos estanques no que toca ao seu futuro ou ao modo 
como sero criados e educados. O leque de possibilidades de mudanas 
dos planos e objetivos tanto profissionais como familiares ou habitacionais, hoje em dia,  de tamanho sem precedentes e j podemos imaginar como ser ainda maior 
dentro de algum tempo. 

A "constituio" de cada famlia, respeitando suas tradies ecos-. 
tumes, no pode deixar de levar em considerao esses fatores. No  o 
caso de sedefender a obrigatoriedade incondicional de mudanas calcada 
apenas no fato de elas existirem. Trata-se dos pais pelo menos abrirem 
suas mentes e procurarem inteirar-se da possibilidade de tais mudanas e 
novidades, avaliarem vantagens e desvantagens, estudando-as e discutindo-as, e conclurem por seu procedimento sabendo de antemo que de- 
vero ter sempre, alm de adotar mudanas ocasionais, as explicaes 
para os "porqus" delas para os filhos poderem entend-las. Tudo se deve 
ao fato de que o "universo se tornou pequeno" e as verdades da famlia 
podem e devem comparar-se e, se possvel, identificar-se com as de todo 
universo, em quaisquer situaes, a qualquer momento e o mais rapida- 
mente possvel. 

Entendemos que muito do que se aceita quase como verdade "geral" 

e se tem como timo, indicado e oportuno, pode no servir para determi

nada famlia, em alguma ocasio, por um ou outro motivo. Alteraes de 

costumes tradicionais, com possibilidade de trombar com sensibilidades 

de terceiros cuja integridade se quer preservar, falta de disponibilidade 

econmica e ambiental ou outras causas, tudo isso pode impedir a 

adoo de conceitos mais amplos. Mas, de qualquer maneira, o conheci- 

mento mais geral deve ser encarado pelos responsveis pelas crianas co- 

112




A auto-estimulao precoce do beb 

mo tpico dos mais importante porque  levando em considerao sua 
existncia que as decises sobre o contedo da "constituio" sero 
tomadas com grande possibilidade das alteraes poderem vir a ser esta- 
belecidas em algum momento, tantas vezes quanto julgarmos necessrio: 

Todos devem conhecer o mais que puderem em matria de religio, 
profisses, modos de vida social, relacionamentos familiares, modos de 
comportamento, tipos de ensino, tipos e qualidades de escolas, relaes 
de amizade e como conduzi-las, modos de manter o equilbrio de tudo e 
procurar informaes nas experincias pessoais, de terceiros ou atravs de 
literatura, enfim, nunca fechar-se aos conhecimentos e s suas modifi- 
caes, procurando pelo menos aprend-los e analis-los, concluir, de- 
cidir, aplicando tudo na "constituio" familiar e deixando a porta aberta 
para possvel retrocesso, tomada de caminhos alternativos ou de novos. 

Perseverana 

De que adiantaria tudo o que estamos apresentando como ingre- 
dientes de uma "constituio" se a disposio dos "legisladores" no for 
sempre a mesma, no tiver sempre a mesma intensidade e sempre os mes- 
mos objetivos?  muito comum, como em quase tudo que o ser humano 
se prope a fazer, um incio cheio de vontade e determinao, at certo 
ponto utpico, com idias e definio de objetivos, com vislumbre dos re- 
sultados e de todo o bem que dali pode advir, mas sem um traado dos ca- 
minhos a serem tomados ou sem que esses, quando tomados, tenham 
previstas alternativas de mudanas de percurso.  tambm apangio do 
ser humano a inconstncia de pensamentos e de atitudes, e obedecer to- 
somente a disposies ou vontades de momento e  lei do mnimo esforo, atravs da qual a perseguio dos sucessos passa a ser, com o tempo, inversamente proporcional 
ao esforo necessrio para alcan-lo. 
Apesar dessa caracterstica,  comum ouvir-se "esta pessoa conseguiu o 
seu intento merecidamente devido a seu esforo e perseverana", indican- 
do que todos reconhecem a perseverana como qualidade, embora usada 
esporadicamente quando, na verdade, deveria ser uma constante. 

Os pais tm a obrigao de interferir nas atitudes dos filhos, nos seus 

113




Dr. Henrique Klajner 

pensamentos, nas suas resolues, em todas as idades, sempre tendendo a 
lev-los  independncia progressiva e influenciando-os cada vez menos. 
Insistimos no fato de que apesar do distanciamento cada vez maior per- 
mitir independncia proporcional, a vigiltncia que devem manter sobre 
os filhos deve ser perptua, deixando um canal de comunicao sempre 
aberto para que se possam fazer acessveis e presentes sempre que solicitados. Mesmo se errarem na sua orientao, ser igualmente bom porque 
estar instalada mais uma possibilidade de dilogo que, se franco, amigo 
e sincero, ser de amplo proveito. 

A manuteno da perseverana ou sua aquisio para tudo na vida, 
tambm no que toca  educao e orientao das crianas, encontra 
sustentao em trs elementos. O primeiro e o mais importante  o estabelecimento de uma escala de valores e opes onde tudo, incluindo as 
crianas, tem o seu lugar muito bem definido. O segundo  respeitar essa 
escala com seriedade e firmeza, defendendo-a acirradamente. O terceiro  
fazer valer as duas resolues anteriores, revogando todas as disposies 
contrrias. Pela responsabilidade que assumimos ao ter filhos, minha su- 
gesto  que eles ocupem a primeira colocao na escala de valores da 
famlia, disputando-a constantemente com o estudo sensulatu e o trabalho sensulatu. 

O mais interessante  comprovar a facilidade de se tornar perseve- 
rante, uma vez decidido e iniciado o processo de adeso. A dvida leva as 
pessoas  incredulidade, fazendo-as cegas  evidncia de que basta apenas 
comear para se convencer. Uma vez comeado, a seqncia dos aconte- 
cimentos leva  confirmao e em pouco tempo a perseverana passa a ser 
rotina e a fazer parte de qualquer tipo de personalidade, em todos os momentos. A satisfao que ela traz toma conta do ntimo de cada um e ajuda a acomodar a vontade 
e a perseverana no devido lugar da personali- 
dade, tornando-as uma constante. 

114




A auto-estimulao precoce do beb 

Constncia e independncia na educao 

O ensino das crianas deve ser constante. As regras familiares inclu- 
das na "constituio" familiar devem ser vigentes a qualquer hora e em 
qualquer lugar. As excees, quando houver, tambm devem ser estabele- 
cidas e constar na "constituio" para serem seguidas fielmente. 

Os pais devem se convencer de que, uma vez constituda a famlia, 
devem se auto-empossar nos respectivos cargos de dirigentes, assumir a 
legislao, jurisdio e execuo da democracia do seu lar, incluindo to- 
dos os poderes, direitos, obrigaes e responsabilidades e no esquecer 
que, para o pleno exerccio dos "seus mandatos", o "cultivo e a manuteno da independncia constante de suas resolues e condutas" no 
so apenas necessrios mas imprescindveis. Nada de permitir interferncias, sugestes ou palpites de qualquer origem ou natureza que no este- 
jam absolutamente concordes com sua "filosofia de vida", com seus 
conceitos, idias e instrues, mesmo vindo, eventualmente, do seu 
orientador ou pediatra. E nada de procurar imitar exemplos de qualquer 
origem ou natureza que estejam em desacordo com suas convices intrnsecas, com suas capacidades, com seu grau de instruo, com sua 
poca ou com suas possibilidades materiais. 

Com o tempo, o desgaste natural das pessoas, sua evoluo e enve- 
lhecimento, a entrada de fatores novos durante a vida, os percalos e "aci- 
dentes de percurso", os problemas que vo surgindo a requerer solues 
mais ou menos urgentes, novos filhos, assuno de responsabilidades no 
trabalho, na amplitude familiar, na sociedade, no pas, ou at alteraes da 
prpria din~mica do casal, fazem com que mude, aos poucos, o modo de 
pensar, o de se comportar, as prioridades e a escala de valores previamente 
institudas de maneira quase insensvel. Para que seja respeitada e segui- 
da, a "constituio" deve ser mantida atualizada com mudanas oportu- 
nas, acompanhando as da vida da famlia e da sociedade. Entendemos que 
essas mudanas devem ser obrigatrias e o que nunca pode acontecer  o 
casal se abster de institu-las.  importante haver disposio da famlia em 
manter-se atira e atualizada, permitindo adaptao sucessiva s transfor- 
maes inevitveis que a evoluo nos obriga. 

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Dr. Henrique Klajner 

Justia e lealdade 

A justia e a lealdade so de presena desejvel sempre, mas de obri- 
gatoriedade incondicional no que toca  "constituio" familiar. Talvez se- 
jam os ingredientes mais difceis de aplicar porque as tentaes de evit- 
los so inmeras. 

Justia e lealdade no significam fidelidade absoluta ao que tiver si- 
do decidido, mas sim fidelidade a uma "carta que chamamos "viva", 
atuante e mutante. 

Procurar justia e a ela ser leal no  a mais fcil das. tarefas. Para 
conseguir, os pais devem estar sempre dispostos e munidos de muita hu- 
mildade, aceitar o fato de precisarem reconhecer erros e voltar atrs em 
resolues e condutas tomadas, levar em considerao conselhos e orien- 
taes principalmente da pessoa eleita para isso e com discernimento 
para adorar o procedimento mais acertado. Nunca devem sobrepor seu 
orgulho nem podem ser intransigentes porque o modelo que apresentam 
aos filhos  o que orienta o seu aprendizado. No adotar a inrcia, o " laissez-faire", o "...o tempo se encarregar de consertar...", deixando ao acaso a 
resoluo de problemas que possam mais tarde redundar em aborreci 
mentos srios ou catastrficos, em arrependimentos, sensaes de culpa 
e, o que  pior, na sensao de terem sido injustos com os filhos, gerando 
ressentimentos e revolta por parte deles. 

Justia significa oferecer aos filhos exatamente o que necessitam e 
deles solicitar apenas o que podem nos dar. 

 imperioso fazer a avaliao mais exata possvel de cada situao, 
adotar, em cada uma delas, a conduta mais adequada, evitando erros que 
os faam sentir-se injustiados. E, se infelizmente eles chegarem a sentir- 
se injustiados, mesmo que seja apenas impresso errnea dos pais, estes 
devem procurar esclarecer e corrigir, se for preciso, para faz-los sentir se- 
guros com o apoio de pais seguros, embasados na firme e respeitada 
"constituio" familiar, Qualquer "constituio" sem justia e sem leal- 
dade no tem motivo para continuar existindo. 

116 




A auto-estimulao precoce do beb 

Miscelnea 

Para que tudo saia a contento, quero enfatizar o bvio e insistir em 
alguns pontos que estariam automatica e naturalmente includos em 
qualquer "constituio" familiar mas que muitas vezes no esto. 

Desejo e esforo para evoluir de maneira ascendente e continuada; 
desejo e esforo para mudanas necessrias e correes de erros cometi- 
dos e inevitveis; certeza da existncia e compreenso das fraquezas e fa- 
lhas humanas; ter sempre em mente a necessidade de perdoar-se, e aos 
outros, incondicionalmente, numa demonstrao de expresso do amor, 
tambm incondicional, a nutrir a auto-estima e a estima com conside- 
rao para com todos, principalmente para com as crianas; estabeleci- 
mento de hierarquias, direitos e obrigaes, cronologia e distribuio de 
funes tanto no meio familiar como nos outros meios que as crianas 
vierem a freqentar; cronologia, se possvel, preestabelecida englobando 
tudo o que puder ser previamente vislumbrado; no permitir que se con- 
fundam direitos com concesses e obrigaes com retribuies; e, por 
fim, respeitar tudo usando os "ingredientes" descritos anteriormente. 

117




9 
O acompanhamento 
efetivo da criana 

Todos que entraram alguma vez em contato com crianas, sejam 
pais, tios, familiares, sejam simples expectadores, com certeza j tiveram 
oportunidade de tecer comentrios ou at crticas a respeito do compor- 
tamento de algumas delas. So bem mais freqentes comentrios de de- 
sagrado do que de admirao ou, pelo menos, de simples satisfao. O 
motivo da existncia desses comentrios  cada famlia "criar os filhos  
sua maneira particular" e essa maneira nem sempre vem de encontro ao 
que as outras pessoas pensam. Isso nada mais  do que a confirmao do 
que j foi dito: cada famlia elabora sua prpria e independente "cons- 
tituio". 

H ocasies em que as crticas sobre comportamento e desempenho 
so feitas pelos pais ou familiares s crianas de sua prpria famlia quan- 
do elas no correspondem ao ensinado ou esperado.  muito comum ouvir pais dizerem: "apesar de meus esforos, apesar de fazer tudo ao meu 
alcance, no consigo fazer meu filho (ou minha filha) comportar-se de 
acordo com os nossos desejos ou de acordo com as necessidades de cada 
momento". Ou ainda: "isso que todos esto vendo no  o que eu tenho 
reiteradamente ensinado". Na nossa opinio, esses desencontros aconte- 
cem porque os mtodos utilizados no ensino no foram adequados para 
aquelas crianas nos momentos histricos familiares e sociais em que 
foram utilizados. 

O comportamento de crianas, adolescentes e de adultos jovens, nos 

118 



A auto-estimulao precoce do beb 

ltimos quarenta anos, tem preocupado o mundo inteiro porque, apesar 
de mudar de acordo com a poca, esse comportamento se mostra em 
desacordo com a harmonia requerida para a evoluo global ou indivi- 
dual esperada da raa humana. O fato de ele no estar de acordo com nos- 
sas aspiraes fez com que nossos jovens fossem rotulados como porta- 
dores do assim chamado e conhecido distrbio de comportamento. Se 
atentarmos para o significado dessas palavras, veremos que esse rtulo 
pode ser dado para crianas desde o seu nascimento, para adolescentes e 
para adultos jovens das mais variadas idades. Ele  aceito e muito usado, 
ganhou alguns sinnimos como distrbio comportamental, distrbio 
behavioral e outros que se aplicam a tudo o que essas criaturas possam 
apresentar, ou apenas fazer transparecer, e que no se adequem ao que  
aceito em suas respectivas pocas, tanto do ponto de vista social como familiar ou individual.  interessante observar que comportamentos, ati- 
tudes e costumes no aceitos em certas pocas passam a s-lo em outras. 
Diga-se de passagem, o conhecimento desse fato  uma das causas da 
inrcia de muitos pais em adotar medidas corretivas ou mudanas de 
orientao de seus filhos, na esperana de que seus comportamentos reprovveis de hoje possam vir a ser adequados em algum dia futuro. Mas o 
comportamento perturbado numa poca impede queconsiga acompa- 
nhar o grupo e a sociedade exatamente porque, por um lado, eles passam 
a no aceit-lo, a rejeit-lo, impedindo o acesso  evoluo e, por outro, o 
indivduo se retrai ao sentir-se reieitado e excludo, percebendo a inutili- 
dade de continuar tentando. Esses fatos fecham o crculo vicioso que o levaanovos distrbios comportamentaispor revolta,vingana einibio, o 

que refora ainda mais seu isolamento. 

Porm, sempre me questionei quanto  validade desse rtulo porque, 
ao receber no meu dia-a-dia casos de pacientes com tais distrbios ou 
desvios de comportamento, ao neles penetrar mais profundamente, nota- 
va que eram raros aqueles cujas causas poderiam ser atribudas exclusiva- 
menteaelesou afatoresextrafamiliares. Excludos os casos emque sepodia comprovar alguma patologia neuroemocional todos presumiam pelo 
menos algumafalhano modo peloqual, desde criana, o paciente foi con- 
duzido, quer no aspecto fsico, quer psicolgico ou ambiental. Por isso 
nunca achei justo rotul-las como portadoras de distrbios de conduta, 

119




Dr. Henrique Klajner 

simplesmente. Seria mais lgico e justo que fossem chamadas de "porta- 
doras de distrbio de comportamento por conduta familiar inadequada". 

Em sntese, a criana  o fruto do meio ao qual pertence e conse- 
qncia direta de tudo o que a ela  apresentado como modelo para 
seguir, modelo que comea no mbito familiar e depois se amplia, por toda vida, nos modelos social, escolar, esportivo, etc. 

O mais importante a gravar  que pais so sempre, para os filhos, o 
que h de mais importante, mais confivel do mundo, merecedores dos 
maiores crditos e dignos das maiores atenes; suas palavras so leis, 
suas ordens so absolutas, suas belezas so extremas e inconfundveis, 
suas figuras so as mais marcantes e insubstituveis; e so vistos pelos 
filhos como receptculos de todas as virtudes universais. A f que os fi- 
lhos tm nos pais , por tudo isso, incondicional, inquestionvel e com 
tendncia a ser perptua, a no ser que fatos muito marcantes e muito 
importantes cheguem a alterar esse curso, mas no sem antes as crianas 
reagirem muito contra a alterao de to profundos sentimentos. 

Cabe neste momento a pergunta que todos pais, sem exceo, fazem 
ao ganharem os filhos: "como devemos proceder para que tudo saia a 
contento?" 

A primeira coisa que fazemos, ao responder,  lhes explicar como 
entendemos seja a evoluo esperada numa criana normal at a fase 
adulta. Esse entendimento sempre sofreu e continua sofrendo varia- 
es com o desenvolvimento cientfico e posso garantir que, desde o 
comeo de nossas atividades, os conceitos, as definies e condutas 
mudaram pelo menos uma dezena de vezes. As mudanas chegam a ser 
to rpidas que numa mesma famlia os pais podem eventualmente ser 
orientados diferentemente de um filho para outro. O importante  que 
fiquem tranqilos e convencidos de que as mudanas no acarretam 
diferenas significativas na educao de um filho para outro e no  de- 
vido a elas que um filho ser obrigatoriamente melhor ou pior que outro, mas que as mudanas apenas seguem as alteraes normais dos 
tempos em que esto vivendo e, no final, suas personalidades se equi- 
valero porque no ter havido traumas e desencontros circunstanciais 
nas condutas individuais. 

120 



A auto-estimulao precoce do beb 

Procuramos tambm explicar aos pais as condutas indicadas para 
atingir as finalidades desejadas, tanto racionais como emocionais, tentando antever, com base em estudos cientficos e na experincia pessoal, os 
seus provveis resultados, assim como o que deve acontecer se no forem 
adotadas,  exatamente o que pretendo fazer agora, exemplificando com 
comportamentos considerados inadequados nas vrias idades, relacio- 
nando-os s respectivas condutas preventivas. 

Como tudo em biologia, o que preconizamos no pode ter exatido 
matemtica. A variao do comportamento humano sofre influncias do 
tempo, do espao, e mais ainda no que tange  educao, devido  
enorme gama de fatores que interferem sobre todos os envolvidos com as 
crianas. 

As pessoas sabem que a normalidade do desenvolvimento da criana 
 avaliada de acordo com suas aquisies progressivas no decorrer dos 
dias, meses ou anos, que podem ser observadas e apontadas pelos mais 
experientes ou porpediatras. Aspessoas tmtambm noo deque quan- 
do alguma aquisio no corresponde ao esperado, no tempo, na qualida- 
de ou na intensidade, devem ser tomadas providncias no sentido de ve- 
rificar sua causa e san-la. Sabem ainda que, se a criana tem atitudes no 
compatveis, algo deve ser feito para corrigi-la. Na maior parte das vezes, 
a ajuda  solicitada ao especialista somente depois de tentativas empricas 
mal-sucedidas e baseadas em experincias individuais. Entendemos 
perfeitamente essa atitude emprica das famlias, dos pais, embora 
saibamos que a precocidade da interveno do especialista com certeza 
traz melhorias mais precoces. 

O mais importante, porm,  a preveno de problemas. Para isso, 
nada melhor, do que conhecer ambos, isto , os filhos e os problemas, 
saber como,quando eoque lhes oferecer, procurar prever, dentrodo pos- 
svel, sua evoluo normal dentro da realidade que se lhes pretende pro- 
por e reconhecer, com precocidade, eventuais desvios com o objetivo de 
tomar providncias rpidas. 

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Dr. Henrique Klajner 

A escolha do pediatra 

Sabemos que pouco ou quase nada se pode adiantar do recm-nasci- 
do. Ento, para que possamos conhec-lo bem  indispensvel um conta- 
to amistoso com os pais, se possvel, ainda antes do nascimento, entre o 
stimo e o oitavo ms de gestao, quando mdico e pais tm a oportu- 
nidade de se conhecer, saber as idias de parte a parte e poder troc-las, 
mostrar o que conhecem de crianas e o que desejam, suas intenes e, o 
que  mais importante, verificar se h uma empatia, isto , se as pretenses 
dos pais casam com o que o profissional pode lhes oferecer. Por seu lado, 

o profissional tem a chance de analisar pais e familiares, fazer um diag- 
nstico prvio e provisrio e comear o planejamento dos cuidados ao fi- 
lho especificamente para aqueles pais. Em geral, um ou no mximo dois 
encontros so suficientes para que o pediatra, ao expor suas idias, j 
comece a orientar os pais sobre os principais aspectos dos bebs, como, 
em geral, se comportam ao nascer, como se deve proceder com eles para 
que problemas desnecessrios no apaream, enfim, a conduta que a 
maioria anseia conhecer porque  exatamente logo aps a chegada da 
maternidade, nas primeiras horas, que os pais tm dificuldades em saber 
como manipular o beb para errar o mnimo possvel. 
O costume corriqueiro de esperar o beb nascer para depois escolher 

o profissional no  mais preconizado porque os poucos dias que 
transcorrem desde o nascimento at o primeiro contato como pediatra 
bastam para a ansiedade do casal subir s alturas e ser responsvel por 
erros de conduta a serem depois corrigidos no sem traumas, e tambm 
por transferir essa ansiedade ao beb e ao restante da famlia, fechando o 
crculo vicioso de maus procedimentos. 
Uma das primeiras coisas e mais importantes  os pais saberem que 

o comportamento e evoluo do beb so sempre, a priori, uma incgni- 
ta para todos, sem exceo. O nico modo de conhec-lo  dar oportu- 
nidade para que se manifeste livremente e, a partir disso, procurar atend- 
lo no sentido de satisfazer apenas e to-somente suas necessidades 
bsicas. Permitir a livre manifestao significa deix-lo livre da interfe- 
rncia do meio at que demonstre alguma intranqilidade, isto , nunca 
fazer algo por ele sem que antes tenha "pedido" atravs de algum gesto. A 
122




A auto-estimulao precoce do beb 

partir de ento deve-se procurar a causa da intranqilidade e satisfaz-la 
quando indicada. Essa conduta permite que se possa, aos poucos, inteirar-se das particularidades de cada criana, conhec-la, cuidar melhor 
e estabelecer com ela um relacionamento saudvel sob todos os aspectos. 

A idia de permitir a auto-realizao da criana deve ser imbuda nos 
pais desde o primeiro contato, antes ainda do nascimento da criana e 
mantida para sempre, o que no  difcil porque,  medida que vo viven- 
ciando a "evoluo feliz"de todos, os pais vo se convencendo da enorme 
validade desse procedimento. 

Assim procedendo, permite-se que o beb tenha, desde os primeiros 
dias, uma evoluo espontnea, auto-estimulada, com conhecimento 
gradual de limites que vai encontrando nas tentativas de auto-realizao 
progressiva e, por tudo isso, fcil de ser observada, avaliada e comparada 
com o que  aceito como normal e livre de influncias desnecessrias de 
terceiros. Nos primeiros dois meses, satisfeitas as necessidades bsicas de 
alimentao e de higiene fsica, o interesse do beb  dormir, como que 
tentando manter o estado em que passou os nove meses da gestao --estado de repouso, de sono quase contnuo, protegido pela me contra quase 
todos os tipos de problemas. Devido s enormes necessidades nutri- 
cionais, a fome  constante, sua manifestao  imperiosa para a sobrevida. 
A higiene fsica no  menos vital e, quando falta, causa desconfortos manifestados pela criana incontinenti. No h, portanto, motivo de preocu- 
paes quando a criana dorme e s acorda para mamar, para limpeza, 
para banhos ou para troca de roupas e fraldas.  um erro mexer com ela 
enquanto dorme, no  certo oferecer-lhe algo ou simplesmente mudar 
sua posio espontaneamente, porque de nada estaria precisando nessa 
condio; quando precisa de algo, chama chorando ou resmungando. O 
mximo que se deve fazer com relativa freqncia  chegar perto do bero 
e verificar se dorme sossegada. Assim, a criana aprende a valorizar a dor 
de fome como algo fisiolgico, dimensiona-a em suas reais propores, 
passa a consider-la normal e importantssima para sua subsistncia e so- 
brevida, aprende que os circundantes esto ali para supri-la em tudo que 
no consegue obter sozinha sem bloquear sua livre iniciativa. 

123 



Dr. Henrique Klajner 

Alimentao 

A refeio, em qualquer idade, deve ser interrompida quando a 
criana demonstra estar satisfeita. Nunca forar a comida, respeitando 
sua capacidade e necessidade de comer. Ela passa a relacionar, para sem- 
pre, o apetite apenas  necessidade intrnseca de se nutrir. 

Crianas "no comem", em geral, em ocasies de molstias, de irrupes dentrias ou fases em que isso ocorre sem motivos conhecidos; e, 
anormalmente, quando foram habituadas a comer de maneira nadequa- 
da. Os seguintes procedimentos provocam anorexia anormal: forar para 
que coma, agradar para que aceite "mais um pouquinho" (a criana de- 
senvolve intoler~ncia  comida por ter sido forada a algo indesejado ou 
por condicionar a recusa alimentar ao fato de conseguir chamar a ateno 
e obter agrado dos circunstantes exatamente para que coma) usando ar- 
gumentao material, como presentes, ou no material, como simples 
conversas, brincadeiras, etc. A anorexia aumenta se a criana sofrer casti- 
gos por no comer ou, se durante as refeies, o ambiente se transformar 
num circo de "espetculos" ou num campo de batalha. Muitas crianas 
submetidas a esse tipo de procedimento so condenadas  anorexia 
perene, ou at neuroptica, com chance de, no mnimo, se transformar 
num adulto "chato para comer". 

Comem demais as crianas que vem na alimentao exagerada a 
maneira de agradar o ambiente, cujos membros tambm comem demais. 
Passam a encontrar enorme satisfao ntima na superingesto porque 
assim so bem aceitas. Crianas que tm superalimentao, forada ou 
por imitao, podem apresentar bulimia em vez de anorexia no futuro, 
podem se tornar eternamente bulmicas e obesas. 

Crianas que s gostam de comer "porcarias" (alimentos pouco inte- 
ressantes do ponto de vista nutritivo e fora do cardpio saudvel) o fazem 
porque so de uso rotineiro no seu meio (aprende conforme o modelo fa- 
miliar) ou aprendem em outros meios de hbitos diferentes e que passam a 
ser tolerados, por algum motivo, no seu. So, em geral, oferecidas para 
substituir as refeies regulares quando recusadas pela criana. 

124 



A auto-estimulao precoce do beb 

Comer "fora de hora" acontece quando os pais permitem. Se o modelo familiar  assim, somos forados a aceitar porque  o modelo que 
deve ser ensinado s crianas. Nesse caso, com toda certeza, dever ser 
procedida, no futuro, adaptao aos horrios socialmente aceitos quan- 
do comearem a freqentar outros ambientes. Nada impede que a crian- 
a se adapte simultaneamente aos dois costumes, ao de casa e ao de fora, 
e conviva bem com ambos. Mas, se o hbito de comer fora de hora  
mantido e no coincide com o modelo familiar, a criana fica impedida 
de conviver com os pais e irmos nos horrios normais das refeies, 
sofrendo, por conseguinte, retardo em aquisies importantes no tocante  sociabilidade, ao comportamento  mesa, ao equilbrio emocional familiar, alm de prejuzos 
nutricionais pelo fato das "comidas 
extras" comprometerem a boa aceitao das regulares, sabidamente mais 
balanceadas e nutritivas. 

Hbitos alimentares viciosos como ingerir leite em mamadeiras at 
idades mais avanadas (alm de um ano e meio de idade) levam a criana 
ao comodismo de ter um alimento farto e fcil de ingerir, mas com os in- 
convenientes de ser hipercalrico (engorda), de ser pobre em protenas 
(contribui muito pouco para a "construo" do organismo), de matar f- 
cil, rpida e precocemente a fome e impedir a aceitao de alimentos mais 
importantes, de provocar as famosas cries rampantes destruidoras dos 
dentes, alm de promover a fixao oral, isto , a criana se prende  
primeira fase da sua vida, a oral, na qual ela tem todas sensaes pela bo- 
ca. A fixao oral faz com que a necessidade de sugar se prolongue em de- 
masia, crie dependncia  suco com possibilidade de a criana conti- 
nuar mantendo essa necessidade e de sempre precisar ter alguma coisa na 
boca para se manter bem. A boca , ento, mantida como rgo principal 
utilizado pela pessoa em todas as idades, para obter prazer ou para "gas- 
tar"a energia acumulada em momentos de tenso e ansiedade. Roer 
unhas, chupar dedos e, como adulto, fumar ou ter sempre algo na boca 
para chupar ou mastigar podem ser conseqncias diretas do hbito de 
mamar alm do tempo necessrio. A bulimia e a obesidade, to temidas 
nos dias de hoje, podem ter tambm sua origem nas mamadeiras manti- 
das alm do tempo normal. 

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Dr. Henrique Klajner 

Mamar nos seios alm dos dez meses de idade preconizados leva  
desnutrio pelo fato do leite materno entrar em franco descenso a partir 
desse perodo e no conter tudo o que a criana necessita depois dessa 
idade. Estudos mostram que, se a amamentao nos seios continua, de- 
pois de catorze meses, o leite volta ao seu primeiro valor nutritivo. Nos 
dias atuais, no se mantm alm dos dez meses porque os prejuzos na 
rea psicolgica--fixao oral, adependncia afetivamaterna erecusa a 
outros alimentos --so piores do que sua suspenso. 

Agradar para comer pode levar a criana a outros hbitos viciosos 
como comer bem s quando adulada ou quando em lugares de sua 
preferncia e acompanhada pelos mesmos objetos e pessoas (na mesma 
sala, no automvel, com o mesmo prato e talheres, brinquedos, televiso, 
brincadeiras); selecionar alimentos, escolhendo os que nem sempre so 
de bom valor protico-calrico, recusar-se a mastigar e ter nuseas com 
alimentos em pedacinhos, no beber em recipiente que no seja a ma- 
madeira, mesmo em idades nas quais j seria normal faz-lo; aceitar ape- 
nas lquidos que tenham algum sabor (recusa de gua); no comer bem 
em sua prpria casa mas sim em outros lugares como restaurantes ou casa 
de parentes; comer bem s quando muda freqentemente de lugar e de 
utenslios ou, ao contrrio, s aceitar comer quando se certifica de que os 
alimentos so os mesmos de sempre. A no aceitao adequada de remdios tambm se enquadra na m conduo da ingesto oral. 

Todos os exemplos citados so apenas as queixas mais freqentes de 
pais descontentes, incomodados e desesperados que nos procuram por 
no saber como lidar com suas crianas, nas mais variadas idades, quan- 
do apresentam tais distrbios de comportamento. Insistimos no fato de- 
les ocorrerem principalmente pela m orientao recebida pelos pais ou 
por eles mesmos terem insistido em no acreditar, no confiar e no 
seguir as orientaes adequadas. 

O grande "segredo" para uma aceitao alimentar normal  exata- 
mente o que foi dito acima: oferecer  criana, em primeiro lugar, o que  
mais importante para ela de acordo com as orientaes do pediatra que a 
acompanha, visando oferecer, tambm atravs dos alimentos, estmulo 
para evoluir, tanto no tocante ao aparelho digestivo e  nutrio como ao 

126 



A auto-estimulao precoce do beb 

desenvolvimento neuropsicomotor (alimentos estimulam a motilidade 
da musculatura bucal e facial, o reconhecimento, psicolgico, ambiental, 
sociocultural), assim como satisfazer a necessidade de evoluir por si, com 
amparo apenas em suas necessidades bsicas e sem tolher sua auto-rea- 
lizao. 

Assim, amamentar exclusivamente nos seios pelo maior tempo pos- 
svel --at o limite mximo de dez meses --propicia ao beb a oportu- 
nidade de, atravs da suco potente, exercitar a musculatura nela en- 
volvida, tanto da face como da boca. Esse exerccio representa, para o 
futuro: articulao melhor e mais correta das palavras ensinadas e apren- 
didas; melhor aceitao e mastigao dos alimentos slidos e definitivos; 
irrupo dentria facilitada e com menos sofrimento; tanto os dentes de 
leite como os definitivos mais bem posicionados, mais saudveis e em 
gengivas mais fortes; circulao da saliva pela boca tornando a deglu- 
tio fcil e rpida, evitando excesso de baba e higienizando sobremaneira os dentes. 

O bom hbito alimentar  o resultado de condutas que estimulam e 
respeitam a capacidade crescente das crianas para aceitar comida. Elas 
devem mamar exclusivamente leite materno at cerca de cinco ou seis 
meses de idade, quando a natureza humana comea a exigir elementos 
nutritivos que o leite no contm. A amamentao no seio torna a criana mais apta a aceitar, mastigar e digerir alimentos mais substanciosos, de 
introduo gradual conforme a capacitao. 

Aos trs ou quatro meses de idade, ela comea a receber sucos de fru- 
tas, aos seis meses, as papinhas de legumes peneiradas e enriquecidas com 
carne, depois gema de ovo, sobremesas de frutas e depois doces, gelia de 
mocot, gelatinas; aos sete meses se introduzem, junto  papinha no 
mais peneirada mas s amassada com garfo, as "comidinhas" slidas ou 
semi-slidas esmagadas, tais como arroz com caldo de feijo, batatinhas 
amassadas ou macarro, fiapos de carne, legumes refogados e paulatina- 
mente se introduzem alimentos cada vez mais consistentes visando 
chegar, com poucas restries,  dieta dos adultos por volta dos doze 
meses, sempre respeitando as possibilidades e limitaes individuais e 
adaptando o cardpio ao seu prprio tempo e espao. Aos oito ou nove 

127




Dr. Henrique Klajner 

meses j se libera a dieta, permitindo que se dem  criana refeies se- 
melhantes s da famlia, evidentemente amassadas, evitando apenas o que 
poderia ser alergizante para o beb nessa idade: carne de porco, comidas 
gordurosas, alimentos muito temperados, frutos do mar, peixes, clara de 
ovo, morango, manga, abacaxi e outros, sendo progressivamente adi- 
cionadas "novidades"  dieta, medida que sevai chegando idade de um 
ano. As refeies devem obedecer  orientao de cada especialista quan- 
to aos alimentos a serem oferecidos, aos horrios, ao tempo para comer,  
freqncia, sempre dentro do que determina a "constituio" familiar, 
com respeito  disposio para comer da criana. 

Essa disposio  um dos tpicos mais importantes e onde os pais 
mais tropeam na questo alimentar de seus filhos.  pensamento dos 
pais e familiares que a criana, por ser imatura, precisa comer muito, e 
sempre, para crescer e se desenvolver dentro de parmetros normais. Mas 
a coisa no  bem assim. A criana  um ser vivo e, exatamente porque 
est em constante desenvolvimento, sofre, em cada etapa, influncias das 
mais variadas, desde fsicas (irrupo dentria, doenas, perturbaes 
ambientais), emocionais (prprias ou influenciadas pelo ambiente), 
climticas, do lugar e pessoas com as quais entra em contato, enfim, 
muitos fatores podem afetar o apetite, aumentando ou diminuindo a 
aceitao alimentar. 

 interessante observar que os pais se preocupam com o apetite da 
criana quando a aceitao diminui e no quando aumenta; quando au- 
menta, preocupam-se menos e o fazem por no querer filhos obesos 
(apesar de haver quem insista para ter um filho gordo). O grande erro (a 
meu ver  um crime) dos pais  no se conformar com as alteraes nor- 
mais do ritmo alimentar da criana e comear a interferir, forando quan- 
do h recusa ou tirando quando quer comer muito, dando a entender que 
seu comer ou no comer vale mais para eles prprios do que para ela, a 
criana. Se o "comer" tem grande valor para os pais e se eles o desejam 
tanto, inconscientemente a criana entende que " melhor aumentar o 
preo desse valioso bem, receber deles mais em matria de ateno, recu- 
sando a comida e no aceitando-a de imediato". A no aceitao traz  
criana um enorme lucro em ateno, carinho, brincadeiras, presentes, 

128 



A auto-estimulao precoce do beb 

televiso, concesses como comer no carro, "e esse preo aumenta  medida que os pais vo pagando o exigido" at que se descobrem vtimas de 
chantagem emocional: "ou d o que quero ou no como". Mesmo que 
apliquem castigos fsicos ou morais para corrigir tal comportamento, os 
filhos mantm a conduta chantagista, aprendem a suportar os castigos- 
porque os "presentes que recebem" representam "pelo menos alguma 
ateno garantida" e constante dos pais ou dos que deles cuidam. Sentem- 
se alvo dessa permanente ateno, identificam-se como motivo principal 
dos comentrios familiares e comeam ase comportar como estrela 
maior da sua constelao e, ainda inconscientemente, passam a "trocar" a 
satisfao de matar a fome pela comida (sade fsica) por uma falsa sensao de segurana emocional conferida pela atitude superprotetora dos 
circunstantes, que terminam por bloquear e impedir o desenvolvimento 
dos seus prprios mecanismos naturais de adaptao e de segurana. As 
crianas acabam ficando fisicamente fracas, desestimuladas, sempre  es- 
pera da ajuda de terceiros para qualquer atividade, e com algum tipo dos 
desvios de comportamento alimentar descritos ou, talvez, outro desvio de 
comportamento ainda no comentado. 

A fase oral da criana vai desde o nascimento at aproximadamente 
dezoito meses de idade, perodo durante o qual a alimentao  uma de 
suas principais atividades inclusive estimuladoras. O ato de chupar chu- 
peta participa dessa atividade, estimulando a funo oral, assim como 
levar tudo  boca para morder e para reconhecimento funciona tambm 
como estimulante da atividade oral. Ao passar suavemente para a fase 
seguinte, a gnito-anal, a boca vai deixando de ser to importante para a 
criana e, por isso, a alimentao vai paralelamente deixando de ser o modo pelo qual ela consegue ter satisfao, chamar a ateno ou chantagear 
a famlia, pois esses procedimentos vo sendo gradualmente transferidos 
aos genitais e ao nus. A medida que essa passagem vai se processando, a 
recusa alimentar por distrbio de comportamento pode comear a desaparecer, a criana pode at comear a comer bem, mas a problemtica 
emocional da insegurana adquirida pelos erros alimentares  incorpora- 
da  personalidade e passa ase manifestar na rea especfica da fase 

seguinte. 

129 



Dr. Henrique Klajner 

A fase gnito-anal  caracterizada pela aquisio, aps conscientiza- 

o e aprendizado, do controle esfincteriano, que fatalmente fica prejudi- 

cado quando existe algum problema anterior.  como se a criana no 

conseguisse assumir uma fase posterior sem ter antes resolvido problemas 

da precedente. Esses controles podem sofrer atrasos ou distores causa- 

dos pela problemtica transferida, atrasos que, em geral, no so com

preendidos pelos pais. Eles costumam dizer: "agora que resolvemos o pro- 

blema alimentar, agora que j come bem direitinho, surge o problema de 

xixi ecoc." 

Na realidade, o "passar a comer bem no significa que a problemti- 
ca da criana tenha sido resolvida; nada ainda foi resolvido, nem por ela 
nem por ningum, apenas foi transferido para a rea de projeo espec- 
fica da fase para a qual a criana passou. Qualquer problemtica no defi- 
nitivamente resolvida vai sendo transferida, com a sucesso normal das 
fases de evoluo, de rea para rea at chegar a um ponto em que  su- 
blimada (no resolvida) pela criana e pode, a qualquer momento, criar 
srios distrbios de comportamento que, em muitos casos, s conseguem 
ser resolvidos por tratamentos psicolgicos. Portanto, insistimos para 
que, desde os primeiros dias, as condutas sejam as mais bem orientadas e 
adequadas para no haver possibilidade de seqelas futuras resultantes de 

problemticas no resolvidas. 
A alimentao, importante durante toda a vida,  ainda mais funda- 
mental durante os dois primeiros anos, perodo em que influencia o de- 
senvolvimento de todos os departamentos dos cuidados  criana[ 
Respeitar a aceitao alimentar espontnea da criana como nico 
parmetro de suas reais necessidades, acreditar no instinto de sobre- 
vivncia que ela, como todos, tambm tem; no forar para que coma, 
no diminuir aleatoriamente a quantidade de comida em casos de bu- 
limia e sim, trocar a dieta por outra tambm satisfatria, porm menos 
calrica; oferecer refeies em nmero e durao orientados pelo especialista. So essas as condutas mais indicadas para uma perfeita sade e 
timo~,' hbitos em geral, entendendo que os bons hbitos alimentares 
nos dois primeiros anos so a base para o desenvolvimento global, presente e futuro. 

130 



A auto-estimulao precoce do beb 

Chupeta 

Outro assunto que preocupa os pais  o uso de chupeta. Quando in- 
troduzir, por que introduzir, quando e por que tirar, quais as vantagens ou 
prejuzos so dvidas constantes e, mesmo quando so bem orientados, 
enfrentam problemas que, com enorme freqncia, so trazidos para o 
pediatra ajudar a resolver. 

A chupeta  um objeto que se d  criana por vrios motivos. Ela 
satisfaz  necessidade de suco do recm-nascido por ser a boca, como j 
dissemos, nos primeiros meses, o rgo de relao mais importante e por 
ser atravs dela que a natureza promove a alimentao, o maior interesse 
do beb e condio sine qua non da sobrevivncia. Instintivamente o beb 
precisa sugar, num exerccio que visa fortalecer a musculatura da boca 
para, atravs dele, aumentar o potencial da prpria suco, da deglutio, 
da ingesto. 

Quando amamentada nos seios, esses exerccios so uma constante 
porque os seios oferecem enorme resistncia natural  sada do leite. Nos 
perodos entre as mamadas a necessidade de sugar continua e se traduz 
por um reflexo que leva a boca a sugar quando sofre qualquer estmulo. 
Alm de ser um modo da criana continuar mantendo contato com a me 
e com o ambiente, a chupeta, principalmente a conhecida como ortodn- 
tica,  o estimulante ideal para a suco porque seu formato imita o bico 
dos seios durante a mamada, incrementando os exerccios musculares 
periorais. 

A suco  uma necessidade to grande que, se no for satisfeita pela 
chupeta, o beb arranja outro jeito para continuar sugando --como seu 
prprio dedo ou algo que esteja ao seu alcance. A vantagem da chupeta  
que ela pode ser retirada, no devido tempo, mais facilmente do que outros 

objetos como a fronha ou o prprio dedo, uma vez que  apenas um 
acessrio transitrio e no definitivo. 

Outro motivo para oferecer chupeta  que a amamentao nos seios, 
por ser mais trabalhosa para o beb, por requerer mais disposio e 
"preparo fsico" da boca para sugar, necessita de msculos bucais exerci- 
tados e fortes, o que  conseguido oferecendo-a nos intervalos entre as 
mamadas e durante o sono.  interessante notar que a suco da chupeta 

131




Dr. Henrique Klajner 

diminui durante o sono e,  medida que o beb cresce, vai diminuindo a 
necessidade geral de exercitar a suco porque a musculatura, j mais de- 
senvolta, passa a dispensar esse treino. A chupeta sempre estimula a 
suco no beb pelo simples contato com a boca porque, por menor que 
seja, ela  sempre maior do que a boca da maioria dos bebs e funciona, 
dentro dela, como "verdadeiro corpo estranho", estimulando a sua movi- 
mentao e a suco. 

A medida que a criana cresce, mesmo com toda a musculatura mais 
desenvolvida, atuante e, portanto, sem necessidade da chupeta para exer- 
citar, o chupar chupeta torna-se um hbito que ela passa a reclamar em 
todos os momentos. O ato de sug-la representa ento, como dizem os 
pais, "um calmante" ou "um cala-boca" para aquietar. 

No vemos nenhum inconveniente em continuar seu uso at a idade 
de um ano de idade. A partir dessa idade a retirada da chupeta e das mamadeiras visa prepar-la para o fim da fase oral, da qual deve sair gra- 
dualmente para assumir inteiramente a gnito-anal entre dezoito e vinte 
e quatro meses. Se, por qualquer motivo, a chupeta  mantida alm dessa 
idade, a criana entende que ela continua fazendo parte da nova fase, en- 
tende tambm que a anterior, a oral, no foi totalmente ultrapassada, e 
esse uso indevido e suprfluo da boca lhe permite no assumir ou assumir 
apenas relativamente a prxima fase. Quanto mais for adiada a retirada da 
chupeta depois da idade de um ano, mais ser reforada a dependncia a 
ela e  fase oral, por representar, para a criana, o passaporte que lhe d 
possibilidade de continuar a ser considerada "infantil" e merecedora das 
atenes prprias de uma criana mais nova. Considerando-se dessa 
maneira, ela continua a reclamar, e cada vez mais, a ateno dos circuns- 
tantes e a exigir tratamento de lactente. Se for satisfeita em suas reinvidi- 
caes, entende que o meio realmente assim deseja, acomoda-se e tem sua 
auto-estimulao bloqueada, o que retarda novas aquisies e desenvolvi- 
mento. A retirada da chupeta provoca a libertao da criana para novas e 
progressivas aquisies por se ver sem as "amarras" que a prendiam  fase 
anterior e movida pelo interesse crescente que todos tm de evoluir. 

Parar de oferecer chupeta com um ano  natural, fcil e no 
traumtico, Quanto mais se adia a retirada, mais traumtica ela se torna 
pela maior dependncia que vai sendo adquirida com o passar do tempo, 

132




A auto-estimulao precoce do beb 

mais a criana chora e reclama por ela e mais difcil fica para os pais su- 
portarem o "sofrimento" da criana e o deles prprios. Quanto mais se 
adia, mais presa ela fica a idades anteriores, mais difcil (por "ser infantilizada") se torna a aquisio da fala perfeita, mais difcil tambm 
adquirir o controle esfincteriano por no ter podido assumir a fase gnito-anal na plenitude ideal, enfim, mais difcil ser adquirir em tempo ti- 
mo tudo o que vem pela frente. O seu uso prolongado, alm de tudo, 
deixa a musculatura da boca flcida porque, uma vez menor do que a bo- 
ca da criana crescida, passa a j no estimular a suco mas ase tornar 
um "apndice" a ser mantido e lambido para satisfazer um costume oral 
imprprio para a idade atual. 

Quando, enfim, a chupeta  retirada com esse costume imprprio i 
estabelecido, a criana entra no que se chama de "fixao da fase oral", que 
a obriga a ter sempre alguma coisa na boca para sugar. Chupa dedos, depois masca chicletes, ri unhas ou come freqente ou continuamente 
para, com tudo isso, conseguir satisfao. Em qualquer setor de suas ativi- 
dades futuras, ao enfrentar problemas e resolv-los, poder lanar mo da 
boca como local de fixao emocional, apresentando alguma das mani- 
festaes acima que aliviam as tenses provocadas pela ansiedade. 

Queixas como retardo na aquisio da fala, dislalias (fala distorcida), 
vcio de chupar dedo ou roer unhas, baba excessiva por flacidez da mus- 
culatura da boca, dependncia constante da chupeta para tudo, principalmente nos momentos de passar por situaes aflitivas ou de dificuldade, 
atraso no controle de xixi ecoc com enurese (perder urina involuntaria- 
mente) noturna ou diurna, podem ter como causa, entre outras, o uso 
inadequado ou manuteno indevida da chupeta. Costuma-se dizer que 
enquanto a criana usa chupeta ela se mantm "infantilizada", presa a 
idades inferiores. Se for retirada muito tardiamente ela tambm pode ser 
causa de crises de birras aparentemente inexplicveis, de dificuldade de 
conciliar o sono, motivo para iogar-se ao cho, de enfrentar pessoas de 
maneira agressiva, como se a manuteno dela fosse autorizao para 
continuar ase comportar como "criancinha". 

A retirada da chupeta deve ser paulatina e suceder a das mamadas. 

Primeiro, deve deixar de ser oferecida nos perodos de viglia, apenas 

antes de dormir. Passada uma semana, deixa-se de d-la antes do sono 

133




Dr. Henrique Klajner 

diurno e, finalmente depois de mais uma semana, antes do noturno. 
Pouco a pouco a criana se desliga desse hbito, pode at continuar recla- 
mando por alguns minutos antes de adormecer e, ao cabo de no mximo 
trs a cinco dias, esquece que a chupeta existe. 

Um dos erros freqentemente cometidos pelos pais , quando do 
nascimento do segundo beb, tornar a oferecer chupeta ao mais velho, 
pela insistncia que este faz devido ao cime que sente ao ver o irmozi- 
nho chupando. Entende inconscientemente que, com ela na boca, pode 
conseguir se nivelar ao menor no sentido de atrair tambm, ou mais para 
si, a ateno e os cuidados que at h pouco tempo eram exclusivos seus e 
que, agora, esto sendo divididos entre os dois. 

A maioria das crianas, na idade em que ganham um irmo, j tem 
capacidade para entender (desde que devidamente auto-estimulados) 
no ser essa a melhor maneira de conseguir ateno. Basta que os pais re- 
sistam  idia de voltar a oferecer chupeta e retroceder a condutas j 
ultrapassadas e insistam em apresentar ao mais velho possibilidades de 
adquirir novos conhecimentos e passar-lhe a noo de que a melhor 
maneira de atrair ateno  continuar a evoluir com novas e atualizadas 
aquisies prprias para a sua idade, mas nunca retrocedendo pelo uso de 
chupetas e mamadeiras, smbolos de um tempo que j passou. 

Para se firmar o propsito de no lhe dar chupeta e mamadeiras, 
deve-se neg-la terminantemente e, depois de no mximo sete dias, durante os quais se continua com as condutas estimuladoras, o mais velho 
acaba por se convencer de que essa  a realidade, de que realmente con- 
segue mais ateno e aceitao do seu meio atravs da evoluo e passa a 
no mais querer se nivelar com o menorzinho fazendo o que este faz. 

A auto-estimulao precoce 

Uma outra grande preocupao dos pais  a eventual possibilidade 
do beb, depois a criana, depois o adolescente no ter desenvolvimento 
dentro dos limites aceitos como normais. Temos a dizer e repetir in- 
definidamente que, se a criana nasce normal, sem qualquer tipo de 
doena gentica (de transmisso hereditria) ou congnita (adquirida intra-tero durante a gestao) e se forem adotadas as condutas ideais, ade- 

134




A auto-estimulao precoce do beb 

quadas para os dias atuais, a criana certamente ter desenvolvimento 
normal. J dissemos e repetimos inmeras vezes que o objetivo com as 
crianas  que sejam felizes e, para ns, felicidade  ter a possibilidade de 
desenvolvimento harmnico, adaptado ao modelo familiar e social sensu 
latu, de maneira no traumtica, com auto-satisfao pela auto-realizao 
que nada mais  do que obter todas as aquisies usando o mximo de 
suas potencialidades com o mnimo de ajuda externa a lhe diminuir a auto-valorizao. 

Por isso, depois dos primeiros dois meses de vida, durante os quais a 
criana diminui progressivamente o tempo de sono, quando ela comea a 
sinalizarcom o aumento do tempo deviglia o interesse por conhecer o que 
a circunda, deve-se iniciar a auto-estimulao. Na verdade, a auto-estimulao j se inicia desde que nasce, com a conduta adequada do aleitamento 
e da satisfao das necessidades apenas basais do beb em todas as higienes. 

Vejam bem, no falamos aqui em estimulao. Ningum deve ficar 
perto dele incrementando qualquer coisa que seja, como movimentos, 
audio, fala, etc. Nos perodos em que o beb fica acordado, j alimentado e trocado, deve-se coloc-lo no cho coberto por lenol ou cobertor ou 
edredom finos que no tirem ou diminuam a dureza, cerc-lo com obje- 
tos de sua convivncia como brinquedos, bonecos, objetos de cores, texturas, formas e consistncias mais variadas e deix-lo sozinho, a olhar, 
observar, estudar e aprender o ambiente em que se encontra. Inicialmente 
se interessa pelos objetos mais prximos e, com o tempo, estende seu in- 
teresse para os mais distantes. No cho, ao mesmo tempo que desaparece 
a possibilidade de sofrer quedas acidentais, sua "dureza" leva-o ao cansao 
natural e normal de permanecer na mesma posio e fora-o a conse- 
qentes e contnuas mudanas que por si s j so exerccios motores a 
desenvolver sua muscultatura, ponto inicial do "aquecimento das 
mquinas" que o propulsionaro para a movimentao necessria, no 

sentido de satisfazer a nsia inata de se desenvolver pelo aprendizado, pe- 

lo aperfeioamento contnuo e progressivo pela vida afora. 

Comea pegando objetos, a conhec-los levando-os  boca, mani

pul'los, aprender suas caractersticas tteis, trmicas, seus paladares e 

cores, enfim, estimula assim, alm dos movimentos, todo seu potencial 

cognitivo atravs da estimulao dos cinco rgos dos sentidos. Esse  o 

135




Dr. Henrique Klajner 

ponto de partida para a aquisio de capacidades futuras, anlises, snteses, dedues e concluses.  de fundamental importncia limitar a 
interferncia dos circunstantes  satisfao to-somente das necessidades 
bsicas, o que significapermitir que acriana sesatisfaa e desenvolva por 
si s, e tenha para si todo o "mrito" das aquisies, com exclusividade. 
Essa intuio  incorporada desde cedo  personalidade da criana e lhe 
d a certeza de poder chegar sozinha a sucessos progressivos e garantidos, 
certeza que alimenta continuamente a vontade de evoluir e fecha o crcu- 
lo da auto-estimulao. 

A descoberta contnua e permanente de "novidades" em seu meio 
mais a sensao de auto-realizao lhe do auto-satisfao, auto-estima, 
amor-prprio, segurana e felicidade. Certamente ser uma criana feliz, 
sempre adaptada ao seu meio ambiente e, com certeza, um adolescente 
feliz e um adulto feliz, 

Quando o exposto  adotado, o desenvolvimento normal da criana 
 certo e se d em todos os sentidos. As aquisies vo num ngulo aber- 
to ao infinito e com a grande vantagem de a qualquer momento ser possvel descobrir eventuais retardos ou aceleraes (como nos hiperativos). 
A evoluo e comportamentos quando acompanhados com auto-estimu- 
lao precoce chamam a ateno para possveis problemas, de outra forma despercebidos nos exames clnicos. A partir da observao e conse- 
qente constatao, esses possveis problemas podem ser investigados e 
diagnosticados. Tive, por exemplo, um caso de uma criana que no 
seguiu, por motivos de orientao da famlia, a conduta que pre- 
conizamos. Aos sete meses os pais perceberam que a criana apresentava 
um retardodeevoluo, perfeitamente explicvel pelofatodeno aterem 
colocado no cho a partir dos dois meses de idade e, portanto, no teve 
oportunidade para as aquisies. Argido a respeito, pedi para que passassem a coloc-la no cho pelo maior tempo possvel para que pudsse- 
mos afastar a possibilidade da falta de auto-estimulao ser a causa do re- 
tardo e pensar em alguma patologia se no houvesse recuperao 
adequada. Continuaram a no deix-la no cho e, depois de algum tempo, levaram-na para ser consultada por um neuropediatra que diagnosti- 
cou a doena fenil-cetonria, diagnstico que, sem dvida, poderia ter si- 
do feitomuito maisprecocemente seacriana tivesseficado no cho,com 

136




A auto-esfimulao precoce do beb 

a total liberdade de se auto-estimular e, assim mesmo, tivssemos cons- 
tatado o atraso. H mais de vinte anos essa doena tem sido rotineira- 
mente investigada nos berrios de So Paulo atravs do j difundido e 
conhecido "exame do pezinho". O seu diagnstico precoce permite tomar 
providncias dietticas imediatas no sentido de no se permitir a ingesto 
de protenas e, com isso, evitar danos indelveis sobre o sistema nervoso. 
Quanto mais tardios a descoberta e o tratamento, mais precoces e mais 
graves so as leses. Estranhamente o exame do pezinho dessa criana, 
feito logo aps o nascimento, ainda no berrio e em tempo adequado, foi 
normal, afastando em nosso raciocnio a possibilidade de ela ser portado- 
ra dessa patologia. Felizmente a criana, que contava na ocasio com oito 
ou nove meses de idade, no apresentava ainda sinais de leses ou danos 
neurolgicos evidentes, indicando esse fato um excelente prognstico. 
Enfatizo, portanto, o cho como o melhor elemento para o auto-estmulo, 
para um timo desenvolvimento dos bebs e para auxlio no diagnstico 
precoce de inmeras patologias com ou sem retardo neuropsicomotor e 
relacionadas aos aparelhos osteomuscular, sistema nervoso, componente 
emocional e cognitivo. 

Colocada no cho a partir dos dois meses, a criana comea a rodar 
entre trs a quatro meses, vira-se de bruos com cinco a seis meses, aos 
seis meses senta-se com apoio das mos para a frente, aos sete consegue 
manter-se sentada sem apoio, engatinha (no  obrigatrio) aos nove ou 
dez meses, caminha ou troca passinhos com apoio aos dez ou onze meses 
e entre doze e catorze meses anda sem apoio. A partir de ento, as 
aquisies na rea motora so de contnuo aperfeioamento, evoluindo 
progressivamente para a locomoo e para a plena capacidade de movi- 
mentao de todos os segmentos do corpo. O desenvolvimento motor 
segue o modelo institudo pela famlia, assim como seu desenvolvimento 
em todas as outras reas. 

137




Dr. Henrique Klajner 

Modelo familiar 

Uma das coisas mais importantes,  o modelo familiar. De acordo 
com nosso entendimento, esse modelo se constitui no que a famlia  e, 
principalmente, no que os pais so. O "ser" neste caso  o verbo "ser" con- 
jugado na sua realidade e na sua exata acepo. Aps o parto, o contato 
com o meio inicia, ou continua, o aprendizado visando ao crescimento e 
evoluo, objetivos que ela j tem intudos. Por esse motivo, tudo o que Se 
lhe apresentar ser considerado por ela extremamente vlido, ela far tudo ao seu alcance para de tudo aprender, ali poder conviver, sobreviver, 
agradar e ser bem aceita, porque sua aceitao pelo meio ambiente  
condio essencial para alcanar a felicidade. 

Na prtica, porm, o bvio descrito acima no costuma acontecer, 
pelo menos na maior parte das famlias. Por exemplo, um pai nervoso 
tenta a todo custo, quando em estado de irritao, disfarar seu estado 
emocional com o beb e com outras pessoas, esforando para mostrar-se 
artificialmente calmo e tolerante. A me que gosta de ouvir msica no o 
faz imaginando poder eventualmente prejudicar o bem-estar da criana. 
Pais abrem mo de preferncias individuais para agradar familiares ou 
amigos. Enfim, atitudes so tomadas pelos responsveis pelas crianas 
que contrariam suas prprias personalidades assim como hbitos nor- 
mais do ambiente, de modo a "se adaptar  presena da criana". 

Consideramos ilgico esse comportamento de pais pois o que deve 
ser apresentado aos filhos, desde o incio,  exatamente o ambiente real. 
Mesmo tendo tipos de personalidades que julgam inapropriadas ou 
tomem atitudes consideradas imprprias, ou inadequadas, ou fora de 
moda, ou incompatveis com o que  aceito, pais so e sero sempre pais, 
devem ser conhecidos e reconhecidos pelos filhos na sua autenticidade e 
honestidade, juntamente com todo o ambiente fsico do lar, para que sir- 
vam de base indelvel ao aprendizado da criana. Esta base deve permitir 
uma adaptao perfeita ao meio ambiente para que consiga responder s 
suas solicitaes de modo congruente e lhe permita ser bem aceita e en- 
contrar a felicidade. Muitos pensam que, se oferecerem um ambiente ina- 
dequado sob certos aspectos, iro prejudicar a evoluo dos filhos. Pode 
at ser verdade no incio mas, a mdio e longo prazos, tem mais valor a 

138




A auto-estimulao precoce do beb 

criana conhecer uma base firme, honesta, autntica na aquisio de se- 
gurana e confiana, embora possa no ser a ideal, para depois, com se- 
gurana e confiana, "lapidar" o aprendizado atravs da auto-estimulao 
e da participao dos pais e familiares, quando podero proceder s cor- 
rees de condutas, tanto deles como as das crianas. 

O beb  capaz de sentir, atravs da ansiedade das pessoas, a vibrao 
negativa que sobre ela incide, oriunda da insegurana que essas pessoas 
apresentam e transmitem quando com ele estabelecem contatos no fiis 
 realidade, s suas personalidades e ao ambiente. Essa insegurana trans- 
mitida deixa o beb inseguro (a segurana dele depende da do ambiente), 
e isso tende a aumentar porque condutas infiis no conseguem se man- 
ter permanentemente inalteradas, elas variam, fazendo com que o mode- 
lo familiar se torne oscilante e, por ser inconstante, cria insegurana cres- 
cente na criana pela incerteza do que pode ou no nele "encontrar  e 
com o que "pode ou no contar" no seu meio. Como conseqncia, dian- 
te da indefinio, passa a no saber como a ele reagir para agradar e nele 
se situar. Portanto, vale mais um ambiente seguro, que inspire confiana 
(embora no seja o mais desejado) para passar segurana e confiana  
criana do que tentar seguir modelos "importados", ou fantasiosos no 
concordantes com a realidade familiar. 

A criana sempre segue o modelo familiar e quanto mais honesto e 
autntico for, mais segura e confiante na famlia ela se torna, tendo, como 
conseqncia, um firme desenvolvimento, A partir da segurana e confiana adquiridas, o rumo da evoluo depende exclusivamente do que 
for apresentado e ensinado. A auto-estimulao leva ao aumento de auto- 
confiana e auto-segurana pelos sucessos conseguidos atravs dos 
prprios esforos, ciclo que se auto-alimenta indefinidamente. 

A medida que cresce, a criana assim conduzida vai se destacando 
das outras que no tiveram oportunidades semelhantes, nos sucessivos 
ambientes pelos quais passa, por ser mais ativa, mais disposta, mais inteligente, mais apta, mais alegre, mais auto-realizada e, por conseguinte, 
mais feliz, destaca-se e chega a liderar. Sente "o mundo a seus ps" e, capaz 
de tudo, investe em suas conquistas, posiciona-se contra tudo o que pos- 
sa atrapalhar a enorme nsia de aprender, de fazer, de acontecer e chega a 

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Dr. Henrique Klajner 

um ponto em que, munida "de grande capacidade", passa a demonstrar 
mpetos de "querer governar", d ordens, exige e fica muito brava quando 
no lhe so permitidos os intentos. 

Os limites 

O importante, dependendo das leis da famlia,  desde o incio da 
auto-estimulao ir apresentando, ensinando e exigindo obedincia aos 
limites que so tolerados para cada atividade. Quando os limites so pro- 
gressivos e constantemente apresentados desde os primeiros minutos, 
alm da criana aprend-los e incorpor-los, vai-se formando, no seu en- 
tendimento e no seu comportamento, a noo de que limites sempre existem para tudo, que a liberdade de cada pessoa cessa quando comea a dos 
outros, simplesmente porque a vida  exatamente assim.  interessante 
notar que, quando se acompanha seu desenvolvimento, aos poucos, 
condicionada  existncia de limites para tudo, a criana, antes de qual- 
quer investida ou procedimento, pra, espera aprovao ou autorizao 
dos pais ou circunstantes. Estes passam a representar simultaneamente os 
papis de estimuladores e de limitadores. 

Nunca deve haver absolutamente qualquer tentativa contra a imposio dos limites nas crianas, uma vez que, para a coexistncia, a so- 
ciedade os impem permanentemente, e nada melhor do que as pessoas 
irem a eles se habituando aos poucos, e desde cedo. Eu afirmo sempre que 
a nossa vida  mais constituda de limites do que de liberdades. Se a crian- 
a for habituada desde cedo  presena deles, no estranhar, no futuro, 
ter que se enquadrar numa sociedade limitante. Ao contrrio de outra que 
teve uma infncia permissiva, com limites insuficientes ou indefinidos e, 
posteriormente, a revolta com sentimentos antagnicos resultantes do fa- 
to de ter que se enquadrar na mesma sociedade sem que os limites lhe te- 
nham sido ensinados mais facilmente no passado e ter, agora, de enfrentar 
sozinha as dificuldades de adaptao, frustrao por no ter "aquele todo 
poder" que a fizeram sentir e de ser forada a admitir e aceitar a existncia 
desses limites somente aps derrotas inevitveis. E mais, tudo acontecen- 
do aliado a um retardo das aquisies, aprendizado que a noo prvia da 
existncia de limites permite obter bem mais fcil e rapidamente, por evi

140




A auto-estimulao precoce do beb 

tar, alm de tudo, perdas de tempo dedicadas s retomadas de posio 
para correes. 

Na grande maioria, os pais s se conscientizam da necessidade dos li- 
mites quando deparam com os primeiros sinais de um comportamento 
indesejvel, depois de um tempo varivel de agrados e superofertas, durante o qual doaram muito em matria de ateno, carinho, objetos e bens 
materiais, dando "de tudo o que eles mesmos tiveram ou no", sem se 
preocuparem com o acerto ou erro de suas atitudes, nem com o mere- 
cimento ou no por parte da criana, nem, ainda, com a capacidade que 
ela tem de valorizar o que recebeu ou de associar o recebido com o even- 
to.  claro que, ao despertarem para corrigir sua trajetria, as dificuldades 
a serem enfrentadas para "colocar a criana nos eixos" vai depender de 
quanto tempo houver passado e o sucesso da correo, da disposio dos 
pais em enfrent-las. 

Os desvios de comportamento, em geral, sobrevm quando a crian- 
a, habituada a um tipo de regime, se v forada a troc-lo por outro no 
qual vislumbra a possibilidade de perdas ou interrupo no que vem ga- 
nhando ou, ainda, ser forada a fazer algo para merec-los. Mesmo que o 
regime substituto apresente maiores vantagens futuras no sentido de permitir uma evoluo mais certa em direo  auto-realizao e  felicidade, 
devido  falta de vivncia anterior com limites, ela no consegue antev- 
las. Ela ainda no consegue saber que, aceitando limites, ser levada  feli- 
cidade pela auto-suficincia e auto-realizao que vai adquirir, o que somente vem a conhecer depois de vivenci-los, , portanto, de suma 
importncia que os pais sejam conscientizados de que o grande esforo 
em "agentar" as birras e teimosia dos filhos, com o objetivo de elimin- 
las, sem atend-los nas exigncias acontece s no incio das mudanas 
porque depois de algumas vezes em que as tiverem imposto com os limi- 
tes, quando elas sentirem que, seguindo as orientaes do ambiente pas- 
sam a ser mais bem-sucedidas e aceitas, certificam-se das vantagens e 
aderem s mudanas e aos limites. Adaptadas ao novo condicionamento, 
passam a t-lo como verdadeiro, vlido e a exigir sempre os novos pro- 
cedimentos e a respeit-los. 

141 



Dr. Henrique Klajner 

Os pais dasavisados ou inexperientes, ao resolver corrigir o rumo das 
coisas, quase sempre tropeam nas dificuldades que so, em sua enorme 
maioria, decorrentes da falta de coragem ou de excesso de pena para impor as mudanas e os castigos necessrios, e recuam diante da teimosia, 
insistncia e"fora" das crianas. Aparticipao dos avs ou outros familiares, com anuncia dos pais, contribui demais para neles incutir um falso sentimento de 
piedade que chega a obscurecer suas vises e impedir 
que tomem com os filhos condutas sabidamente benficas, de resultados 
positivos imediatos ou para mdio e longo prazos. 

Nunca fomos contrrios  participao dos familiares e amigos na 
educao dos filhos, mas somente quando limitada to-apenas  posio 
reservada a essas pessoas e nunca como substitutos de pais presentes, e 
com o dever de atuar. 

De qualquer maneira,  em ocasies em que o comportamento das 
crianas no anda de acordo com o esperado, em que discrdias ocorrem 
entre os cnjuges, ou entre eles e os circunstantes, em que h discusses, 
brigas eatameaas de separao docasal ou deesfacelamento dafamlia, 
e de caos, que costumamos receber famlias  procura de uma soluo. A 
primeira coisa em que pensam  que algum problema de ordem fsica 
pode estar acontecendo com a criana e, na verdade, essa  uma grande 
possibilidade ou at probabilidade. Mas raros so os casos em que problemas fsicos so causas nicas e isoladas de perturbao de comportamento. O mais comum, quando 
presentes,  terem eles sido o estopim que deflagrou a adoo, em cadeia, de excees s condutas previamente 
estabelecidas e que, por sua vez, so causa primria das perturbaes 
comportamentais. Essas excees mantm as perturbaes em crescimento vertiginoso e em progresso geomtrica. 

Ao lado da teraputica medicamentosa para os males fsicos, em 
quase todos os casos so necessrias medidas que mudem os hbitos ambiento-comportamentais de todos os participantes, a fim de se consegui- 
rem resultados satisfatrios. E  nesse particular que encontramos as 
maiores dificuldades quando, ao sugerir condutas que exijam pacincia e 
tolerncia comochorodacriana ou indiferena emrelao aalgumasde 
suas atitudes, ao sugerir punies, simples repreenses ou assuno da 
autoridade que deve ser exclusiva do casal ou, ainda, condutas como 

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A auto-estimulao precoce do beb 

deixar adormecer sozinha, deixar com fome quando no quiser aceitar 
comida, etc., esbarramos, se no com uma negativa formal e irrevogvel, 
com um "vamos ver se consigo" ou "vamos tentar" ou "vamos deixar para 
uma ocasio mais propcia", ou "vamos deixar para quando nossa casa 
ficar pronta", ou "ela vai melhorar quando for para a escola" e outras eva- 
sivas tais. 

A nossa posio  que as condutas corretivas devem ser tomadas na 
ocasio em que so procuradas e, portanto so necessrias e urgentes, sem 
delongas porque, se forem adiadas, no futuro sempre estar reservada 
uma situao pior, com uma criana maior e mais resistente, com os pais 
e familiares mais exaustos, todos com vcios mais arraigados e menos dispostos "s lutas". 

Distrbios de comportamento freqentes 

Vejamos alguns exemplos, a ttulo de ilustrao, de comportamentos 
estranhos e problemticos mais comumente encontrados nas crianas, 
responsveis por interminveis conversas entre pais, mdicos, psiclogos, 
"curiosos e entendidos" amigos e familiares e que refletem a enorme e 
constante preocupao que causam.  interessante observar que so 
muito mais numerosas as queixas de distrbios de comportamento envolvendo agitao do que reduo de atividade ou, pelo menos, as queixas 
de maior atividade chegam mais rapidamente  procura de ajuda. 

A criana excessivamente ativa 

Uma das queixas mais comuns  a da criana "excessivamente ativa" 
e "que no pra um minuto". Esse tipo de comportamento pode ter in- 
meras variantes. Sem nenhuma dvida, o excesso de atividade tem uma 
conotao gentica, a criana traz na sua bagagem hereditria caracters- 
ticas para ser assim. Esse padro gentico da atividade excessiva, assim Co- 
mo todos,  ditado pelos genes localizados nos cromossomos que, por sua 
vez, se situam nos ncleos de todas as clulas e so os responsveis por to- 
das as caractersticas do indivduo, anatmicas, funcionais e comporta- 
mentais. Sabe-se tambm que essas caractersticas, para se manifestarem, 

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Dr. Henrique Klajner 

precisam sofrer influncias do ambiente no qual ela vive. Tanto  que, 
com a seqncia de geraes, pode at haver mutaes dos genes a fim de 
permitir adaptao a diferentes ambientes. Uma pessoa loira, por exem- 
plo, de pele muito branca, oriunda de um pas nrdico, se passar a viver 
num outro de clima tropical, tem o seu organismo aos poucos se adap- 
tando s novas condies e seus descendentes podero at mudar o tipo 
de pele para um outro mais moreno. E muito conhecida e difundida a 
idia das influ~ncias do meio sobre todos os animais, incluindo o ser hu- 
mano. 

Voltando  criana de comportamento agitado, a preocupao dos 
pais sinaliza para insatisfao e desconforto e, se vm pedir socorro e 
soluo,  porque algo no "se encaixa" dentro dos anseios da famlia. 
Digo "anseios da famlia" porque a vivncia nos ps inmeras vezes em 
contato com famlias perfeitamente satisfeitas com seus filhos muito 
agitados, embora considerados mal-educados e inconvenientes por terceiros. Muitas vezes, essas crianas vm para serem atendidas por outros 
e variados motivos e, embora possa no ser a queixa do momento, o as- 
sunto agitao, quando suspeito ou diagnosticado, deve ser abordado e 
discutido amplamente para verificar se o comportamento se enquadra 
no sistema sociofamiliar da criana. Para muitos pais essa abordagem se 
constitui numa surpresa, e as eventuais advertncias sobre possveis 
problemas futuros como conseqncias do atual excesso de atividade, 
podem ser de difcil entendimento ou aceitao. De qualquer maneira, 
crianas "respondonas", provocadoras, agressivas, briguentas, incomodativas, que cospem nos outros, mexem em tudo, querem tudo o que 
vem, insistem na compra de tudo e dizem palavres, dificilmente podem chegar a ser consideradas normais, mesmo pelos pais mais con- 
templativos. 

As crianas muito ativas demonstram que seu passado foi de grande 
estimulao, A auto-estimulao, associada a eventual estimulao extra 
por parte do meio, lhes confere um aumento do ritmo e do grau de de- 
senvolvimento em todos os sentidos, desde o fsico at o intelectual, 
Como j foi dito, o desempenho de cada uma tende a atingir o mximo 
possvel exatamente porque todos tm inerente o instinto de evoluir cons= 

144 




A auto-estimulaco precoce do beb 

tantemente, atravs de aquisies progressivas, rpidas e ilimitadas, visan- 
do ao aproveitamento mximo do tempo de que dispem. O acompa- 
nhamento dessa evoluo permite, dia a dia, ms a ms e ano a ano a confirmao dessa assertiva, desde que o programa da auto-estimulao seja 
adotado e seguido. Cho a partir dos dois meses de idade e ajuda to-so- 
mente para aquilo que no conseguir sozinha so os pilares da essncia 
dessa assertiva. A cada dia que passa a criana demonstra capacidade crescente para compreender, reconhecer, lembrar, executar, responder ao 
meio,reclamar oque deseja, reagiretudo em conformidade com omode- 
lo familiar e ambiental oferecido, isto , auto-estimulao e limites. 

Acontece que chega um determinado momento em que, supersatis- 
feita consigo mesma, com sua auto-realizao e auto-estima bem confi- 
guradas, a criana passa a sentir-se confiante, "dona da situao" e "capaz" 
de tudo, com todos os direitos de ir e vir, com "carta branca" e liberdade 
para tudo. A essa altura, coincidindo com a idade em que consegue se locomover rolando ou engatinhando, e mais ainda quando j anda, aproxi- 
madamente a partir dos oito meses de idade, chega a hora dos pais 
comearem a impor limites s suas atividades. 

Na verdade, esses limites j vm sendo impostos desde o nascimen- 
to atravs dos horrios, intervalos, quantidades e tipos de alimentos, do 
tempo para brincar, das condies de ficar no colo, de dormir, enfim, de 
todas as condutas ditadas pelo esquema de auto-estimulao. Quando 
ela comea a demonstrar capacidade para executar coisas de "gente 
maior", torna-se "engraadinha", alvo da ateno e motivo de lazer e divertimento para os adultos. E  quando a tentao de interromper o respeito aos limites comea 
a atacar os circunstantes. Na nossa opinio,  
exatamente a falta da exigncia dos pais em fazer as crianas aprenderem 
os limites e respeit-los a responsvel direta pelos comportamentos aber- 
rantes eextremamenteativos das crianas. Na maior parte dos casos, elas 
fogem ao seu controle e, por isso, se tornam motivo de grandes preocu- 
paes, desentendimentos conjugais e at causas de separao dos cn, 
juges. A falta de limites representa, para essas crianas, um excesso de es- 
timulao que ultrapassa o esperado na auto-estimulao pura e 
simples. 

145 



Dr. Henrique Klajner 

Os limites, embora existam em tudo, sempre e para tudo, encontram 
multas dificuldades para serem apresentados s crianas e respeitados por 
elas. At hoje no consegui entender por que os pais relutam tanto em 
faz-lo. Penso terem eles um bloqueio enorme para compreender que os 
filhos, apesar de pequenos, algum dia sero grandes e adultos, devero 
passar por fases intermedirias at chegar l e em todas elas, e mais na 
adultcia, os limites falam mais alto do que as permisses. Durante a vida 

o "no  muito mais encarado e sentido por todos que o "sim e o no de- 
front-lo com maior freqncia se deve ao fato de, a partir de algum momento, aprendermos a conhecer, reconhecer e respeitar nossos limites. 
Em geral, ouve-se dos pais: "...mas ela  to pequena, coitadinha,  to en- 
graadinha,  to divertida que merece tudo o que quiser. Quando for 
grande aprender o que pode e o que no pode fazer, ensinada pela vida 
ou pela escola. Alm do mais, o que me custa satisfaz-la se  to fcil...". 
Tentamos sempre explicar que, no processo evolutivo e de 
aquisies, nem sempre o mais importante para a criana  intrinsica- 
mente o objeto da conquista. Todos j vivenciaram situaes em que, to 
logo seja conseguido, o objeto  deixado de lado para comear a tentativa 
de nova conquista, num ciclo que se repete continuamente. Na maior 
parte das vezes o interesse da conquista no est ligado diretamente ao 
ob)eto em si, pode at pertencer a outrem ou ainda ser algo que encontra 
por acaso  sua volta, muitas vezes at proibitivo ou perigoso. O interesse 
est no ato em si da conquista. Esse ato representa para ela a vitria e a 
auto-realizao e  to forte a ponto de levar a criana  insistncia 
obsessiva para conseguir realiz-lo. 

A insistncia em possuir ou manipular pessoas, objetos e situaes 
pode ser incentivada pela prpria tentativa dos adultos em impedi-la, 
Consideramos estar a criana sempre mais interessada no desenvolvimento evolutivo de sua habilidade em conquistar, em aprender a viver, em 
copiar e seguir o modelo ambiental para poder a ele responder e por ele 
ser aprovada e bem aceita, o que significa nada mais do que a procura da 
auto-afirmao, da auto-estima, das conseqentes felicidade e tranqili- 
dade para evoluir. Se o modelo familiar no inclui limites, estes no so 
assimilados como integrantes essenciais no processo de suas conquistas e, 
na tentativa de estabelec-los mais tarde, so encarados como elementos 

146




A auto-esfimulao precoce do beb 

fora do modelo e por isso desnecessrios para a auto-estima, rejeitados, 
repelidos e contra os quais a criana luta por senti-los, falsamente, ameaa 
s suas pretenses. 

A falta de estabelecimento de limites damos o nome de permissivi- 
dade. Os pais permissivos do, portanto, todas as condies para que na 
criana se instale o to conhecido comportamento sem limites. Como 
no pode haver vida em sociedade sem limites, algum dia estes aparecem 
obrigatoriamente para a criana e , ento, que os problemas comeam. 
Os pais "acordam" sofrendo uma agressividade muito grande por parte 
dos filhos j portadores de incapacidade de convvio at com terceiros, 
com outras crianas. So exigentes, briguentos, sem tolerncia para 
perder ou dividir, querendo tudo para si e sentindo a enorme frustrao 
diante das realidades que tm que enfrentar em escolas, em outros 
ambientes quando, antes acostumados a ter tudo sempre e em qualquer 
lugar, so obrigados a respeitar a presena e os direitos de companheiros 
e a deles sofrer muitas vezes castigos ou derrotas. 

As crianas no entendem por que de um momento para outro suas 
vontades e decises j no valem, j no so acatadas incondicionalmente 
pelas pessoas como acontecia at ento. Notam que os familiares mais 
prximos continuam a consider-las como sempre, mas as de relaciona- 
mento novo no. Passam a sentir incapacidade para enfrentar, resolver 
seus problemas e gerenciar suas vidas fora de casa, revoltam-se principab 
mente porque na realidade "a causa do que acontece no est fora, mas 
dentro do seu prprio meio familiar". 

A revolta gera necessidade de agredir, mas, no podendo dar vazo 
aos seus instintos indiscriminadamente, passam a agredir os circuns- 
tantes do prprio lar que, desde o incio, demonstram excessiva tolerncia 
com o intuito de compensar a "incompreenso dos estranhos,' numa busca constante de agradar e apaziguar. Mas, a tranqilizao atravs dessa 
conduta nunca vem; ao contrrio, a tolerncia recebida alimenta cada vez 
mais a agressividade porque a criana culpa consciente ou inconsciente- 
mente a famlia "por no t-la ensinado os certos, inevitveis e eternos limites da realidade do mundo, ao faz-la acreditar que nunca h limites 
para nada". 

147 



Dr. Henrique Klajner 

E eis que, de repente, o mundo  completamente diferente daquele 
ensinado,  hostil, exige esforos enormes para nele se ajustar. Mas esse 
ajuste s  conseguido lentamente, superando grandes obstculos que 
invariavelmente a levam a incontveis tentativas de desistir e voltar a 
procurar, na famlia, o auxlio e a superproteo de sempre pela comodi- 
dade e conforto que oferecem. Nesses casos, se o auxlio e proteo conti- 
nuarem, a mensagem que a criana recebe  a de que, apesar de fora de 
casa haver limites, dentro no h, e que suas dificuldades sero resolvidas 
com ajuda perptua de familiares ou de terceiros, que para sempre pode 
contar com eles e que nunca dever se preocupar com qualquer coisa que 
seja porque algum sempre a ajudar a resolver tudo. 

Vemos, portanto, que a atividade exageradamente estimulada, asso- 
ciada  falta de limites, leva a uma criana hiperagitada, difcil de ser con- 
trolada, agressiva, resultando posteriormente em inaptido, retrao, 
recolhimento ao ambiente domstico e, a longo prazo, numa pessoa reticente, medrosa, retrada, sem capacidade de resoluo, enfim, com falta 
de auto-estima por no ter podido se autovalorizar, infeliz e insatisfeita 
consigo mesma e, o que  pior, revoltada contra tudo, contra todos e principalmente contra sua prpria famlia a quem, em algum momento, pas- 
sa a culpar por "no t-la preparado para a vida". Dessa revolta podem 
surgir serssimos distrbios reacionais que incluem agresses aos pais, 
desde verbais at fsicas, como tentativas de homicdio e suicdio, sem 
antes considerar a possibilidade de "entrar" nas drogas como meio de fugir ou de sublimar os problemas da falta de adaptao e auto-estima. 

A criana tmida 

Outra queixa muito comum dos pais em relao aos filhos  exata- 
mente o oposto. Crianas muito tmidas, arredias, tristes, agarradas aos 
pais ou aos circunstantes, que choram facilmente e por qualquer motivo, 
com dificuldade para se entrosar em ambientes novos, que aparente- 
mente t6m medo de tudo e de pessoas, que nada fazem sozinhas e depen- 
dem sempre de ajuda, pedem tudo. Essas, talvez, sejam a maioria mas no 
so as que mais freqentemente ou em maior nmero procuram ajuda 
precoce. O fato de serem mais "quietinhas" faz com que no cheguem a 

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A auto-estimulao precoce do beb 

incomodar as famlias a ponto de as levarem rapidamente  preocupao 
e ao desespero. Essas crianas "mais calmas" at certa idade permanecem 
"grudadas" aos familiares a maior parte do tempo (vigilncia facilitada), 
no incomodam vizinhos, professores ou acompanhantes ocasionais, so 
mais obedientes, cordatos e, mesmo que em certas ocasies possam no 
se sentir confortveis, no se interessam em procurar porque nem sabem 
como, quando ou onde encontrar abertura para pedir ou exigir mudanas e solues. A sua evoluo transcorre sem que os pais se sintam in- 
comodados, at que ocorram situaes nos diferentes ambientes pelos 
quais passa a lhe solicitar um mnimo que seja de independncia e de- 
sapego, criando, para ela, insegurana e constrangimento ao se ver obri- 
gada a superar sozinha obstculos antes imprevistos e inimaginados e 
para os quais no teve preparo emocional algum. 

 quando os pais estranham e comeam a achar que algo est errado. 
A criana demonstra ansiedade, recusa-se a retornar ao ambiente onde 
foi criada a situao constrangedora, demonstra agressividade junto a 
evidentes ou disfarados pedidos de ajuda e proteo, poca"em que uma 
criana desta idade" j deveria estar aceitando um exame mdico sem me- 
do do div, dormir sozinha sem medos e fobias, querer, ou pelo menos 
no recusar, dormir na casa de parentes e amigos, no ser to chorona por 
qualquer motivo, deixar de mamar de madrugada, dormir em seu quarto 
e no mais com os pais, acatar o horrio normal de ir para cama e dormir 
continuadamente o sono noturno e diurno sem interrupes, no ranger 
os dentes, no falar ou se agitar durante o sono, deveria largar os brinque- 
dos de estimao para dormir, assim como os "companheiros" como chu- 
petas, fraldas e travesseirinhos. Comeam a estranhar os filhos no 
aceitarem ir  escola na idade apropriada e terem dificuldade para ali permanecer sozinhos, de aceitar e se adaptar ao ambiente,  professora e aos 
amiguinhos, voltarem dela excessivamente agitados, machucados, mordi- 
dos e arranhados, muito precocemente serem notificados, por parte dos 
professores e orientadores, de queixas por seus filhos serem excessiva- 
mente submissos ou reclamantes de privilgios e liderana, enfim, terem 
comportamentos que no correspondem s expectativas que tinham. 

A explicao de tudo isso est na superproteo, nas oportunidades 

que no lhes foram oferecidas para poderem descobrir, em si mesmas, o 

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Dr. Henrique Klajner 

potencial que tm. E  exatamente o que poderia ter sido feito atravs da 
auto-estimulao precoce. No oferecer o cho desde cedo significa 
deixar a criana no bero ou no carrinho ou no beb-conforto ou em 
cadeires ou, o que  muito pior, no colo, at uma certa idade e depois no 
andador. Qualquer lugar em que forem deixadas que no o cho, representa limitao para as suas atividades. No bero, as grades; no carrinho, 
as paredes; no beb-conforto, os cintos; no cadeiro, cintos e barreiras, as- 
sim como no andador; no colo, os braos das pessoas que, apesar de pare- 
cerem "limites", no exercem essa funo porque so mveis, maleveis e 
dispostos ase movimentar para satisfazer as mnimas vontades do beb. 
Esses locais represam a criana, limitam seu espao, impedem a movi- 
mentao, dando a idia de que o mundo  s para ser observado, no es- 
timulam o desenvolvimento por impedir a participao na dinmica do 
ambiente. Nos braos, menos estimulao ainda, uma vez que ensinam  
criana a desnecessidade de "aprender e de realizar" porque algum est 
sempre "realizando" em seu lugar. 

Essas crianas recebem, atravs desse procedimento, a mensagem da 
superproteo e da "impossibilidade de evoluir sozinha" porque o mode- 
lo que o ambiente lhe oferece  o da limitao precocemente instituda. 
Essas limitaes as obrigam a estar sempre pedindo, sendo atendidas ou 
servidas por terceiros, desenvolvem nelas uma dependncia material e 
afetiva que acompanha as poucas e precrias auto-aquisies que pode- 
riam estar alimentando alguma auto-estima, "escravizam-nas como de- 
pendentes", fazendo com que compreendam que, no seu meio, "as coisas 
se desenrolam assim". Impedem perspectivas de mudanas porque as 
crianas desconhecem que pode haver outro tipo de comportamento am- 
biental e por isso nunca o exigem, at que problemas decorrentes da no- 
concordncia entre as condutas tomadas e os resultados que delas se es- 
pera apaream e obriguem o meio a mudar seus procedimentos e se 
lanar, com as crianas, em busca da auto-afirmao e da felicidade. Por 
ser esse o modelo apresentado, assim ele ser aprendido, aceito, incorpo- 
rado e mantido. 

150




A auto-estimulao precoce do beb 

Sono, choro e birras 

Outras queixas, especficas, so tambm importantes e freqente 
motivo de procura de auxlio. Uma delas se refere  perturbao do sono. 
Crianas que choram e no querem ir para a cama nos horrios que os 
pais determinam, por exemplo, o fazem por variados motivos que depen- 
dem da idade.  muito comum pais relatarem que seus bebs choram "como se a cama tivesse espinhos" quando postos para dormir e que basta 
peg-los novamente para que se aquietem. Ou que, alm disso, acordam 
com muita freqncia durante a madrugada chorando para tomar gua 
ou para mamar, ou simplesmente para sentir a presena de algum. 
Muitas delas, quando mais velhas, no querem dormir sozinhas, ou re- 
cusam-se a ficar no escuro, ou perturbam-se com qualquer rudo na casa, 
ou no conseguem adormecer sozinhas ou, mesmo sem chorar, permanecem acordadas e quietas por longos perodos. Outras rangem os 
dentes ou falam dormindo ou desenvolvem atividades motoras mais 
chamativas como sentar ou andar (pseudo-sonambulismo) ou "jogam- 
se" em demasia a noite toda. O curioso  que a maioria costuma dormir 
com algum objeto de estimao brinquedos, fraldas, travesseiro ou 
chupeta , que funciona como companhia e condicionante para a in- 
duo ou manuteno do sono. 

Temos que insistir num fato: todo comportamento da criana segue 
sempre, invariavelmente, o modelo familiar proposto. O sono  obri- 
gatrio para todos os seres vivos. O repouso cerebral  indispensvel e es- 
tudos provam que o sono se impe a qualquer pessoa apesar de eventuais 
tentativas e esforos para no dormir.  uma necessidade fisiolgica e, 
queiramos ou no, ele sobrevm. Todos querem que o sono, principalmente o das crianas, seja tranqilo, todos querem que elas tenham o 
"hbito salutar de deitar e dormir numa boa". 

E assim sempre , salvo quando se condiciona a criana a desvios 

desse hbito. O desvio desse hbito s acontece quando o modelo apre- 

sentado  criana no  o mais indicado para levar ao desejado. Assim co- 

mo em outros tipos de desvios comportamentais, os referentes ao sono se 

devem a excees que a famlia abre em momentos especiais, s quais as 

crianas aderem ou porque passam a apreci-las mais ou por entender 

151




Dr. Henrique Klajner 

que os hbitos esto mudando e, para serem bem aceitas, entendem que 
devem a ele aderir, mesmo que eventualmente possam no gostar. Por 
exemplo, uma criana perde o sono por um atraso eventual em seu 
cronograma; a famlia saiu e chegou tarde, visitas impediram por qual- 
quer motivo o andamento costumeiro dos hbitos domsticos, enfim, a 
criana que dormia bem todos os dias s vinte horas foi mantida at mais 
tarde fora do bero. Devido ao maior cansao, estranhou, chorou, irritou- 
se, no quis aceitar alimentao priorizando o sono e, quando foi posta s 
vinte e duas horas no bero, muito excitada, no conseguiu conciliar o 
sono. Numa tentativa de acalm-la, desde o incio de sua irritao, os cir- 
cunstantes agradaram, balanaram-na no colo ou no carrinho, oferece- 
ram-lhe gua ou leite, passaram-na de mo em mo e, com tudo isso, em 
vez de acalm-la, conseguiram excit-la ainda mais porque esqueceram 
que, para dormir, qualquer pessoa precisa deitar, ficar no escuro, fechar os 
olhos e no ser importunada com condutas que a possam irritar, impedir 
que durma e a despertar. Costumo sempre dizer que se, por algum moti- 
vo uma pessoa ao se mexer na cama para mudar de posio ou para coar 

o p enquanto dorme, algum o chacoalha perguntando "o que foi?" ou 
"se deseja alguma coisa"  claro que o sono se superficializa e a pessoa 
desperta, por sinal muito irritada, porque seu sono foi interrompido sem 
necessidade. Com a criana  igual. Quanto mais  manipulada, menos 
condies ela tem de manter ou voltar a conciliar o sono. E se, ao mesmo 
tempo, ela percebe que no dormindo atrai mais ateno atravs de tudo 
o que as pessoas fazem para que durma, que no dormindo e chorando as 
pessoas se preocupam mais com ela e, ao contrrio, adormecendo deixam-na sozinha,  claro que tender a no querer dormir para no perder 
a condio de centro das atenes. A partir de uma ou duas experincias 
semelhantes, o no querer dormir j  demonstrado de imediato, antes 
mesmo do horrio normal de ir para a cama. 
As pessoas, para se verem livres do choro ou dos chamamentos du- 
rante a noite e poderem dormir, pensam que agradar oferecendo tudo o 
que tm de bom  o melhor caminho para "calar" a criana e obter o 
almejado. Isso poderia, talvez, valer para crianas maiores que j vivencia- 
ram o suficiente para compreender explicaes e comparaes entre 
fatos, mas no para crianas pequenas, at dois anos e meio, porque seu 

152




A auto-estimulao precoce do beb 

aprendizado  por condicionamento de estmulos. Elas ainda no tm desenvolvida a capacidade de entender que, recebendo o agrado, est "ga- 
nhando um presente" para compensar e deixar de fazer o que est fazen- 
do. Ela relaciona o agrado exclusivamente ao que est fazendo e "conclui" 
que o ganho veio para premi-la exatamente pelo que est fazendo. Ento, 
para continuar a ser premiada ou sempre que quiser ganhar um "prmio", 
continuar ou voltar a fazer o mesmo que est fazendo ou fez. Se no 
ganhar, intensificar o que est fazendo at que ganhe, imaginando que 
"ainda no ganhou" por no ter conseguido realizar ainda o suficiente 
para merecer. Surge assim o desvio do comportamento, com os pais 
dizendo que "j tentaram tudo e nada conseguiram". 

O nico modo de aquietar uma criana que chora sem qualquer motivo importante, por birra,  permanecer indiferente ao choro, suportan- 
do-o at que adormea espontaneamente, passando-lhe a informao de 
que "no adianta chorar" porque com o choro no ir conseguir a ateno 
pretendida. Depois de algumas vezes em que essa conduta for tomada, a 
criana condiciona-se a no mais chorar por falta de retorno e passa a 
dormir, inicialmente pelo cansao e posteriormente por verificar que o 
sono lhe  muito til e oportuno. 

Mais uma vez insisto no mesmo ponto, O modelo familiar, amparado pela"constituio" familiar, deve ser apresentado desde o comeo e, se 
porventura acontecer qualquer episdio em que circunstancialmente o 
modelo tiver que ser alterado, que o seja pelo tempo mnimo necessrio e 
volte o mais rapidamente possvel ao original, que no se d. importncia 
s reivindicaes e ao choro que sobrev~m, permanecendo indiferente a 
eles. A criana fatalmente volta ao comportamento anterior. O comportamento s  desviado quando a criana sente dvidas ou ambigidade na 
apresentao do modelo familiar, o que, para ela, significa insegurana do 
meio. Essa insegurana deixa-a, conseqentemente, tambm muito insegura porque sua segurana tem como base exatamente a segurana trans- 
mitida pelo seu meio atravs de condutas firmes e fiis  "constituio" fa- 
miliar. Quando insegura, a criana procura chamar a ateno dos 
circunstantes atravs de comportamentos que os incomodem, como a 
lhes dizer: "faam algo por mim porque estou necessitada de apoio e se

 

gurana. 

153 



Dr. Henrique Klajner 

Dependendo das pessoas com as quais a criana tem relao, atrair a 
ateno pode ser conseguido de maneiras muito simples como falar ou 
chamar, ou se elas forem resistentes, de outras mais incomodativas como 
chorar forte, gritar, berrar, jogar objetos para fora do bero, pular suas 
grades e, inclusive, cair. Qualquer uma delas que o conseguir, ser consi- 
derada vlida para ser usada sempre que a criana tiver necessidade de 
atrair atenes. 

Quando se interrompe o ciclo descrito com indiferena ao choro e s 
atitudes da criana, est se ensinando a ela que nada do que vem fazendo 
 valorizado pelo meio ou lhe trar o pretendido. Alguns episdios de in- 
diferena, repetidos e seguidos, nos quais se consegue frustrar todas as 
tentativas de chamar ateno, so necessrios para que assimile a verdade 
de que nao so mais "lucrativas". Por ser a criana normalmente "inte- 
resseira e egosta", ela cessa com as tentativas assim que assimila a idia de 
que "esse tipo de aplicaes" lhe d "rendimentos" nulos. Pra de investir 
no "negcio antes lucrativo e que agora j deixou de ser" para investir em 
outro, qual seja, concordar com as novas propostas do meio. Imediatamente percebe que essa concordncia lhe traz os benefcios de ser 
bem aceita e, por isso, mais feliz. Da em diante, procurar sintonizar-se 
cada vez mais com o meio a fim de sempre dele obter a almejada 
aceitao, retornando ao equilbrio comportamental requerido pelo 
modelo familiar. 

 sempre difcil convencer os pais a agentar choro e birras por al- 
gum tempo e de que a pacincia, nesses casos,  o melhor caminho para 
conduzi-los ao to almejado lucro -o comportamento normal de um fi- 
lho adaptado  famlia.  um investimento que vale a pena, mesmo. 

Escola 

Importantes, tambm, so problemas comportamentais trazidos pe- 
los pais e relacionados  escolaridade dos filhos. A escola, ambiente fun- 
damental e imprescindvel na formao de todos,  o lugar cujas formas e 
finalidades variaram com o tempo. Em pocas mais remotas, suas finali- 
dades primordiais eram o ensino, o aprendizado, a cultura, numa sala 
onde algum ministrava aulas e ensinava aos que sentavam  sua frente, 

154




A auto-estimulao precoce do beb 

estruturado basicamente para esses objetivos. Havia crianas que, por 
motivos variados, no freqentavam aulas coletivas, eram ensinadas em 
suas prprias casas. A idade para comear os estudos era mais tardia em 
relao  atual, havia oportunidade para que a criana tivesse uma infn- 
cia adaptada ao crescimento, aprendesse primeiro o que o seu meio 
domstico lhe oferecia, fosse por ele auto-estimulada e dotada da noo 
dos seus limites. O ensino propriamente dito, dirigido, especfico e com 
obrigaes, iniciava-se ao redor dos sete anos de idade. 

O progresso e o crescimento cada vez maiores das populaes e das 
cidades levaram a mudanas na forma, nas funes e nos objetivos das es- 
colas. As residncias das famlias foram se tornando cada vez menores, o 
espao livre para a infncia foi nelas diminuindo na mesma proporo, as 
atividades profissionais do casal, principalmente as da me, ganharam 
maior nfase no suprimento econmico do lar e outros motivos no 
menos importantes fizeram com que a permanncia dos filhos em casa 
fosse reduzido em tempo, em espao, obrigando as famlias a encaminh- 
los para escolas mais precocemente. 

Em tudo existem prs e contras. Pode-se discutir sobre vantagens ou 
desvantagens em pr os filhos mais cedo na escola, mas uma coisa  certa: 
se o progresso pede, no podemos nos abster de acompanh-lo sob pena 
de provocar defasagens que posteriormente exigiro esforos redobrados 
para serem compensadas. Ao mesmo tempo, os pais, ao planejar para seus 
filhos determinados comeo e o tipo de escolaridade, e principalmente se 

o incio for precoce, deve, desde o nascimento, providenciar condutas 
nesse sentido. Essas condutas no devem se restringir  escolha da escola 
ou  reserva de vaga, e sim  preparao do beb para uma situao de 
precocemente passar a freqentar mais de um ambiente, coisa que at h 
algum tempo acontecia depois dos cinco anos de idade. Novamente che- 
gamos  auto-estimulao precoce,  conduta que possibilita  famlia dar 
s suas crianas a oportunidade de evoluir espontaneamente e de acordo 
com seu modelo, na medida certa e individual, com o devido preparo 
para o pretendido e sem gerar fobias ou dependncias afetivas. 
De qualquer modo, nos dias de hoje, a idade ideal para a criana 

155




Dr. Henrique Klajner 

comear a freqentar escola  em torno de dois anos a dois anos e meio 
porque, at ento, a imunidade contra as infeces mais comuns nessa 
faixa etria ainda no est bem amadurecida. A maturidade imunolgica 
 adquirida progressivamente desde o nascimento e, em geral, chega aos 
oitenta por cento da do adulto em torno dos trs anos. Antes dos trs 
anos, permanecer num mesmo ambiente com outros companheiros da 
mesma idade facilita a propagao das infeces de um para outro, dando 
oportunidade a crculos viciosos quase permanentes de contaminao. 
Por um lado,  sabido que essas infees freqentes aceleram as aquisies 
imunolgicas mas, por outro, dificultam o desenvolvimento harmnico 
tanto fsico como neuropsicomotor e mental-intelectual, podendo tambm trazer transtornos, preocupaes, despesas com medicamentos e impossibilidade de freqentar 
a escola e falta dos pais ao trabalho. Temos, no 
final, uma situao de "impedimento escolar" da criana causado pelo 
prprio comparecimento dela  escola. Paradoxal? Penso que sim, 
Concordamos com escolaridade anterior aos dois anos mas apenas em 
casos de necessidade, como, por exemplo, o trabalho da me. Mesmo en- 
trando na escola depois de dois anos e meio, as infeces prprias desse 
grupo tm ainda uma incidncia alta. 

O incio da escolaridade representa, para a criana, a ampliao dos 
crculos que a influenciam, uma expanso do ambiente fsico em que vive. 
Quando aos dois anos e meio de idade  posta em contato com outra realidade que no a do lar, se lhe est oferecendo a oportunidade de poder 
expandir suas conquistas, seus conhecimentos, suas aquisiqes, o que, 
para as que foram at ento orientadas na auto-estimulao precoce um 
prato cheio.  claro que a mudana brusca de rotina lhe causa estranheza 
e requer um tempo varivel para que possa se adaptar, se condicionar e 
nela se incorporar. No entanto, isso no  bice algum porque a auto-estimulao precoce j ter se "responsabilizado" pelo seu preparo s mudanas, como j ter 
acontecido anteriormente com outras em sua casa. 

A estimulao da criana na escola torna-se muito maior porque, 
alm da auto-estimulao domstica que continua, ela passa a receber a 
exercida pelos professores e orientadores atravs das atividades progra- 

156




A auto-estimulao precoce do beb 

madas para ensino e lazer, como tambm pelos prprios companheiros, 
em geral do mesmo grupo etrio, oriundos de diferentes famlias com 
orientaes das mais variadas, de diferentes tamanhos e tipos constitu- 
cionais, com hbitos diversos, com necessidades diversas, ase influencia- 
rem mtua e incessantemente pelo contato constante, por disputas, con- 
cesses, ofensas e perdes, e tudo nada mais  do que troca de influncias, 
benficas sob todos os pontos de vista, principalmente no que tange  so- 
ciabilizao, definio de liberdades, direitos e limites, enfim, aprendiza- 
do de vida que comea na tenra idade 

A escola sempre foi,  e sempre ser um dos mais importantes ins- 
trumentos da sociedade. Suas funes, alm do ensino propriamente dito, so as de oferecer continuidade ao ambiente domstico como incio da 
ampliao dos crculos de influncia sobre a criana e, com isso, carrear- 
lhe novos elementos auto-estimulantes, objetivando dar noes de vida 
em sociedade, de comportamento em grupo e, assim, ampliar seus hori- 
zontes, seus conhecimentos de limites sensu latu, de respeito aos direitos, 
seus e de terceiros, de obedincia a autoridade, de aceitao de hierarquia, 
enfim, inici-la no processo normal de adaptao aos sucessivos modelos 
ambientais, a partir do modelo familiar. 

O incio da escolaridade invariavelmente causa preocupao infunda- 
da nos pais e nas famlias e encontra explicao no fato de eles estarem 
constantemente levando em considerao experincias de terceiros atravs 
das quais tm, na maior parte das vezes, impresses erradas de que a esco- 
la " um bicho de sete cabeas"  um lugar onde a criana "sofre" porque 
permanece um "longo" perodo longe de casa, da famlia e, principal- 
mente, da me, um lugar onde ter que obedecer s ordens dos orientadores, suportar agresses dos companheiros e frustraes por suas von- 
tades nem sempre poderem ser satisfeitas.onde "sofre" porno ter quem 
troque suas roupas com a devida rapidez e no tem seu lanche do qual tan- 
to gosta; "sofre" por ter de agentar sonolncia quando no tiver autorizao para dormir, enfim, sofre por ter de se enquadrar numa realidade dife- 
rente da de sua casa. Tudo soa, para os pais, como sofrimento mas, se for 
convenientemente analisado, vemos que a escola, depois do lar,  o "prximo passo" no sentido de continuar o desenvolvimento da criana. 

157 



Dr. Henrique Klajner 

Como tudo quando comea, a escola  uma novidade para a criana. 
Se at ento ela tiver sido convenientemente auto-estimulada, se tiver re- 
cebido as informaes e ensinamentos normais relacionados ao meio que 
pertence, se os pequenos e sucessivos limites tiverem sido apresentados  
medida que foram aparecendo, a escola significa para ela apenas a conti- 
nuao e mais um "desafio" para outra conquista, da mesma maneira co- 
mo poderia ter sido dormir num quarto diferente do seu, brincar numa 
outra rea que no a habitual da sua casa ou freqentar lugares que no a 
sua casa ou sua rua ou, ainda, ir a um shopping center diferente. 

Em qualquer novo contato se fazem necessrios alguns "primeiros 
minutos para familiarizao", o que permite conhecer e condicionar  
novidade, a ela se adaptar e aceitar como rotina.  claro que quanto mais 
rico em informaes for o objeto de conhecimento, em imagens, sons, sa- 
bores, cheiros, sensaes tteis, mais tempo e maior nmero de vezes a 
criana necessita para a devida aceitao. Como a escola  um "pequeno 
mundo repleto de variveis e informaes", dependendo da criana, do 
seu perfil gentico e do que ela tiver aprendido antes, essas informaes e 
variveis so incorporadas mais ou menos bem e rapidamente, De qual- 
quer modo, cada criana necessita do "seu tempo" para aceitar, se adaptar 
e passar a freqentar a escola de maneira harmnica, durante o qual se 
deve insistir junto aos pais para que tenham bastante pacincia e dem o 
tempo necessrio e suficiente para seus filhos. 

Esse perodo  chamado de perodo de adaptao, durante o qual 
muitas escolas exigem a permanncia de um dos pais ou de algum responsvel em algum recinto seu para a criana conseguir, aos poucos, 
acostumar-se e concordar em depois ficar sozinha. Questionamos tal 
exigncia e confessamos ainda no termos posio firmada quanto  ne- 
cessidade e validade dessa permanncia, mas nossa tendncia atual  a de 
dispens-la porque achamos que a permanncia dos pais na escola apenas 
adia o "trauma" da separao, ainda com a desvantagem de lhe ter antes 
dado a entender que o acompanhante poderia estar pertencendo ao am- 
biente escolar e de ali dever sempre permanecer. 

Em geral a criana auto-estimulada  feliz pela auto-satisfao que 

158 



A auto-estimulao precoce do beb 

sente por ter se auto-realizado sem desenvolver dependncias afetivas de 
nenhum componente do seu lar, principalmente me e pai. Estes representam elementos a lhe satisfazerem apenas basicamente naquilo que no 
consegue realizar  prpria custa. , como j dissemos, condicionada a 
sempre tentar o "sucesso" sozinha; o desafio de permanecer e conquistar 
a escola  por ela entendido como mais um no seu contnuo e infinito ca- 
minho. Portanto, o perodo de adaptao  muito menor se a criana tiver 
sido auto-estimulada e se ficar desde o primeiro dia sem nenhum acom- 
panhante. Entende, assim, que ficar s no  a coisa mais agradvel no 
momento, mas que, quando o conseguir, ter ganho uma batalha dis- 
putada contra seus prprios impulsos contrrios e alimentado mais ainda 
sua auto-realizao, auto-satisfao, autoconfiana e auto-estima. Mesmo 
porque, aprende que, depois daquele curto perodo do dia em que per- 
manece na escola, a me retorna para busc-la. Somos da opinio de que, 
mesmo que nos primeiros dias "faa escndalos", a criana deve l conti- 
nuar sem acompanhante, superar sozinha mais esse momento de tran- 
sio e sentir-se vencedora. 

Criana que se recusa a ir para a escola e tem dificuldade para se 
adaptar ao ambiente, s professoras, aos amiguinhos, que no quer sepa- 
rar-se da me ou do acompanhante est apresentando sinais de uma li- 
gao afetivamente dependente do meio de origem, indicando no ter si- 
do convenientemente auto-estimulada. Isso que dizer que no tem 
desenvolvida a segurana, nem a capacidade de se auto-induzir a tentar 
"resolver seus problemas" sozinha e de sempre necessitar de algum para 
ajud-la (como provavelmente vem acontecendo em casa). A esperana 
de conseguir tal ajuda tira dela a inciativa de "se virar sozinha". Se no for 
mais ajudada e se todos tiverem pacincia de aguardar que essa fase 
passe, fatalmente ela ir aos poucos encontrando o caminho da auto- 
estimulao. 

Criana que volta da escola mordida, arranhada, escoriada, com 
sinais incondicionais de agresso,  agressiva a ponto de ter "recebido al- 
gum troco" de outra criana ou  submissa demais a ponto de no retru- 
car quando agredida. Em ambas as circunstncias mostra que seu rela- 

159




Dr. Henrique Klajner 

cionamento no ambiente est deixando a desejar. Em geral, a criana  
agressiva na escola porque em casa suas agresses no foram contidas 
convenientemente com os limites necessrios e suficientes ou porque seu 
lar  muito agressivo e foi onde, por necessidade de sempre se defender, 
aprendeu a "tcnica" da agressividade ou porque, no lar, foi, por algum 
motivo, obrigada ase submeter a agresses e se tornou revoltada contra 
elas ou, ainda, ambas possibilidades juntas. 

Nesse particular  oportuno comentar queixas de professores ou de 
mes relativas  agressivade ou submisso de crianas, estranhadas e no 
compreendidas, porque "em casa ela costuma ser pacata ou, por outro lado, cheia de iniciativas..." e na escola acontece exatamente o contrrio. 
Isso acontece porque nem sempre em casa a orientao  a mesma da es- 
cola e a criana tem a capacidade de aprender ambas e praticar cada ensi- 
namento em seu respectivo meio. Se freqentar vrios meios de orien- 
taes diferentes entre si, comportar-se- em cada um deles de maneira 
diferente, conforme cada orientao. Com isso queremos dizer que a idia 
que muitos pais fazem de que "a escola corrigir" comportamentos 
domsticos anmalos  errada e irreal. Cada meio deve cuidar indepen- 
dentemente de sua orientao e cumprimento de condutas. Se lar e esco- 
la tiverem orientaes semelhantes, melhor, porque assim a criana en- 
contra continuidade ao freqent-las. 

Elogios da escola tambm surpreendem muitas vezes pais que at en- 
to nunca chegaram a notar algo que pudesse faz.-los pensar no comen- 
tado. Lideranas despertadas, recusa ou superaceitao dos lanches, en- 
fim, problemas que nos so trazidos encontram explicao em condutas e 
procedimentos domsticos at ento praticados e no condizentes nem 
preparatrios para o que a criana dever encontrar no futuro e, parti- 
cularmente, na escola. A escolaridade  uma fase da criana que sucede 
outras anteriores e que, como rodas, tem seu bom andamento dependente do bom andamento e do sucesso das precedentes. Todos os proble- 
mas comportamentais da fase escolar tm sua causa em desvios com- 
portamentais conseqentes a condutas anteriores no meio familiar. 
Como em tudo,  melhor prevenir do que remediar. Mas, se problemas 

160




A auto-estimulao precoce do beb 

comportamentais, independentemente de sua origem, surgem na fase es- 
colar, eles devem ser encarados, analisados e solucionados com adoo de 
condutas que visem remedi-los porque, se no o forem, agravar-se-o 
nas fases futuras. 

Outro assunto de interesse  o da escolha do perodo de estudo. Para 
crianas pequenas, at o fim da pr-escola, achamos mais indicado o 
perodo da tarde por ser maior, permitir que aproveite mais o ambiente 
escolar e,  me, um melhor aproveitamento desse tempo para resolver 
seus assuntos, sem preocupao. Alm disso, at cerca de trs anos de 
idade as Crianas necessitam dormir mais de manh, e ir  escola no 
perodo da tarde evita que enfrente o frio mais forte do inverno no pero- 
do da manh. A maior vantagem de ir  escola  tarde  que elas chegam 
em casa, ao fim do dia, cansadssimas, comem e logo vo dormir, per- 
mitindo tambm o "descanso merecido e necessrio" dos pais. 

161




1O 
Prevenindo desvios 
comportamentais 
mais graves 

Muito e sempre se tem comentado e discutido a respeito de como en- 
frentar os desvios comportamentais mais graves, como recuperar as 
crianas, jovens, adolescentes, adultos com problemas srios a bloquear 
sua evoluo individual e social e que provocam estragos materiais e 
morais. Como fazer com que consigam voltar ao comportamento normal 
e retomar um rumo compatvel com o convvio sadio e producente? 

As concluses aparecem acompanhadas de propostas de condutas, 
mas, apesar de adotadas, os seus resultados sempre deixaram a desejar, 
tanto no nvel de coletividade como no nvel individual. Os desvios comportamentais que levam  criminalidade, s drogas,  inatividade, ao 
suicdio ou mesmo aos casos bem simples de insucessos repetidos conti- 
nuam acontecendo em nmero astronmico, embora suas conseqtincias 
sejam temporariamente contornadas mas recrudescentes pela continuidade dos desvios. Ocorre como que se apenas se removesse a sujeira 
de um local sem remover sua fonte, sua origem. 

As pesquisas foram, aos poucos, empurrando os pediatras a se interessarem em conhecer a medicina dos adultos, passando antes pela 
adoo dos cuidados que requerem e merecem os adolescentes. Isso possibilitou o estabelecimento de relao entre as crianas, desde que 
nascem, com o que as espera em idades posteriores e na adulta. As 
pesquisas, principalmente os estudos de acompanhamento longitudinal 
das crianas at idades variadas, permitiram estabelecer ligaes de causa 

162




A auto-estimulao precoce do beb 

e efeito entre procedimentos adotados nas vrias fases pelas quais passam 
com a respectiva sade fsica, mental e comportamental, e tambm com a 
sade ao chegarem em idades mais avanadas. Verificou-se que a quase 
totalidade dos problemas com os quais os adolescente e adultos deparam 
tm origem em condutas erradas ou em outras que deveriam ter sido 
tomadas em alguma fase desde o nascimento e por algum motivo no o 
foram. Em muitos casos pode-se evidenciar a participao de compo- 
nente gentico. 

Foi surgindo, aos poucos, na cabea de gente interessada pelo problema dos desvios comportamentais, a idia de que a maneira de no ter 
problemas seria a preveno dos desvios com condutas adequada 
tomadas antes que eles possam se manifestar, do mesmo modo como se 
faz na infectologia e na imunologia, em que se previnem inmeras 
doenas com vacinas e outros procedimentos. Muitas delas, como a 
varola e j quase o sarampo, foram completamente eliminadas. Atravs 
de estudos se conseguiu provar a relao ntida dos desvios comportamentais com condutas pregressas no adequadas e atribuir a elas a causa 
das alteraes de comportamento, assim como nos primrdios da medicina moderna os pioneiros da infectologia conseguiram demonstrar, como causa de doenas, agentes 
infectantes como vrus, bactrias e outros. 
Poder-se-ia aplicar a preveno emocional de modo semelhante ao das 
vacinas. Como aconteceu com as vacinas e medicamentos, as propostas 
atuais em relao  orientao educacional e comportamental encontram 
resistncia e a sua aceitao est sendo difcil no s por parte da popu- 
lao (no s do Brasil), mas tambm de profissionais da rea, como pe- 
diatras e psiclogos. 

Sentir-se bem aceito no meio em que se vive  o que mais traz felicidade para o ser humano. Todos que nascem para viver em sociedade ne- 
cessitam dela na medida em que devem contribuir para sua j propalada 
evoluo global e incondicional. A aceitao de cada pessoa no ambiente 
em que vive depende do desempenho que demonstra ao receber e doar. 
Para receber e doar ao ambiente, deve-se conhec-lo o melhor que se pos- 
sa no sentido de saber o que a ele dar e o que dele esperar. Para essa troca 
salutar e harmnica, tanto o indivduo como seu ambiente, e a sociedade, 
devem mostrar tudo de que dispem da maneira mais honesta possvel. A 
medida que as trocas se efetuam com respeito e honestidade mtuos, a fe

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Dr. Henrique Klajner 

licidade se instala, alimentada sempre pela comprovao da realizao do 
objetivo comum. Assim, pode-se dizer que a felicidade se alicera na auto-realizao, realizao que se sente conquistada por esforo e mrito 
prprios. 

Quando vejo ou tenho notcias de crianas relacionando-se insatisfa- 
toriamente com familiares ou com o ambiente familiar sensu latu ou, ain- 
da, com outros de influncia no primria, fico seriamente preocupado. 
Entendo por relacionamento pouco ou no satisfatrio aquele que no 
satisfaz nem  criana nem aoscircunstantes. Esse "negcio" deconviver  
como qualquer outro negcio: para que seja bom deve satisfazer todos os 
envolvidos. Quando qualquer um se v prejudicado ou no completamente realizado, o "negcio" estcomprometido e condenado ao fracasso. 

 doloroso ver crianas apresentando, nas mais variadas idades e situa- 
es, comportamentos que so verdadeiros sinais de alarme a nos convidar 
para refletir e tomar alguma providncia no sentido de tentar corrigi-los, 
embora possam at parecer discretos e pouco significativos para outras, 
principalmente para os familiares. As providncias sugeridas, quando no 
sumariamente rejeitadas, raras vezes so aceitas no devido tempo pelos responsveis, como j tivemos oportunidade de comentar acima, na esperan- 
a de que "tudo se normalize espontaneamente com o tempo" 

So vrias as causas dessa rejeio. A mais importante  o fato de, se 
houver concordncia com as nossas idias por parte dos pais, implicita- 
mente eles estariam reconhecendo que se enganaram na orientao ado- 
tada com a criana at ento, envolvendo automaticamente outras pes- 
soas do relacionamento familiar como avs, bisavs, vizinhos e outras 
que poderiam ter participado e influenciado as resolues do casal. 
Comprometer tal relacionamento admitindo enganos e ferindo o ego de 
cada um  tarefa por demais difcil, quando no impossvel. Outra causa 
seria a falta de disposio para encarar mudanas na "constituio" familiar, mesmo concordando com as novas proposies, por elas exigirem 
disponibilidade de tempo, pacincia junto  criana e aos familiares. 
Outra, seria a no concordncia com as prprias proposies por motivos 
pessoais de formao ou de convico. Uma outra, ainda, seria o medo de 
arriscar e tentar novidades, ainda duvidosas para os pais, que poderiam 

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A auto-estimulao precoce do beb 

eventualmente fracassar devido a falhas, quer do mtodo, quer da prpria 
atuao da famlia ao no conseguir eventualmente cumprir o proposto. 
Um motivo de rejeio comumente encontrado, e a nosso ver o mais 
grave, muitos pais atribuirem prpria criana aresponsabilidade de ser 
ela mesma a causa principal dos seus prprios distrbios de comporta- 
mento "por ter um gnio difcil" ou "por ter puxado a algum parente exatamente igual" e "porque  gentico, no tem remdio". E, por ltimo, 
muitos pais, devido a inmeros motivos, tm medo de comear e no 
conseguir chegar ao fim das mudanas. 

A tendncia da maior parte dos pais  de, pelo menos com o primeiro 
filho, adotar postura superprotetora. Isso se deve  impresso de fragili- 
dade, incompetncia e extrema necessidade que quase todas crianas tm. 
Raramente se encontram pais que, por motivos no rotineiros como sen- 
timentos de rejeio ou medo de assumir situaes novas ou, ainda, por 
apresentarem fobias relativas a traumas pregressos, tendem ase comportar de modo oposto, isto , no superprotegem os filhos e at os ignoram. 
Superproteo significa oferecer  criana condies alm das necessrias 
 satisfao exclusiva das necessidades bsicas, apresentando um modelo 
familiar do qual constam muita ajuda para coisas que ela pode executar 
por simesma. Acriana aprende o modelo apresentado pelafamlia como 
condio para conseguir sobreviver e se desenvolver dentro dela. Se, por 
exemplo, sempre que for dormir algum permanecer ao seu lado, ela 
comea a considerar vlida essa permanncia porque "faz parte do modelo ensinado". Aps algumas vezes em que esseprocedimento repetido, 
passa a ser incorporado  rotina e ela no mais consegue dormir sem ter a 
pessoa lhe fazendo companhia. Cria a "certeza absoluta" dessa necessi- 
dade, cr que assim tem que ser por ser essa a vontade do ambiente e 
"obedece" ao que dita o modelo familiar. Alm disso, a criana  fiel ao 

meio,exigesempre o que deleaprendeu eincorporou, mesmo que no se- 
ja do seu agrado ou sente que no  o melhor para si, por ainda no ter co- 
nhecido nada diferente e, por isso, no poder fazer comparaes, esta- 
belecer diferenas e manifestar preferncias e, tambm, pela necessidade 
deassim secomportar para com ele seidentificar, ser por ele bem aceita e 
nele poder sobreviver. 

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Dr. Henrique Klajner 

Quase invariavelmente chega um dia em que os mesmos pais 
comeam a no se conformar com tal dependncia e achar que a criana 
j deveria estar dormindo sozinha e sem companhia. Esquecem que 
quando a superprotegeram, alm de terem apresentado um modelo fora 
das suas reais e futuras pretenses, impediram que ela pudesse ter desen- 
volvido aptides para algo to fisiolgico como o sono, que deve ser na- 
turalmente independente de qualquer ajuda ou condicionamento ou da 
participao de terceiros. 

O maior problema encontrado nas condutas dos pais, considerado 
por quem cuida e se preocupa com o desenvolvimento sadio das crianas, 
 o fato de eles raramente estarem preocupados, ao tomar providncias 
educacionais, com as conseqncias futuras da sua atitude e com as possveis influncias que essas condutas podero exercer no comportamento 
dos filhos. Seus objetivos quase sempre se limitam a resolver os problemas 
imediatos, aliviar as tenses momentneas de todos, conferir ao ambiente 
uma tranqilidade que pode at no ser autntica e definitiva, porm traz 
paz para aquele dia ou instante. Eles no conseguem entender que devem 
fazer valer mais a razo do que sentimentos quando se trata de, mesmo 
sem querer, serem obrigados a restringir a criana nos seus anseios e pre- 
tenses ou tomar atitudes mais enrgicas e necessrias quando se encon- 
tram envolvidos pela insistncia de uma criana sem capacidade de compreender o que os pais querem lhe transmitir e, por conseguinte, sem 
aptido para atender s suas ordens verbais. Mesmo se entendem, lhes  
muito difcil tomar tais atitudes. 

Vem-me  lembrana uma passagem ocorrida h poucos meses 
quando, ao tentar examinar uma criana de aproximadamente dois anos 
de idade, muito superprotegida em todos os sentidos, comeou ela a 
chorar convulsivamente, a debater-se e lutar com agressividade para im- 
pedir o exame. Sabemos que nessa idade  normal a criana chorar, no 
permitir o exame mdico, simplesmente porque ainda no consegue 
identific-lo como algo que no a prejudica, mas somente recordar as 
sensaes que teve em exames passados e que realmente no so nada 
agradveis. A aceitao prazerosa do exame clnico somente acontece de- 
pois dos dois anos e meio de idade, quando j h uma conscientizao 
maior, associada  capacidade de "classificar" as pessoas que conhece e 

166




A auto-estimulao precoce do beb 

ter o mdico como amigo ou, pelo menos, como algum que no lhe 
causa mal. 

Para examinar uma criana agitada  preciso cont-la, ao mesmo 
tempo que se conversa com ela como se nada estivesse acontecendo, res- 
peitando o choro como sendo normal para sua idade e, por ser normal, 
no merecer ateno especial. Tudo que se fizer em relao ao choro, 
criticar, consolar, agradar, acariciar, acaba por valoriz-lo e a far sentir 
que ele traz mais atenes, e o que se consegue  no final aliment-lo 
mais ainda. Depois de algum tempo ou algumas vezes em que assim se 
proceder, ela aprende que o exame no  "um bicho de sete cabeas", que 
 bastante tolervel e pode ser at bem aceito e "curtido" e j no reage 
contra ele. 

Pois bem, o pai daquela criana resolveu que no queria que ela fos- 
se examinada "na marra e  fora" e que eu o aguardasse conversar com 
ela para convenc-la a colaborar. Enquanto dava explicaes num portugus muito correto, dizendo que no iria doer, que seria rpido, que eu 
era bonzinho e amigo, que depois iria tomar remdios e ficar boa e que s6 
teria vantagens em deixar-se examinar, a criana aumentava sua irritabi- 
lidade, sua agitao e a situao piorava. Cerca de quinze minutos depois 
ele desistiu, saiu do quarto muito contrariado e permitiu que eu a examb 
nasse " minha maneira". O exame demorou no mais de cinco minutos 
durante os quais ela chorou e se debateu apenas durante os trs primeiros. 
Depois ficou calma e, pasmem, at me deu beijinho. 

O que acontece, quando se fala muito,  que o pai passa  criana a 
impresso de que "ele no est entendendo o que ela quer", isto , no ser 
examinada e, ao contrrio de sempre, desta vez ele no est querendo sa- 
tisfazer suas exig.ncias como faz habitualmente e, o que  pior, chorando, 
consegue dele "muita conversa", que representa mais ateno e, ainda, o 
alongamento do tempo para iniciar o exame lhe d idia de que ele pode 
at ser cancelado, valendo a pena continuar chorando (alimentao do 
choro). O tempo e a conversa "gastos" no aliviam a tenso, aumentam- 
na demais. Tudo pode ser abreviado, e com muito menos traumas, se a 
atitude de todos for apenas de indiferena em relao ao choro. Por fim, 
falar muito e de um modo que no respeita a pequena capacidade de 
compreenso da lngua portuguesa pela criana demonstra a mais pro- 

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Dr. Henrique Klajner 

funda falta de conhecimento que os pais tm do prprio filho e falta de 
respeito ao que ele ainda . 

Presenciar uma criana ser cobrada por algo que no teve oportu- 
nidade de adquirir ou aprender, outra ser perdoada por atitudes que j 
deveriam ter sido abolidas atravs de ensinamentos, ou de estabelecimen- 
to de limites adequados ou at de punies, uma terceira receber ensina- 
mentos contraditrios ou no concordantes com o modelo familiar ape- 

nas para acomodar situaes circunstanciais; saber de criana sendo 

punida indevidamente ou elogiada e premiada sem mritos prprios ou, 
ao contrrio, ser repreendida ou punida injustamente e, se com justia, de 
maneira branda ou enrgica demais, por tempo desmedido e sem critrio, 
enfim, crianas recebendo tratamentos que revelam pais ainda no conscientizados e no convictos da necessidade de se encarar uma criana como um ser humano merecedor 
de tudo o que foi descrito como ingredientes importantssimos, e includos na "constituio" familiar, para sua 
educao e desenvolvimento, deixa-nos profundamente preocupados e 
certos de problemas futuros. Achamos at aceitvel que os pais no este- 
jam preparados para educar seus filhos pelos mais variados motivos; 
aceitamos o fato de que a histria e os hbitos de cada famlia nem sempre permitem uma abordagem fcil para incutir idias novas; consi- 
deramos vlido que todos tm problemas dos mais variados para resolver, 
inclusive de adaptao conjugal e de relacionamento; acatamos at quem 
no concorde conosco, mas o que queremos enfatizar  a extrema neces- 
sidade de um aperfeioamento de costumes e de relacionamento constante que faa frente s mudanas extremamente rpidas que ocorrem em 
todos sentidos. Nada mais justo do que nos prepararmos o melhor que 
pudermos para dar a nossos filhos condies de evoluirem, progredirem, 
serem bem aceitos em seus meios e serem felizes atravs da sua auto-rea- 
lizao e auto-estima. 

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 Tchau, por enquanto... 


Crianas, vai para vocs essa ltima parte do que pretendi escrever. 
Afinal de contas, foi por e para vocs que dedicamos este singelo trabalho, 
que mais prazer do que esforo nos trouxe. 

Penso que nossos escritos no vo parar por aqui. Acho que, no devido tempo, outros viro para complementar este que considero apenas 
um incio e, talvez, diga respeito a vocs j adolescentes ou adultos jovens. 

A melhor criao que pudermos dar a vocs, nossos filhos, j no 
considero somente obrigao. Ela deve se constituir num prazer. Ela 
deve ser considerada um bem principalmente para vocs, mas tambm 
para quem os educa porque s assim a felicidade  geral, tanto na sen- 
sao do dever cumprido como na alegria de ver perfeitos os frutos da 
nossa misso. 

Parabns, Crianas, e muito obrigado por vocs existirem. Obrigado 
pela alegria que nos trazem os seus sorrisos, os seus choros, suas peraltices, sua energia, sua vontade de viver ou de apenas sobreviver, enfim, 
pelo bem que suas existncias nos trazem. Obrigado pela sua pureza, pela 
perfeio com que so "manufaturadas". Obrigado pelo seu silncio que 
nos perdoa as falhas e que nos aplaude as vitrias. Obrigado pelos gritos 
e choros que nos alertam e despertam para a realidade. Obrigado pela 
teimosia que nos faz perceber toda razo que suas sbias e puras cabeci- 
nhas encerram. Obrigado pelo altrusmo da compreenso que demonstram diante das nossas rabugices. Obrigado pelas~noites em viglia que 
nos afinam a mente, o esprito e o corpo, num aprendizado e evoluqo 
contnua e incessantes. Obrigado pelo simples olhar que encerra toda infinita bondade de Deus. Obrigado por tudo, milhes de vezes lhes 
agradeo porque,  imagem do nosso Pai, vocs so nosso Eterno 
Reincio... 

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O autor


Dr. Henrique Klajner  mdico pediatra, formado pela Faculdade de 
Medicina da USP. 

Este livro  resultado de sua experincia clnica de mais de 30 anos. 



Crianas antomotivadas, autoconfiantes e com elevada auto-estima so 
crianas felizes. Permitr s crianas que se desenvolvam assim, 

se automotivando e acumulando pequenas realizaes e auto-aquisies 
progressivas,  o mtodo proposto neste livro pelo prestigiado pediatra 
paulista, Dr. Henrique Klajner. 

 um mtodo que nada tem a ver com estimulao artificial. Pelo contrrio. 
d auto justamente porque  do beb que parte a necessidade de responder 
ao seu meio. E precoce, porque desde os primeiros dias de vida, desde 

o tero, o beb j est respondendo e interagindo com seu meio. 
O mtodo do Dr. Henrique  revolucionrio e, no entanto, absolutamente 
simples, sensato e eficiente. Ele permte que o prprio beb se automotive 
para responder aos estmulos naturais oferecidos por seu meio e 
seu dia-a-dia. 

Com linguagem direta e acessvel, como se estivesse conversando com os 
pais em seu consultrio, Dr. Henrique trata de assuntos que vo desde 

o reflexo de suco, mamadas, alimentao e sono, passando 
por detalhes de como deve ser o quarto, o banho, as roupas, os passeios, e 
chegando a problemas que todos os pais enfrentam ao impor limites e 
controlar mimos, birras, perda de flego, etc. O pediatra aborda 
praticamente todos os tens que preocupam os pais, dando dicas e 
sugestes para que eles se tranqilizem e deixem seus bebs se 
desenvolverem tambm tranqilos, para que se tomem pessoas 
automotivadas, auto-realizadas, autoconfiantes e, portanto, felizes. 
Um livro de inegvel utilidade para os pais e todos aqueles que 
lidam com crianas, sejam profissionais ou familiares. 
